Supermercado

 

       Protelei, hesitei, mas sou um bicho curioso. Fui conferir. A primeira sensação foi de estranheza. Produtos sendo apresentados a uma cliente em potencial. Parecia um supermercado. Achei divertido, a quantidade de opções era impressionante. Em seguida, achei confuso. Possibilidades demais. Difícil entender a organização. Aliás, organização nenhuma. Um supermercado desorganizado, chocolate importado apresentado ao lado de sabão. Parecia um supermercado, mas era um aplicativo de relacionamento. E eu tinha virado produto também. Achei graça. Em se tratando de amor, não me levo a sério. Tempos depois, quando abri um aplicativo cheio de estrangeiros, tive a mesma sensação. Parecia o e-bay. E eu tinha virado um produto internacional. Um produto internacional da Província do Rio Grande de São Pedro. Fazer o quê? O jogo é esse.

Nome, idade, foto. E só. Achei bom, poucas informações, diferente dos sites de relacionamento. Tem gente que mente a idade deslavadamente. E a qualidade das fotos era muito, muito ruim. Quem montasse uma consultoria de imagem para homens ganharia dinheiro. Há fotos engraçadas. A minha preferida é a de um indivíduo que postou uma foto sua, bem sorridente, na frente do computador. Bem ao fundo da foto, em outra peça da casa dá pra ver a patroa com um bebê ao colo. O “serumano” simplesmente não se deu conta.

Fotos no espelho do banheiro, em profusão. Por algum motivo, os candidatos devem acham isso bonito ou sexy. Ou prático. Eu não gosto. Foto em que a pessoa ao lado foi recortada, onde a gente consegue ver unhas vermelhas ou cabelo nos ombros. Havia uma mulher ali. Será que ainda há? Melhor nem querer saber. Foto sem camisa tomando cerveja? Os amigos até podem achar isso bonito, mas socorro! Foto com filho? Eu até acho fofo, mas tenho a sensação que o cara está procurando uma madrasta pra criança, antes de qualquer coisa. Passo. Foto escondendo o rosto ou de paisagem? Fácil. Homem comprometido. Fujo. Foto com a aba do boné virada para trás? Com a aba reta? Pra quê isso, meu filho? Deveria ser até ser ilegal, ao menos em aplicativo de relacionamento, tipificado como crime em todos os países signatários da convenção de Genebra. Next, please!
Logo descobri que prefiro fotos que parecem reais, sem tanta pose ou filtro. Eu também sou sem filtro, ao vivo. Gostando da foto, faço o quê? Clico que gostei e se foi recíproco, se abre a conversa. Espero. O chat renderia um texto inteiro, mas fica para outra hora. E os códigos são parecidos com os da vida real. Qualquer dia escrevo sobre isso. Os cavalheiros convidam as damas para dançar, acho que eles preferem assim.

Há quem não consiga entabular uma conversa qualquer – e a conversa é via de regra a mesma. O maior problema é que a falsa liberdade que a internet dá faz as pessoas dizerem o que dá na telha. Há quem mereça ser impiedosamente avacalhado, por ser idiota. Há quem precise ser bloqueado por ser inconveniente. Há quem mereça ser denunciado por assédio. Alguns aplicativos dão essa opção, caso a coisa saia de controle. Há quem vá direto ao ponto, sem qualquer rodeio. Direto ao ponto? Next, please!
Há o risco de exposição, muito risco. Mas em tempos que a vida virtual intermedia as relações, cheguei à conclusão que não havia outro jeito. A sensação de estranheza continua e prefiro o mundo em que a gente conhece as pessoas olho no olho. Mas no mundo virtual encontrei gente interessante, que valeu a pena conhecer. Fiz até alguns amigos. Simpatia não necessariamente significa que as coisas funcionem ao vivo e a cores, outra lição que aprendi nesse mundo. Às vezes tem tudo pra funcionar e não funciona.

Um dos inconvenientes é que perde-se muito tempo entrevistando candidatos online – os riscos são maiores, paciência é fundamental. Acho que sempre se deve contar com a possibilidade concreta de se estar conversando com alguém muito mal intencionado. E acho que esperar um pouco até a entrevista real é bom, há mais tempo para observar o comportamento da criatura. E pra terminar, o primeiro encontro tem que ser em um lugar público, bem público. E por último, se a intuição disser que é uma roubada, é mesmo.

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