A filha de Dona Isaura e a pílula do câncer.

2016-03-30-14-37-24-901220520

Conheci Dona Isaura num sábado. Portadora de um tumor de intestino que quase obstrui totalmente a passagem das fezes, chegou na emergência vomitando muito e desidratada. Ela respondeu ao tratamento rapidamente e eu dei alta para ela naquele dia. Medicações? Morfina, antidepressivo e laxantes. Dona Isaura está fora da possibilidade de cura ou de qualquer tratamento para deter o avanço do tumor.

Dez dias depois veio consultar comigo, em uma cadeira de rodas empurrada pela filha, ainda mais magra. Ela se recusa terminantemente a colocar uma sonda no nariz que leve a alimentação até o duodeno. Dona Isaura está no finalzinho da vida, mas tinha passado os dez dias em casa  relativamente bem. Ao final da consulta a filha perguntou:

– Doutora, será mesmo que a não tem mais tratamento para a mãe, quimioterapia, cirurgia, qualquer coisa?

– Dona Isaura está fraquinha. A quimioterapia poderia colocar a vida dela em risco.  O que nós podemos fazer é controlar os sintomas da doença.

Dona Isaura e a filha  sabem da gravidade da situação e ainda assim tem esperança em uma cura milagrosa. Isso é da natureza humana. Nesses momentos os pacientes podem ser vítimas fáceis de pessoas mal intencionadas. Podem também aceitar a tratamentos que só trazem sofrimento, para manter um último fio de esperança. Duvidar das informações que os médicos dão e criar expectativas irreais quando a cura de um câncer são atitudes extremamente comuns e a gente tem que lidar com isso com tranquilidade. Por mais doloroso que seja, nãos não podemos mentir ou criar falsas expectativas quanto a efetividade dos tratamentos. Dona Isaura sabe que está morrendo, vê seu corpo definhando a cada dia. Uma mentira piedosa a deixaria ainda mais só.

– E a pílula do câncer”? A fosfo… como é o nome mesmo, Doutora?

– Fosfoetanolamina?

– Sim, essa mesma. Li no Google que ela cura o câncer e que os médicos são contra. Por que isso, Doutora?

– Quando uma medicação funciona, ela funciona aqui, no Japão, no Egito e na França. A fosfoetanolamina sós funcionou em pesquisas feitas em um lugar só . Apenas um grupo de pesquisadores diz que ela funciona. Algumas semanas atrás ela foi testada por outros pesquisadores e os resultados dos testes em laboratório foram ruins. leia sobre reprovação da droga

– Mas Doutora, se existe alguma chance não valeria a pena a mãe tentar usar? Por que a senhora a senhora é contra?

– A coisa toda está acontecendo do jeito errado.  A medicação nunca foi testada de maneira correta em seres humanos. Por pura demagogia, os políticos resolveram autorizar seu uso da medicação mesmo assim. sobre a aprovação na Câmara dos Deputados  E eles não sabem nada sobre o assunto. leia sobre a aprovação no Senado Fizeram isso apenas para satisfazer a pressão das pessoas.

As duas me olhavam com desapontamento. Minha tergiversação sobre a judicialização da medicina não interessava. Dona Isaura estava morrendo e isso é o que importava pra elas.

– Se a senhora tivesse câncer, como o da minha mãe, usaria essa medicação?

Fico tentando imaginar o quão angustiado um paciente está para vencer o constrangimento de fazer essa pergunta. Dessa vez a resposta era fácil. (nem sempre é) Não ia querer para mim nada que pudesse acelerar um câncer ou piorar minha qualidade de vida. leia sobre as escolhas dos médicos em final de vida Nem apelaria para tratamentos sem comprovação científica.

– Não, nem pensar. Ainda não sabemos se a fosfoetanolamina pode causar danos. A última coisa que a senhora precisa é de uma medicação que possa lhe fazer mal.

Desapontadas, Dona Isaura e filha se despediram. Parei para tomar um café.  Um dos problemas da medicina feita de maneira séria e responsável é justamente esse: não apresentamos falsas esperanças ou curas milagrosas. Os pacientes querem garantias e nós oferecemos probabilidades.  Por isso, nesses momentos a medicina parece pouco atraente e isso gera uma carga de frustração para as pessoas. No final das contas, autorizar o uso da fosfoetanolamina seria o mais fácil pra mim. As duas ficariam felizes, Dona Isaura ficaria esperançosa e eu não precisa gerenciar a frustração das duas – que às vezes é mais dolorosa que os sintomas doença. Gerar falsas esperanças nos pacientes é muito fácil. E é por isso que está cheio de gente por aí fazendo isso.

Links interessantes

  1.  Página da pesquisa em fosfoetanolamina do Ministério da Ciência e Tecnologia.
  2. O mico que estamos pagando fora do Brasil porque o congresso aprovou o uso de uma medicação que sequer tem registro na ANVISA.

3 opiniões sobre “A filha de Dona Isaura e a pílula do câncer.”

  1. Até para um leigo é facil entender assim. Levando o custo de oportunidade em consideração, não vale a pena nesse momento o custeio desse medicamento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *