Capitão América, Batgirl e outros problemas da infância

61H+RPlQdCL._SX342_Tem conversas que a gente não consegue evitar de ouvir. Eu estava de costas, não pude ver as expressões das duas mulheres jovens que conversavam sobre os seus partos e filhos pequenos:
– O parto meu não foi humanizado. Teve episiotomia (a incisão para que a saída do bebê seja facilitada), enema (a lavagem intestinal para que o intestino esteja vazio na hora em que a mulher realmente precisar fazer força, quando o bebê nasce). Muito difícil. Foi parto normal e eu recebi analgesia.  E senti pouca dor.
– A minha filha nasceu de cesareana…
– E desde que o fulaninho tem dois meses eu me organizo financeiramente para o aniversário de cinco aninhos.
– Então a festa vai ser grande! Ele já escolheu o tema?
– Ele quer Capitão América! Quer porque quer. E eu acho tão colonizado, tão influenciado pela mídia americana. Eu argumentei, expliquei, até que resolvi dizer que não pode. Mas ele não escolhe outro tema! Estou tão preocupada…
Num instante me senti reconfortada por ter nascido antes desses tempos politicamente corretos, apesar de não haver festas de aniversário temáticas da Batgirl. Se tivesse, seria a minha escolha aos cinco anos. Sempre amei o macacão roxo, da série antiga da TV. Era uma das minhas brincadeiras de criança. Ser livre como a Batgirl, ser amiga do Batman e do Robin e ter uma motocicleta roxa. Mas a festa não existia e eu nunca tinha visto uma moto como a da dela. O que não existia, não era problema. Existia no meu imaginário. Já o menino que não vai poder brincar de Capitão América no dia do aniversário sabe que a festa existe, talvez até já tenha visto uma. Tempos estranhos. Ou vai ver não entendi o drama porque escolhi não ser mãe.

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