Berenice tem insônia

 

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– Doutora, tem uma mulher louca ali fora que ficou a tarde inteira falando que bate em todo mundo. Até estou preocupada pela senhora, as consultas estão atrasadas.

As consultas realmente estavam atrasadas naquele dia, quando já tinha acontecido de tudo.

– Tem certeza que essa pessoa já é minha paciente ou é paciente nova?

Sempre lembro de uma aula de psiquiatria da faculdade onde aprendi que a gente não deve menosprezar o instinto. Se o paciente parece perigoso, provavelmente é. Mas eu não lembrava de ter alguma paciente assim. Passaram-se algumas consultas. Quando chamei Berenice, liguei uma coisa a outra.

Berenice é a melhor contadora de histórias que eu conheço. O marido perdido Na consulta anterior Berenice  não conseguia dormir desde que os assassinatos tornaram-se rotina na vila onde mora, conflagrada pela guerra de gangues. Saía a caminhar pela madrugada. Hoje Berenice me cumprimentou com um sorriso:

– Doutora, aquele remédio que a senhora me deu derruba até cavalo. Estou dormindo feito anjo.

– E angústia melhorou, Berenice?

O sorriso desapareceu do rosto.

– Melhorou um pouco, doutora. A senhora sabe, desde que mataram o menino que era amigo das minhas filhas que eu fiquei sem dormir. A senhora acredita que todo mundo diz que eu vi ele ser morto? Que eu estava na frente de casa? E eu tenho pra mim que estava dentro da minha casa e nem vi os tiros. O que a senhora acha?

– Quando uma cena é muito traumática, às vezes a gente esquece, pra se proteger e não sofrer tanto, Berenice. Pode ser isso.

Berenice mudou de assunto.

– Contei pra senhora que o meu pai se juntou com uma mulher de boate, Doutora? Ele tinha virado crente, Doutora, um chato. Aí se juntou com a mulher da vida e passou a achar que dançar pelada é a coisa mais linda do mundo. Dia desses na hora do almoço ele começou a dizer na frente das crianças que acha bonito mulher dançar pelada.

Berenice ama os netos, compra briga com as filhas por causa deles.

– Corri ele de casa. Se gosta de mulher que dança pelada, o problema é dele, mas não pode falar sobre isso na frente das minhas crianças. Disse pra ele que se fizer isso de novo eu mato ele. Mato mesmo.

No mundo de Berenice, se a coisa não se resolve, morte.

– A senhora sabe que eu quase passei fome esse mês? Aí minha filha percebeu e me comprou uma cesta básica e eu pude fazer comida pra mim e pras crianças. Deus é bom pra mim Doutora, quando a dificuldade é muita, acontece alguma coisa pra resolver o problema. E faço uma faxina aqui e ali, mas quem cuida das meninas sou eu, não posso trabalhar fora.

Acho que Berenice consulta comigo muito mais para refletir sobre a própria vida do que qualquer outra coisa.

– O pessoal lá da vila diz que Deus é bom pra mim mesmo e que eu tenho o corpo fechado. Eu caminhava de madrugada quando tinha tiroteio e nunca me aconteceu nada. Nem nunca fui assaltada. Eu me dou com todo mundo, converso com todo mundo, assim como converso com a senhora, sempre com respeito. Todo mundo gosta de mim. Os bandidos de agora são meus amigos, todos eles eu vi crescer. Se me pedem dinheiro pra pedra e eu tenho, eu dou, mas nunca fui assaltada. A senhora sabia que quando eu não tenho cigarro eu saio pra rua: “Ô dos meu, me dá um cigarro?” E os bandidos me  dão cigarro?

Enquanto ela falava eu tinha uma sensação de tristeza e impotência. Quando estudiosos e políticos se põe a falar sobre os pobres eu sempre acho que não tem a menor ideia do que falam. Eles não conhecem pessoas como Berenice. Não sabem o que elas querem. Se soubessem, tomariam medidas efetivas pra que a cidadania dessas pessoas fosse resgatada. Ninguém deveria viver em locais conflagrados pela violência e crimes não deveriam ficar impunes.  Como as coisas vão continuar como estão, Berenice vai continuar reconhecendo nos bandidos de hoje as crianças que ela viu crescer.

 

 

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