Com morfina e rock’n’roll and roll

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Por algum motivo aos sábados eu consigo enxergar o que acontece ao redor. Boa parte das crônicas foram de histórias coletadas aos sábados. Quanta vida passa debaixo do meu nariz que eu não consigo ver? Naquele sábado, um adolescente menor de idade saiu da enfermaria acompanhado da família numa cadeira de rodas. Despediu-se dos técnicos alegremente. Nenhum dos técnicos me parecia confortável.

– O que tem o paciente? – perguntei para Samara, a técnica de enfermagem ao meu lado no balcão da enfermaria

– Câncer de testículo. Internou três vezes nesse ano. Na próxima vez vai ser mandado para sua equipe, Doutora e vai morrer aqui. Espero que seja depois das festas de final de ano.

Quanto mais os anos passam eu penso que quem tem cancha na enfermaria é capaz de prever as coisas que a medicina é incapaz de prever. Samara estava realmente triste.

– Deve ser difícil, né? Vocês se apegam, assistem o paciente piorar aos poucos e depois internar na nossa equipe, passam muito mais tempo com eles que a gente.

– É duro. Mas às vezes a gente consegue se despedir. Sabe, eu consegui me despedir da Dona Irene. Lembra dela, Doutora?

Até o porteiro do hospital conhecia Dona Irene. Um câncer de mama avançado e o úmero (o maior osso do braço) estraçalhado pelas metástases. Não havia bloqueio anestésico, morfina, cirurgia, gesso que desse conta da dor. Era muito difícil manter o membro imobilizado. A única saída seria um amputação, discutida pela equipe. Ninguém gosta de indicar uma amputação porque todas as outras medidas falharam. Dona Irene e a filha xingaram todo mundo e se negaram a fazê-la.

Quando a dor piorou Dona Irene finalmente concordou com a cirurgia, foi internada. Aí era tarde. A doença progrediu rápido demais e a cirurgia não pode foi realizada, ela não suportaria. Internada e recebendo com doses de morfina cada vez mais altas, a vida de Dona Irene era melhor que na etapa anterior. Um dos momentos mais difíceis era a hora do banho, em que ela era mobilizada.

– Um dia antes dela morrer eu cheguei: hoje a senhora vai tomar um banhão com morfina e rock’n’roll

Me ajeitei na cadeira. Parecia uma cena de filme. Tinha acontecido na minha enfermaria, aquela em que eu só consigo ver além das coisas aos sábados. O que eu fazia nesse dia?

– Olhei a prescrição e preparei a dose toda: uma ampola e meia de morfina na  veia. Peguei meu celular, coloquei um dos fones no ouvido dela, o outro no meu e apertei play.

– E ela?

– Fechou os olhos e curtiu, oras.

Fez uma pausa, sorrindo.

– Ela morreu no dia seguinte, eu estava de folga. Aí eu entendi que tinha sido minha oportunidade de me despedir.

A cena era boa demais. Eu precisava conta-la.

– Qual era a música?

– Hã?

– O rock, que vocês ouviram?

– Ah, não sei Doutora. Meu filho gravou, não sei direito nome das músicas. Só sei que é “clássico”

– Pelo amor de Deus, Samara! Eu preciso saber qual era a música! Pensa.

– Vou olhar a playlist e perguntar para o meu filho. Se eu ouvir, vou saber o que é.

O que seria um rock clássico? Depende do gosto e da idade. “Satisfaction?” Nada mau. “It’s my life?” Não deveria ser essa. A vida não é a Sessão da Tarde “Hihgway to Hell? Torci para que Dona Irene não soubesse nada de inglês. “Sympathy for the Devil”? Pior ainda.

De todo modo, viver meu último dia recebendo uma dose de morfina suficiente para me deixar confortável e ouvindo rock me pareceu digno. Algo que eu escolheria. e pra mim.

Finalmente Samara voltou trazendo um papel dizendo que poderia ter algum erro porque ela não fala inglês.

Come as you are.

 

 

A Bela e a Fera

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E aí eu entrei no elevador e uma menininha usava um vestido amarelo de princesa. Estava eufórica, dançando.
– Hoje é festa à fantasia na escolinha!
– E a tua fantasia é de qual princesa?
– É a Bela! – respondeu a pequena, desapontada.
Nunca fui muito boa nesse negócio de princesas. Gostava da Cinderela, mas acho que era por causa do baile. Na escolinha eu gostava de brincar de índio. Desde o dia daquele ano em que Rastros de Ódio passou na TV, eu finalmente pude integrar a tribo indígena, depois de uma longa discussão com o Cacique. Apesar da cara feia dos demais, ele era uma liderança inconteste do lado B da turma. O Chefe autorizou, virei índia.
Mas não era disso que eu estava falando. Desde criança, eu achava que a vida da Bela só não era pior que a da Rapunzel, a presidiária de quem puxavam os cabelos. Aliás, só me apercebi que a Bela era uma princesa com o novo desenho. Em pequena eu achava que ela era mais um caso de cárcere privado com as tintas sinistras de um monstro como companhia. Alguém que finalmente se conformava com a falta de opções. Opa! De repente me dei conta que a Bela não era muito diferente de uma mulher final da balada para quem a contragosto é apresentada uma única opção. São 3hs da manhã, sacumé…
Pela primeira vez na vida, olhei para a personagem com simpatia. Mais ou menos como uma companheira de infortúnio. Atire a primeira pedra a primeira mulher que não fez como a Bela num momento de carência.
A lembrança de um ou dois momentos em que me comportei como a personagem me fizeram rir sozinha de manhã cedinho, num dia em que tinha acordado com o humor da Madrasta da Branca de Neve. Talvez a geração da menininha de vestido de cetim amarelo seja mais preparada para um mundo em que os sonhos continuam, mas príncipes não existem, nenhuma de nós tem jeito pra princesa e nós nos entendemos com o sexo oposto (ou com o mesmo sexo) do jeito que dá. Ponto final.
 

dos aniversários

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obs: texto escrito em 05/08/2015, o dia em que iniciei o blog

Agosto me faz pensar sobre resiliência. É frio, desafia meu comodismo. Vezenquando testa meus limites. Há 4 anos meu casamento terminou abruptamente, no início de agosto. Levei cartão vermelho sem levar um amarelo antes. Achei que ia morrer. Na verdade, eu não sabia o que era quase morrer até então.

Há exatamente um ano atrás, minha família me levou para a emergência de um hospital após um acidente. Correndo risco de vida, sem diagnóstico, confusa e esperando o médico que assumiria meu caso – aquilo sim era quase morrer. Apavorada, deitada numa maca eu pensava por que diabos eu tinha que mudar de lado? Camisola de paciente ao invés de jaleco? Socorro!

A frivolidade é um mecanismo de defesa poderoso e eu dizia para os médicos que precisava de três coisas: uma coca-zero, um secador de cabelo e meu estojo de maquiagem, para a diversão dos funcionários da emergência. Eu dizia isso porque era mais fácil do que perguntar se eu minhas condições neurológicas me permitiriam trabalhar.  Será que eu poderia voltar a ser médica? Tentei em vão acompanhar as  discussões dos médicos sobre os casos da emergência. as palavras me era familiares, mas não se encaixavam. Do meu caso, entendi apenas que era grave; tudo era lento demais dentro do meu cérebro. Foram 48 horas até que eu conseguisse pensar claro por algumas horas. De longe, as piores da minha vida – tanto que ainda hoje preciso falar nelas.

Como era inacreditável que eu tivesse sobrevivido, fui submetida a uma bateria de exames digna de Dr. Gregory House. Virei paciente de seriado médico. As hipóteses diagnósticas mais estranhas e improváveis foram testadas, apenas para comprovar que eu não tinha nada, apenas tinha sofrido um acidente – daqueles que pouca gente consegue contar a história.

