De presentes, peruas e anjinhos

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Médicos ganham muita comida de presente, que costuma ser dividida com os colegas na hora do café. Uma vez me contaram a história de um bolo entregue para um médico (impopular), que foi dividido com os colegas como manda o costume. Boa parte da desafortunada equipe passou mal à noite por conta de alguma coisa propositadamente colocada no tal bolo. Embora tenham me fornecido data, hora, local e personagens, até hoje continuo achando que essa história foi inventada. Pessoalmente, nunca passei mal comendo qualquer coisa que tenha ganhado – e eu ganho presente quase toda a semana. Mas não é sobre indisposições estomacais que eu quero falar.

Esses tempos uma paciente na casa dos 70 anos me entregou um pacote cuidadosamente feito. “Espero que a senhora goste, Doutora. É perua como eu.” O presente em questão era uma camisola tigrada. Aos 70, provavelmente serei uma profusão de cores, como ela. Mas também não é sobre peruas que eu quero falar.

Tempos atrás eu retirei o útero de Dona Carmela, que tinha câncer. Tinha também um diabetes de difícil controle, fornecia informações desencontradas e fazia uma confusão enorme com as medicações. Certa vez ela me deu de presente uma bandeja de plástico laranja. Justamente por ser cafona, achei sensacional, e durante um tempo foi o toque kitsch da minha cozinha. Tempos depois foi substituída por um relógio de São Jorge. Mas também não é sobre São Jorge que eu quero falar.

Próximo ao Natal Dona Carmela veio consultar. Toda sorrisos, abriu uma sacola de onde tirou dez anjinhos de gesso e os espalhou sobre a minha mesa. Agradeci, e quando fui guardá-los ela me interrompeu.

– Espera, Doutora. Preciso contar os anjinhos.

Após contá-los, guardou a metade na sacola.

– Quase eu lhe dei os anjinhos da Doutora Gabriela, a minha endócrino. Vou consultar com ela daqui a pouco.

Depois que ela saiu a técnica de enfermagem que assistia a cena perguntou.

– A senhora gostou do anjinhos?

– Não, Suzana. Nem um pouco, mas presente é presente.

– A senhora se importa se eu olhar eles?

Suzana começou a examiná-los.

– Doutora, Dona Carmela tirou esses anjos de algum cemitério.

  • Suzana, de onde tu tirou isso?

Ela virou os anjinhos de cabeça pra baixo.

– Olha aqui Doutora, estão sujos de terra. Esses anjos tem pra vender em loja de R$ 1,99. Está na moda usar eles pra decorar túmulos.

Suzana agora se divertia às minhas custas.

– Ela tirou esses anjinhos de algum cemitério, Doutora. A senhora vai guardar eles? Onde a senhora vai colocar?

(Quando a gente fica sem resposta, a saída é valer-se da autoridade e manter as pessoas ocupadas)

– Sei lá, Suzana, coloca os anjinhos do lado da minha bolsa, que eu vou chamar a próxima paciente. Estamos atrasadas. E por favor, me agiliza um café.

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