O Milagre

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Tem dias que parece que estou num seriado médico americano, mas não sou protagonista. Sabe aquele que se ferra? Esse mesmo:

–      A senhora tem que vir vê-la, doutora! Logo!

Meio ranzinza e na TPM, fiquei pensando se realmente teria que ir. A enfermeira Maria Carolina jamais me chama por bobagem. Subi as escadas tentando organizar os pensamentos. Uma paciente com 43 anos e que tinha um câncer avançado de colo uterino tinha piorado muito, aparentemente sem motivo. De manhã estava conversando e à tarde estava entrando em coma. Cheia de metástases.  Ela poderia morrer antes da hora se fizesse quimioterapia, estava fraquinha demais. A família, muito religiosa, estava se recusando a aceitar que o câncer não tinha cura e nenhum tratamento poderia ser instituído, apesar repetidas afirmações  que as medidas terapêuticas tinham sido esgotadas.

Entrei no quarto: uma mulher em torno dos 50 anos da família da paciente Ana, uivava um lamento religioso desafinado e lúgubre, pedindo pela cura da paciente. Olhava para todos os lados, todas as vezes que se ajoelhava e implorava, à procura da platéia. Fiquei condoída. Mais quatro pacientes no quarto, em estado grave, tendo que aguentar aquilo. O filho adolescente da Dona Ana, olhava para mulher como quem acha o fim da picada, mas não pode fazer nada. Eu a teria despachado prontamente dali se não tivesse um problema sério para resolver, mesmo correndo o risco de ser acusada de intolerante. Eu não podia perder meu tempo com ela.

Maria Carolina me alcançou um estetoscópio, sorrindo. Era uma forma de pedir silêncio. Demorei bem mais tempo do que precisava na ausculta. Sossego para os ouvidos de todos e tempo para organizar minhas idéias. A mulher aparentava impaciência e frustração com a interrupção do show, andava de um lado para o outro. As hipóteses mais prováveis para a piora da Dona Ana já tinham sido descartadas. Daí me ocorreu que a piora poderia ser um efeito colateral raro das medicações que ela estava usando. Dona Ana internou com dor excruciante por causa das metástases ósseas e estava recebendo várias medicações. Muito, mas muito raramente, o efeito dessas medicações precisa ser revertido.

Se o motivo do coma é esse, o efeito dessas medicações para revertê-lo impressionante.  Sempre junta gente pra ver. Eu já visto a cena duas vezes. Pedi a medicação e enquanto era providenciada, vários técnicos de enfermagem rodearam a cama da paciente.  Expliquei para o filho da paciente o que iríamos fazer. Aproveitei para pedir mais silêncio. A mulher bufava com a perda de atenção.

– Meia ampola.

Maria Carolina administrou a medicação.  Eu, preocupada. E sem plano B.

Nada aconteceu. Dona Ana continuava comatosa e Maria Carolina me olhava em silêncio, esperando a orientação seguinte.

– Mais meia ampola.

Dona Ana deu pulo da cama assustada, ficou em pé tentou arrancar o soro e a sonda que tinha na bexiga. A mulher que pedia por intervenção divina ajoelhou-se aos pés de Dona Ana, bradando  que era milagre e que as orações fervorosas tinham operado o que a medicina não conseguiu realizar. Enquanto isso, os técnicos de enfermagem continham Dona Ana, até que ela entendesse a situação. Havia um ar de riso no quarto. Maria Carolina, os técnicos. A gozação pra cima de mim seria inevitável. Eu mesma não sabia se ficava irritada ou se achava graça. A cena era digna de seriado médico – sem direito a George Clooney. Cadê ele?

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