Ainda hoje, continuo perplexa. Só me resta ser grata, ganhei uma segunda chance, um segundo aniversário. Antes eu era de Touro. Agora acho que sou de Leão.

As coisas que não são guardadas

beggar2 (1)23:45 e eu vinha de boas pela rua voltando pra casa e um morador de rua que aparenta uns vinte e poucos anos me parou, falando com uma voz empostada de locutor de rádio AM.
– Madrinha, eu não sou ladrão. Consegue um trocado?
Com pressa, comecei a mexer na bolsa procurando uns trocados. Não era uma situação exatamente segura. Ele pareceu ler meus pensamentos.
– Madrinha, vou ficar aqui mais longe pra tu ficar à vontade pra procurar.
Bolsa, cheia, eu não conseguia catar todas as moedas que queria. Discretamente, comecei a observá-lo. Não estava desnutrido, tão sujo ou mal vestido quanto os mendigos há tempo na rua. Já vivi o suficiente pra ver outra grande crise com desemprego em massa e sempre morei nos bairros boêmios. Meses depois da crise atingir seu auge, pessoas como ele vão parar na rua. Não entendo nada de economia, mas sei quando os indicadores pioram. A população de rua aumenta, simples assim. Ele estava de costas e virou-se:
– Com todo o respeito, madrinha. A senhora é um mulherão.
O que um homem como ele não faria se fosse vendedor? Eu teria comprado um carro, um apartamento.
Enchi a mão de moedas, ele abriu a mão e eu as entreguei. Eu já estava de costas quando virou.
– Madrinha, tem uma coisa aqui que é sua.
Ele abriu a mão cheia de moedas e eu vi a minúscula embalagem rosa. Era um absorvente interno. Sempre acho mais fácil gargalhar que morrer de vergonha, mas meu desconforto era visível.
– Esquenta não, madrinha. Ninguém viu.
Continuei meu caminho em mais um capítulo da saga “passo vergonha porque minhas coisas nunca estão lugar onde deveriam. “

Enlace

lancei meu canto na floresta
e ele veio na lua cheia
celebramos as núpcias ao redor da fogueira
como deveria ser ser
como fizemos antes
os amores tão intensos
que parecem já ter sido vividos
em época longínqua
imemorial
senti as presas, as garras
o cheiro
quando chegou a hora
me fiz entrega
para que ele me fizesse posse
amei-o como se nunca tivesse amado
como se eu tivesse desabrochado
agora
ou fosse fenecer amanhã
como se as diferenças não existissem
e fôssemos apenas
rito
e selvageria
como se eu não fosse inconstância
e ele o remédio
pra rotina que me esmaga
e que me esperará implacável
quando o dia for alto
casei-me na lua cheia
fui embora quando amanheceu

 

A pensão é minha mesmo.

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Doutora, aquele creme vaginal que a senhora me deu da outra vez, posso usar?

Dona Amália tem sessenta e poucos anos. Há dez anos retirei uma parte do seu colo do útero por causa uma lesão pré-maligna. A cirurgia é tecnicamente é muito simples e ela se recuperou muito bem. Ainda assim, ela me tem em alta conta e fala daquele evento como se tivesse sido uma cirurgia de risco, potencialmente fatal. As pessoas são do tamanho dos seus medos e os médicos são do tamanho dos medos dos seus pacientes.

– A vagina está ressecada?

– Sim

— Está doendo?

— Um pouco.

– Está de namorado novo?

Dona Amália era divorciada, um casamento infeliz e até onde me constava, não tinha nenhum relacionamento. Ela sorriu.

– Fiquei com vergonha de lhe dizer isso na outra consulta. Estou namorando sim, ele me pediu em casamento, acho que vou até casar. Faz quatro anos que temo nessa.

– Isso é ótimo, Dona Amália. Amor faz bem pra saúde.

Ela baixou a cabeça.

