O triângulo amoroso

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Era um bar desses de mileniais, onde cada um faz o que quer e ama quem quer. Onde o amor é líquido e gente que amar de maneira sólida só encontra diversão se não se levar a sério. Em se tratando de amor, há muito tempo decidi que a seriedade deveria ficar no passado. A música na pista era excelente, a festa corria solta. Às vezes fico apenas olhando a festa acontecer, sem entrar nela. A forma como a nossa espécie dança a dança da aproximação (ou a dança do acasalamento, se preferirem) me intriga, sempre. No meio da muvuca, o trio chamou minha atenção. Entraram de mãos dadas, em fila indiana.

O da frente usava camiseta azul, barba bem feita, alto. A menina era ruiva, tinha sardinhas, baixinha e gordinha. Usava vestido e sapatilhas. O terceiro usava camiseta branca e também tinha barba – era mais baixo e mais magro que o primeiro. O trio parou ao meu lado, num corredor que dava para o bar. Batendo papo com amigos eu espiava o trio com o canto dos olhos. Tinha romance no ar, mas eu não conseguia entender quem pegava quem, ou se todos se pegavam, sei lá. O mundo dos mileniais é mais livre e mais descomplicado que o meu. O número de opções sexuais e modalidades de relacionamento só faz aumentar. Dia desses me falaram que o número de opções sexuais aumentou de três para oito. Ainda que eu me esforce para entender, dá um certo trabalho me manter atualizada.

O trio dançava. Bronzeado e auto confiante, Camiseta Azul chamava a atenção. Tinha a tranquilidade dos que nasceram lindos e estão no topo da cadeia alimentar. A menina sorria e conversava com os dois. Camiseta Branca dançava mais timidamente, parecia tenso. Tinha cabelo preto e me parecia pálido. Eles se olhavam nos olhos, todos. O trio claramente dançava a dança da aproximação, havia aquele compasso de espera que antecede a aproximação física, aquele em que a gente tem quase certeza que vai acontecer.

Por alguns minutos, me distraí e perdi o trio de vista. Quando me dei conta os dois meninos se beijavam. Camiseta Branca tinha prensado o Camiseta Azul contra a parede. Um beijo de festa. Muita empolgação e pouco afeto. O afeto era direcionado para a menina, que estava encostada na parede oposta do corredor. Ela e Camiseta Azul estavam de mãos dadas. Ele fazia carinho na mão dela. Como Camiseta Azul conseguia beijar Camiseta Branca e segurar a mão da menina coordenadamente eu não sei. Os que estão no topo da cadeia alimentar tem mais talento e habilidades que o resto,

A menina não estava muito interessada na festa, olhava para os lados, distraída. Também estava pouco atenta aos dois. Tinha cara de quem tinha ido pra fazer companhia. Embora pudesse ser um triângulo amoroso, a cena curiosa era a de um casal e a melhor amiga de um deles. Se tem algo que os mileniais fizeram foi descomplicar algumas coisas que eram complicadas para gente que como eu, fez a cabeça no século XX.

Ter vários amigos dessa geração tem me feito aprender um bocado. Eles descomplicaram um muitas coisas. A forma como eles lidam com homossexualismo é uma delas. É genuinamente desencanada. A outra é a forma como eles lidam com amizade do sexo oposto. Amizade sempre houve, desde que o mundo é mundo e houve um acordo tácito em que a despeito da (eventual) atração física e possibilidade amorosa entre um homem e uma mulher, haveria de haver apenas camaradagem. Sempre tive amigos homens e  meus amigos mileniais me ensinaram que o acordo tácito permanece, mas ele é bem mais leve e menos cheio de regras – inclusive quando a gente mistura as estações. Pode ser bem mais simples. Infinitamente mais simples. 

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