O marido perdido

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Berenice entrou no consultório como se risse dos próprios pensamentos. Aos 13 anos perdeu a mãe, por complicações de parto. Criou os irmãos e dois filhos. Cuida do pai doente que abandonou a família. É paupérrima e está sempre de bom humor.
– Doutora, se eu lhe contasse as coisas que me acontecem a senhora não acreditaria. Eu descobri que não morro fácil.


Perguntei o que tinha havido.
– A senhora sabe aquela minha irmã que eu criei, a última? Aquela que é ruim como o diabo doutora, não reconhece o que a gente faz, vive às minhas custas e mora na minha casa?
Sim, eu lembrava da história.
– O marido sumiu, de uma hora para outra. E ela dizia que a culpa era minha. E o povo dizia que ele não voltava pra casa. E ela doutora, me enlouquecendo em casa, eu tentava ignorar, mas aí ela judiava do gurizinho, o filho dela. Daí me dei conta que ou ela me matava de desgosto ou eu matava ela. Decidi procurar o homem. Até marido perdido das outras eu acho.

Berenice começou a rir. Não resisti e ri também.
– Tu podes ganhar dinheiro encontrando marido perdido e fazer voltar pra casa. Como é que isso aconteceu?
– Fui nesses lugares que tem café e internet, sabe doutora. Mandei imprimir uma foto do Negão do Facebook. Ficou boa, o Negão é burro, mas é bonito. Mostrei daqui, mostrei de acolá e me contaram que ele foi visto subindo o morro. E que não podia descer. E que eu não podia subir lá.
Eu não estava conseguindo entender onde ela ia chegar, até porque ela ria, meio nervosa, meio divertida. E eu já tinha esquecido que tinha 12 horas de trabalho naquele dia e que não tinha almoçado.
– Comecei a subir o morro. Me perguntavam se eu queria morrer, se não tinha amor a vida. Eu inventei que não tinha medo, que era mulher doente e ia morrer logo e queria falar com Ele. E eles não me deixavam subir e falavam que iam me matar, que não iam me deixar falar com Ele.
– Ele quem, Berenice?

(Eu ainda não tinha conseguido entender do que ela estava falando.  E tinha vontade de rir, mas não sabia se podia)

– Doutora! Nem parece que a senhora é tão inteligente!
(Aproveitei a oportunidade pra rir mesmo)
– O Patrão, Doutora. Meu genro é um pateta, foi atrás dos amigos, viu coisa que não devia e tinha que ficar lá.
De repente eu me me senti dentro do barraco, acompanhando a negociação que Berenice colocava em curso.
– O Patrão me olhava, ele é grande, e eu pequena. (Berenice tem um metro e meio, se tanto). E não acreditava que eu estava lá. Perguntou se eu queria morrer. Respondi que ou ele me matava, ou minha filha me matava. Como ia morrer mesmo, queria levar o idiota de lá. Implorei, chorei, pedi, perguntei até se ele tinha mãe. Aí o Patrão começou a coçar a cabeça e disse. “É ele não dá pra coisa mesmo, é muito burro, mas agora sabe demais, não pode descer.” (Ela ria, imitando o Patrão coçando a cabeça). Foi então que eu aproveitei e disse que como ele era idiota, não ia lembrar de nada, nem ia prestar pra contar o que viu e que eu ia fazer ele esquecer. O Patrão começou a rir de mim e eu aproveitei a oportunidade. E desci o morro enchendo o Negão de cascudo.
Comecei a rir novamente e perguntei se a filha ficou agradecida.
– Nada, Doutora! Aquilo não agradece nunca. E nunca vi um amor assim por um homem. Se eu fosse rica, comprava aquela coisa que põe na canela do bandido e pela internet dá pra saber onde ele anda, só pra minha filha ficar feliz. Sabe o que é, né Doutora? Não sei como pode gostar tanto dele. Eu gosto mesmo é de mim.
Berenice sorriu, dentes brancos marfim contrastando com a pele negra.
– A senhora viu que eu coloquei chapa, Doutora? Fui lá na Odonto da UFRGS pra entrar na fila da chapa. O doutor disse que eu ia ter que esperar muito. Disse pra ele que não ia aceitar, se não podia me acontecer que nem com o meu compadre, que esperou dois anos pela chapa e quando estava bem feliz de dente novo, morreu de infarto.
Berenice riu. Eu ri. A vida é boa pra quem acha que ela é boa.

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