– Eu queria saber sua opinião do meu casamento.

Nesses anos de ginecologia já me pediram opinião de tudo. De casar, de descasar, de namorar, de não namorar, de transar sem compromisso, mudar a cor do cabelo, colocar silicone, o diabo. As mulheres fazem perguntas pouco afeitas às suas doenças para o ginecologista quase como se fosse um oráculo.

– Então me conte. Vamos ver se posso ajudar.

– É que ele é vinte anos mais novo que eu, Doutora. Quando a gente tem dinheiro, eu estou sem dor a minha filha está bem a gente sai pra dançar. Ele faz declaração de amor, me  cuida, faz o serviço da casa quando eu estou doente. Ele é pedreiro e entrega todo o salário na minha mão. Quem administra sou eu. Faz mais de ano que quer casar, eu tinha vergonha.

Fosse o contrário, ninguém acharia estranho e não haveria vergonha e sim elogios à pretensa virilidade do homem que casaria com uma mulher mais jovem. Dona Amália me dizia isso com um sorriso de satisfação.

– E eu penso que se eu casar com ele , o Jurandir herda minha pensão quando eu morrer. As pessoas dizem que eu estou louca.

– Não entendi, Dona Amália

– Me dizem que se ele ficar com a minha pensão vai gastar o dinheiro com as outras. Eu não me importo o que ele vai fazer com o meu dinheiro quando eu morrer. Ele que gaste com quem quiser. Meus filhos não podem ficar com a pensão porque são dimaior. Ele me trata muito bem e me faz feliz. Por que eu devia deixar minha pensão para o governo?

– Se a senhora se separar, ele perde o direito a pensão?

– Perde. Já me informei.

– Eu não deixaria de fazer algo que me deixasse feliz.

Ela sorriu.

– Ele é só no mundo, Doutora. Depois que a mãe adotiva dele morreu, eu pressionei o meu sogro pra dar alguma pista de onde estaria a mãe verdadeira. Sabe que eu descobri a mãe dele e os irmãos?  A mãe dele “dava” todos os filhos, cada um tem um sobrenome. Achei todos. A mãe dele morreu, mas os irmãos vem para o nosso casamento.

Dona Amélia não queria minha opinião. Apenas queria que eu dissesse que tudo estava bem. O casamento já tinha até data. Naquelas situações em que tudo pode dar muito errado é difícil opinar. Qual seria o melhor conselho? Anos fazendo psicoterapia, aprendi que desde que a gente entenda as motivações dos próprios atos e esteja preparados para as consequências, pode fazer o que tem vontade.

Ela parecia ter uma visão clara das consequências da decisão e um plano de divórcio, caso fosse necessário. Aparentemente, lidava bem coma ideia de que o futuro marido usufruiria da sua pensão sem ela. Possivelmente com outra mulher.

As motivações dos atos são a matéria de trabalho dos terapeutas, mas eu arriscaria apostar qual seria a motivação de Dona Amália ao casar-se. Sentiu-se amada e cuidada. Um homem apresentou-lhe amor e ela retribuiu gratidão.

Sensível às histórias de amor, depois que Dona Amália saiu eu me perguntei se o amor nos deixa particularmente generosos. Dos amores da minha vida e dos casais apaixonados de que me lembrei, a fase de encantamento parece ser salpicada de atos generosos aqui e acolá. Uma das maneiras pelas quais as pessoas percebemos o amor é quando vemos a generosidade do outro. Alguns só conseguem manifestá-lo concretamente.

Dona Amália vai casar com um homem bem mais jovem. Pode ser a melhor ou a pior decisão da sua vida. Como quem assiste ao primeiro capítulo de uma série em que simpatizei com a personagem principal, torço pelo final feliz.

Bukowski, Exupéry e a tática da depreciação

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Era tarde quando o telefone fixo tocou. Era Anajara, aquela minha amiga que está sempre preocupada com o amor.

– As pessoas precisam ler Bukowski direito. Estão lendo o Velho como quem lê Exupéry.

