Dona Ivone sabe o que quer

278a99ac7ece24bfcc4e00b469270a79

Dona Ivone tem 89. Sabiamente, decidiu que não queria tratar um câncer de pâncreas há um ano. Possivelmente não estaria ainda aqui se tivesse feito quimioterapia. Naquela época, estava cheia de metástases, mas ainda estava bem. A doença progrediu muito e Dona Ivone internou. É lúcida, muito lúcida. Me chamaram para vê-la. Prescrevi uma série de medidas que duvido que sejam efetivas. Dona Ivone está no finalzinho da vida. Tive que fazer a pergunta difícil.
– Dona Ivone, a falta de ar está piorando e os remédios não estão funcionando como o esperado. Se a senhora piorar nós temos duas possibilidades. A senhora é lúcida e dona do próprio corpo. Quero saber sua opinião. Posso levá-la para a CTI e não existe garantia que a senhora saia de lá. E se sair, como a senhora sabe, seu câncer não tem cura. Está debilitada demais para quimioterapia. Se a senhora decidir ficar aqui conosco e a gente cuida da senhora na enfermaria. Quando a falta de ar piorar bastante, a gente pode usar remédios para que a senhora não perceba a falta de ar, mas esses remédios não vão tratá-la. E aí a senhora fica aqui até o final.
Dona Ivone têm os olhos verdes ainda expressivos, apesar da catarata. E é extremamente gentil, uma dama. Daquelas mulheres altivas que não se fabrica mais. Dona Ivone não precisou pensar. Já sabia o que queria, e se expressou com a tranquilidade dos que tem certeza do que querem.
– A senhora já internou na CTI, Doutora?
– Na CTI propriamente não. Sofri um acidente, quase morri e fiquei 48 horas na sala vermelha de uma Emergência. Foram as piores 48 horas da minha vida. Tenho ideia do que a senhora sentiu.
– Já disse para as minhas filhas, pra lá não volto nunca mais, estive lá no ano passado. Se posso escolher, fico aqui até chegar a minha hora.
Sempre me surpreendo com as pessoas que conseguem ser firmes quando tomam a decisão mais difícil, mas a mais sábia.
– Então está decidido, Dona Ivone. E acho que é a melhor decisão. Vou escrever no seu prontuário que é isso que a senhora quer. E a sua vontade vai ser respeitada.
Dona Ivone está internada no isolamento, portadora de uma bactéria difícil de tratar. Ninguém precisa usar máscaras para conversar com ela, mas ela não pode ser tocada sem avental e luvas. Não recebe pode mais calor do toque, nem dos filhos. Registrei o desejo dela no prontuário, conversei com o enfermeiro, com os técnicos de enfermagem. Precisa ficar claro para todo mundo qual é a vontade do paciente nessas horas e qual a importância de ser respeitada. Antes de sair, perguntei como estava a falta de ar. “Estou bem, doutora”. Acho que ela queria dizer que a situação era suportável, mas que não tinha melhorado. Dona Ivone é mais corajosa que muita gente que eu conheci na minha vida profissional, mais até que eu. Estava menos aflita que os que estavam presenciando a situação. O enfermeiro do isolamento me telefonou várias vezes ao longo da tarde para me informar do quadro, mesmo sabendo o que eu a situação era irreversível.
Dona Ivone faleceu alguns dias depois, na enfermaria, junto da filha, serenamente, sem medidas invasivas que só prolongariam o sofrimento dela. Decidiu como queria viver os últimos dois anos vida e conseguiu vivê-los assim.

#hospitalife

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *