A elasticidade do tempo

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Comecei a ler o prontuário e a história de Dona Ana não diferia das histórias que leio todos os dias. 68 anos, câncer de intestino, cheia de metástases. Sintomas sendo progressivamente controlados e uma família relutante em aceitar a alta hospitalar. A assistente social me contou parte da história: 8 filhos, marido, ela não usava drogas e nem bebia. “Não sei porque a família não quer levá-la, Doutora. A única que vem aqui é uma sobrinha, que está aqui agora.”

Encontrei dona Jane ajudando a dar banho na paciente, já confusa, com uma sonda no nariz para drenar o conteúdo estomacal. Conversei com ela em separado, perguntando qual dos filhos a receberia, em caso de alta. “Nenhum deles doutora, são tudo nervoso e sempre arranjam desculpa pra não ver a tia.” Perguntei o motivo de tanto “nervosismo” ela mudou de assunto. “Só pra senhora ter ideia, uma filha da tia Ana morreu a pouco, aqui no hospital. E quem vai cuidar do funeral sou eu.” A mulher minha frente falava disso com naturalidade, sem aparentemente reprovar a família ausente, ou com superioridade por assumir o cuidado de uma mãe que não era a sua.

“A alta seria pra quando, doutora?” Ela interrompeu minha divagação sobre o assunto. Respondi que provavelmente seria no início da próxima semana. “Nesse caso, eu levo ela pra casa. Quando a gente quer doutora, acha tempo. Eu cuido do meu irmão que faz hemodiálise e do meu marido que está na fila do transplante de fígado.” Conforme ela ia falando eu me sentia pequena, cada vez menor. E meus problemas, insignificantes. A naturalidade com que ela falava, sem aparentar afetação ou vitimização, me deixava mais curiosa. Perguntei sua idade. “49, doutora.” Para uma mulher sem acesso à tecnologia, ela estava muito bem. Disse que ela era uma mulher corajosa. “Nem é isso doutora, é que eu acredito no amor. Quando a gente ama, acha um tempo pra tudo.” Me chamaram para ver uma paciente e eu interrompi a conversa. Passei o dia pensando no amor e no tempo. No amor e na elasticidade do tempo.

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