A jovem médica e a morte

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Era sábado e a médica residente me parou no corredor do hospital, visivelmente angustiada. Trabalha em outra equipe. Dois dias antes ela tinha ido à reunião do serviço onde trabalho para discutir o caso da paciente dela. 75 anos, câncer de vesícula muito agressivo. Nenhuma chance de tratamento. A paciente tinha muita dor, dificuldade pra respirar e um pulmão cheio de metástases.

– Como está tua paciente, Carolina?

– Aumentei a dose da morfina e as outras coisas que vocês sugeriram. Até melhorou no dia, mas de ontem pra hoje ela amanheceu gemendo quase o tempo todo. Às vezes está consciente, às vezes não.

Num determinado momento, próximo ao óbito, existe um recurso que se chama sedação paliativa. Com a supressão da consciência, o sofrimento é suprimido. Usa-se medicações para induzir um coma leve, que pode ser revertido se for o caso. E o paciente evolui para morte natural, quando tiver que ser. Pode ser em poucas horas ou levar dias. É o último recurso, quando as outras medidas se esgotam.

– Tu achas que a paciente tem indicação de sedação terminal, Carolina?

Carolina respirou fundo e por um instante toda a juventude que havia nela desapareceu. Uma médica grave e que toma decisões difíceis falou:

– Eu acho que sim, Doutora. Mas eu nunca fiz isso.

Os médicos aprendem lendo os livros. Mas aprendem muito também observando os mais velhos, como lidam com situações dolorosas e as decisões difíceis. A gente se constrói dos exemplos que encontra.

– Tu queres que eu vá contigo para conversar com o marido?

Carolina, aliviada, concordou. Entrei no quarto. A paciente gemia sem parar, estava semiconsciente. O óbito se daria dali uns poucos dias. E havia um marido devastado sentando numa poltrona. Conversamos com ele fora do quarto. Expliquei a sedação terminal. Sobretudo expliquei que era algo muito diferente de eutanásia, proibida no Brasil.

– É o melhor para ela nesse momento, mas precisamos que o senhor autorize.

– Doutora, eu sei que ela vai embora em breve e eu não quero que ela sofra, sofreu demais nos últimos três meses. Estamos juntos há 5 anos. Eu acho que a senhora tem razão, mas eu tenho medo que as filhas delas me xinguem, ainda não se conformaram que a morte da mãe delas é inevitável. Como eu fiz um seguro de vida no nome dela uns anos atrás, acham que eu quero que ela morra. As filhas devem vir visita-la ainda hoje.

O homem perto dos setenta anos que me dizia isso tinha os olhos injetados de tanto chorar. Havia um sofrimento genuíno nele e segundo Carolina, ele não arredava pé do quarto. E as filhas realmente estavam com dificuldade de aceitar a situação.

– Esperar a vinda das filhas vai postergar o alívio do sofrimento dela. E o coma pode ser revertido à tarde, se for o caso. Se o senhor autorizar, começamos agora. O homem concordou com a sedação e nós saímos para tomar as providências.

– Doutora, não sei o que eu teria feito se tu não estivesse aqui.

– Teria feito tudo, Carolina. Tu esgotaste todas as medidas terapêuticas, fez tudo o que estava ao teu alcance. Fazer isso é difícil pra todos nós. Fez tudo o que uma médica de verdade precisa fazer.

Carolina sorriu, ainda muito angustiada. Naquela tarde ela conversou com as filhas da paciente, que felizmente concordaram com a sedação. E paciente faleceu na madrugada de segunda-feira, sem sofrimento. Tenho certeza que Carolina saiu uma médica mais madura depois da experiência. Andar nas proximidades da morte requer coragem.

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