Anajara vive me dando sugestões para crônicas, às vezes desenvolve uma teoria inteira, que eu me limito a transcrever. Como todo o fã, ela se considera íntima do Velho,  quase  como se fosse um tio doidão. Ainda que eu tenha certeza que o Hank pertence à minha família, não estava entendendo onde ela queria chegar. A ideia me parecia estranha.

Segundo ela, os homens nesses tempos de sexo fácil e inúmeras opções, liam Bukowski com o mesmo fervor que as misses  ou os sentimentais de outrora liam Exupéry à procura de conforto. Era engraçado e até fazia algum sentido.  Eu já tinha visto gente citar o Hank quase em transe religioso. Anajara não parava de falar.

– Eu até entendo que os homens se fascinem e tenho pra mim que os mais fracos da cabeça não entendem direito. O cara está lá em casa, sujo, sem banho, bêbado de cerveja. Aparece uma loira ou uma ruiva peituda querendo dar para ele. Tem quem leia e ache que a vida dele era sempre desse jeito, ou até que essa vida existia.

Anajara não é de filosofar sobre o sentindo da vida. Nem perde tempo com assuntos que não se originaram de alguma vivência sua. Devia haver algo novo, que tinha provocado aquela reflexão sobre o sexo oposto. Depois de algum tempo tagarelando sobre as pessoas “não lerem o Velho direito”, ela finalmente me contou. Tinha arranjado um hater, aquele tipo de pessoa disposta a encher a paciência dela em todos os posts. O que um hater teria a ver com Bukowski e Exupéry.?

– Lá pelas tantas ele me chamou de burra, que eu não sabia escrever e me recomendou que lesse o Velho!

Eu continuava sem entender o que uma coisa tinha a ver com outra

– Ele não parava de teclar. Ora me avacalhava, ora dava em cima. É a tática da depreciação.

Peguei uma caneta pra registrar as ideias.

– Tinha jeito de ser um desses caras que se separou já maduro. Aí pegou umas mulé, maltratou alguns corações femininos e com esse currículo mínimo já acha que tem carteirinha de cafajeste. Fica se achando. Aí resolve ler Bukowski, mas entende tudo errado.

Toda a mulher conhece a tática da depreciação. Tipos como esse que ela descrevia não são raros. Finalmente, a teoria fazia algum sentido.

– O cara deve pensar assim: olha esse escritor aí. Ogro, tosco, sujo, andando de cueca pela sala, bêbado como um gambá. Avacalhava as mulheres e elas ainda davam pra ele. O cara fica com a ideia que o Velho pegava bem por causa tática da depreciação.

Desliguei o telefone e fiquei pensando no assunto. Uma das coisas que me surpreendeu no primeiro livro dele que eu li foi a quantidade de mulheres com autoestima baixa pra encarar depreciação, falta de banho e alcoolismo, partindo do pressuposto que parte das histórias não tinha sido inventada. Sinto muito, amigo, talvez eu destrua suas ilusões, mas parte das histórias pode ter sido apenas inventada,  O nome disso é autoficção, um gênero literário.

Uma vez conheci uma musa de pintor gaúcho, uma mulher simples e de pouca instrução  que caiu nas graças de um artista. Não me ocorre de ter visto aquele brilho no olhar de outra mulher. Talvez inspirar um grande artista seja mais sublime que sentir-se amada. Talvez por isso, as mulheres suportassem a depreciação do Velho Hank.  Também por isso, na imensa maioria das vezes depreciação provoca o que deveria provocar: revide.

