Coordenada geográfica inexata

 

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— Como o senhor está,  Seu Geraldo?

Era a primeira vez que eu via Seu Geraldo razoavelmente consciente.  Quarenta e poucos anos, passa a maior parte do tempo semicomatoso, delirante ou muito confuso. Um homem que fumou muito, Seu Geraldo tem câncer de pulmão e está cheio de metástases cerebrais. Internou por convulsões de difícil controle. Todas as medidas para deter o avanço do tumor foram esgotadas.

— Doutora, eu ando confuso. Aqui já é o céu? Ou ainda estou na terra? Não sei mais.

Um pouco lá, um pouco cá, pensei. A família está muito impactada com as coisas que ele tem dito. Seu Geraldo às vezes acha que tem anjos no quarto.  Ele sabe que está morrendo e tenho pra mim que a confusão na coordenada geográfica é uma forma de ele se preparar para isso, para aceitar a idéia de morte em breve. E também de dizer pra família que está de partida. Tudo isso eu pensei em alguns segundos. Seu Geraldo sabe o que precisa saber e eu decidi não tomar mais o pouquinho de tempo que ele tem. A esposa e as filhas ansiavam por esses raros momentos de lucidez.

— Terra. Estamos todos na terra, Seu Geraldo.

Sorri, me despedi dele e da família e saí do quarto. Enquanto dava as costas, ouvi a filha rir de algo que ele falou.  Ela tinha me dito que o pai é um homem muito bem humorado. Talvez seja a última risada em família.  Da porta do quarto, fiz um sinal para a esposa que  conversaria com elas depois.

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