Harlem Autileti

Theresa Hotel

Encontrei três brasileiras que tinha conhecido uns dias antes, num congresso na Quinta Avenida, em Nova York. Me perguntaram o que eu tinha feito naquele dia. “Fui ao Harlem, caminhar pela rua”. Estava feliz da vida. “O que é Harlem, um autileti?” Fiquei perplexa com a pergunta. Embora o Harlem não seja hoje um bairro inseguro, teve um gosto aventura ir até lá sozinha. Fui ver pontos históricos e sentir o clima do bairro. Na rua, alguns senhores tiraram o chapéu quando passei. Ouvi um bem humorado pedido de casamento. Ainda arrematei um vestido colorido black style numa loja barata. Uma delas perguntou. “Harlem é um gueto, né?” Assenti com a cabeça. Ao menos alguém ali tinha alguma do que o bairro significa. Perguntei como era a vida noturna no Brooklyn, onde estavam hospedadas. Não sabiam. Para mim era inacreditável que três mulheres solteiras, perto dos 30 anos, não tivessem entrado em um pub. Elas também deviam achar estranho o meu entusiasmo com o Harlem. Cada um vê aquilo que quer e a gente nunca enxerga tudo o que está ao redor. A loja japonesa em que estávamos é famosa pelas camisetas descoladas e os jeans baratas.  Elas não gostaram das calças. Concordei, distraída. “Venho aqui por causa das camisetas e dos casacos, eles não fazem jeans para mulheres de bunda grande.” E ri. Uma delas riu. As outras não gostaram nem um pouco do meu comentário. “A primeira vez que experimentei um jeans desses, fiquei decepcionada. Saí da loja me sentindo deselegante, péssima. Aí decidi que o problema não sou eu, elas é que não tem bunda. E aí passei a achar que isso é uma grande vantagem.” As três riram. A menina ansiosa por autiletis ficou novamente impaciente,  querendo informações sobre jeans. “Na loja X, eu vi uma modelagem curvy,  deve ser boa.  É pertinho do Empire State, não deixem de ir lá também.”  Me convidaram para ir junto. Eu disse que ia caminhar pela rua, o que mais gosto de fazer. Mais ou menos como nos versos do Gonzagão, se a gente quer ver a vida, precisa andar nela.

“…vai oiando coisa a grané/ coisas que pra mode vê/ o cristão tem que andar a pé” (Estrada do Canindé, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

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