 

O corpo

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há dias em que eu gostaria
de ser esguia
longilínea
como as mulheres que caminham
etéreas
com a elegância dos cisnes

me foi dada
opulência
peitos convidativos
quadris generosos
coxas abundantes
e uma boa boca
ando pelo mundo
com as mulheres
feitas de terra
força

há dias
em que eu queria
a magreza e a palidez
os ossos protuberantes
e o fingido ar de enfado
daquelas que são cabides
para as roupas
da última tendência

a mim foi dada curiosidade
e uma fome que só sacia
se eu provo do mundo
pelos meus cinco sentidos
e eu não sei
se o temperamento
moldou o corpo
ou foi moldado por ele

Sobre ideogramas, moda japa e blogueiras feias

 

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Eu não posso enxergar um ideograma. Tenho um tatuado na pele. Da vitrine, os risquinhos orientais me atraíram como uma força gravitacional. Entrei na loja, mesmo sabendo que ali um vestido custa o preço do meu rim direito. Muito cetim, desenhos que remetiam ao Japão, mas os ideogramas eram poucos. As estampas eram lindas e mas os cortes eram esquisitos, aquele tipo de falta de estrutura que só fica bem em mulheres magras feito cabides. O gerente purpurinava pela loja enquanto a vendedora tentava me convencer a provar algo. Lá pelas tantas ele resolveu me achar.

– Quero te mostrar algo que é a tua cara.

Tenho medo dessa frase, a peça que me mostram me diz que eu tenho cara de louca ou de burra. Eu estava vestindo preto e botas de caubói. O que haveria na coleção japa parecido com o que eu estava usando?

– Olha só, é lindo!

Ele segurava a peça em um cabide com o braço estendido, alto do chão. O tecido era preto e  vaporoso, com umas poucas flores esbranquiçadas aqui e acolá. A saia era longa e ficava mais larga em baixo. Uma coisa meio baiana-gótica. A estampa ficaria bem na minha avó e olhe lá.

– Olha, não é bem o meu estilo…

– Vai ficar ótimo em ti, experimenta!

– Eu não uso saia longa.

– Mas essa é linda, usa!

– Com um quadril do tamanho do meu? Nem pensar!

Todos os vendedores balançaram o pescoço em sinal de negativa, como se o que estivesse dizendo fosse uma rematada bobagem.

– Linda, esse tipo de roupa corta o quadril todo! As clientes que nem tu adoram!

Nos minutos seguintes, ele me repetiu a mesma frase três vezes e me ocorreu perguntar pra que existia cirurgia plástica, se aquela a saia da baiana gótica cortava praticamente todo o quadril. O homem insistia.

– Mas as gordinhas usam, vou te mostrar um foto da blogueira que esteve aqui nessa semana.

Até fiquei curiosa. O homem trouxe um I Pad, mostrado com orgulho. Eu nunca tinha visto a tal mulher na vida. A cor do cabelo não combinava com o tom da pele. E saia de baiana gótica na baixinha, atarracada e sem cintura chegou a me despertar uma certa pena.

– Então? Vamos provar?

Perdi a paciência.

– Olha, tu vai me desculpar. Eu achei muito feio.

Ele me olhou como se eu fosse uma coitada. Continuei.

. Reforçou a opinião que eu tenho a respeito de saias longas em mulheres baixinhas tamanho GG. Parecem ensacadas. No caso, um saco de batatas.

O homem largou do meu pé e eu saí da loja, irritada com tanta insistência. Caras ou baratas, as lojas costumam subestimar a inteligência feminina na tentativa de fazê-las comprar qualquer porcaria. Em seguida pensei na blogueira que despertou minha pena. Talvez a única diferença entre nós as duas seja que ela ganha pra pagar mico. Faço isso de graça, com a minha falta de tino comercial.

 

os três gatos

ostresgatosmini2três gatos dormem
enrodilhados em minha cama
fico tomada de uma felicidade doméstica
que me é estranha

amanhã as femêas esfregarão
seus bigodes em mim
ele esfregará a barba
em outras pernas

terei ciúmes, mas não tanto
pode haver outro gato aqui, e ele sabe

olhos os meus três gatos
e sei que são só meus quando querem
talvez por isso eu os ame
e é por isso que eles voltam
os três

Dia-a-dia de hospital, crônicas e poemas