Liberdade

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– Mulheres auto-confiantes, inteligentes e sensuais são muito poderosas na nossa cultura. E eu acho que gosto disso.

Me disse um alemão com quem eu batia papo em um pub em Berlim. A frase poderia ser muito bem uma cantada, mas não era. Aliás, se ele dissesse isso para uma alemã tentando cantá-la ela provavelmente acharia que ele é um idiota. Ouvi essa frase mais de uma vez, de uma forma ou outra, nas duas semanas em que viajei pela Europa e perguntei para as pessoas sobre o terrorismo e a questão dos refugiados sírios. Era um dia triste, o dia seguinte ao do atentado que matou 129 pessoas e feriu outras tantas em Paris. Ele continuou.

– Além dos assassinatos com extrema crueldade, quando eu penso no terrorismo e nessas formas radicais religiosas o que mais me deixa mais angustiado é a forma como as mulheres são tratadas – como se fossem objetos, para serem estupradas ou para que um homem tenha várias delas.

Resolvi fazer uma pergunta:

– Tu achas que a Alemanha tem que deixar de receber os imigrantes sírios? Não existe o risco de esses valores se perderem?

Ele sequer me deixou continuar, me interrompeu prontamente:

– Nem pensar! Acho que a política atual da Alemanha está correta. Aceitar a pluralidade, as diferenças e a igualdade de gênero faz parte dos valores europeus. Eu sou europeu e não recebê-los é negar os nossos valores.

Enquanto eu processava o que ele tinha dito, chegou o amigo dele tunisiano e eu fiquei me perguntando o que ele pensava dos atentados, mas perguntar seria grosseiro demais. Achar que todo o árabe tem obrigação de se manifestar porque um grupo de terroristas matou um monte de gente é achar que todo o árabe é terrorista. Lá pelas tantas ele perguntou qual era a minha religião. Acho que queria falar sobre isso:

– Meu pai é agnóstico e eu também sou.  E na minha família os homens não fazem coisas estúpidas. Não praticamos a poligamia há três gerações, tanto os agnósticos quanto os crentes no profeta.

Aí chegou mais gente e sentamos todos em uma mesa.  Num instante eu me sentia sozinha e puxei papo no balcão do bar e no instante seguinte tinha arrumado uma turma de amigos para sair naquela noite, coisa que só acontece quando a gente viaja só. Ninguém achou estranho eu viajar sozinha. Nem achou que eu sou corajosa. Aliás ninguém achou nada porque as alemãs viajam sozinhas e cuidam de si mesmas há muito tempo. E não tem nada de estranho em uma mulher sentar sozinha em um balcão de bar. Nem de permanecer sozinha no balcão. Nem de pegar o metrô pra casa voltar da balada.  E nem de pagar a própria conta.  Liberdade tem um custo, inclusive financeiro.

O atentado me deixou engasgada porque aconteceu num daqueles momentos em que eu me sentia mais livre. Na Europa uma mulher viaja sozinha, senta num pub sozinha, caminha à noite sozinha – para mim, a sensação de liberdade suprema. Poucas coisas me deixam tão feliz quanto o direito de caminhar sozinha à noite.  Uma mulher faz o que quer na Europa e isso é inaceitável para os terroristas, como tantos outros dos nossos valores.

A desproporção de força entre homens e mulheres é real e o entendimento de que o tempo das cavernas deve ser superado é realidade apenas nos países mais evoluídos. Mesmo no Brasil, o avanço da liberdade das mulheres parece ser apenas uma concessão feita à contragosto. O país foi simplesmente incapaz de discutir a violência contra as mulheres provocada pela escolha do tema na redação do ENEM. Discordo radicalmente da existência do ENEM e não gosto da Simone de Beuvoir, mas partir desse ano não vou poder mais dizer que é um exame que não serve pra nada. Serviu pra provocar e a reação predominante foi a de ironia. A sociedade não conseguiu debater o assunto. Gosto de pensar que a reação foi um reflexo da impopularidade do atual governo e não uma proximidade tão grande com o tempo das cavernas.

Estou longe de ser feminista, mas liberdade é o meu bem mais precioso. Paris não é o melhor lugar pra se viver e nem é um lugar assim tão seguro, mas é um símbolo de valores de autodeterminação,  justiça e liberdade.  Quando terroristas atacam Paris, além da dor que eles causam nas famílias eles atacam frontalmente esses valores, que são preciosos para um mundaréu de gente.  Quando Paris é atacada por terroristas que utilizam o estupro como prática religiosa eu sinto como se os poucos lugares do mundo onde uma mulher pode ser realmente ser livre esteja correndo o risco de deixar de existir. Tem dias que são tristes demais.

 

 

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