O ar que Seu Cândido não tem

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Seu Cândido tem um câncer de pulmão avançado que evolui sem trégua há dois anos apesar do tratamento. Sente muita falta de ar. À noite, às vezes cochila. Deitar, no caso dele é impossível. Só consegue respirar sentado. Quando as medidas se esgotam, a gente prescreve sedativos para  que o cérebro não perceba tanto a falta de ar. Seu Cândido não gostou deles. Eu ainda não tinha visto um paciente que preferisse permanecer absolutamente consciente na situação que ele está. Seu Cândido não queria morrer dormindo, os filhos disseram.

No primeiro dia em que o atendi, Seu Cândido se queixou a falta de ar. Disse que as medidas que nós poderíamos usar para aliviar o sofrimento dele estavam se esgotando. (Na prática, estavam esgotadas) Novamente falei que uma das opções seria a sedação. Com a fala entrecortada, seu Cândido deu um tapa no ar, rejeitando categoricamente a ideia. Não insisti. À vezes, o limite entre oferecer novamente um lenitivo para o sofrimento ou importurnar o paciente com algo que ele não quer é sutil. Seu Cândido estava terminalmente doente, mas o corpo era dele.

No terceiro dia ele parecia exausto. “Meu único problema é o ar que eu não tenho, Doutora. Eu só queria poder respirar, um pouco que fosse.” Expliquei que apenas uma parte muito pequena do pulmão estava sadia e por isso nada do que a gente fazia aliviava o sofrimento dele. Nem mesmo cânula de oxigênio que entrava pelo orifício da traqueostomia.

Os olhos muito azuis de seu Cândido transmitiam brandura e afeto. Impossível não gostar dele. Isso aumentava minha sensação de impotência. Estivesse na situação dele, talvez eu mandasse os médicos para os diabos – para extravasar ou para passar o tempo, como alguns pacientes fazem. Descarregar a frustração com o inevitável é humano. E necessário.

Sugeri um sedativo aplicado periodicamente, para que ele passasse parte do tempo acordado. O sedativo não interferiria no número de dias ele tinha pra viver, a natureza seguiria seu curso. Disse que os efeitos poderiam ser revertidos imediatamente caso ele se sentisse mal. E que nós poderíamos programá-lo para pra ser aplicado a cada 6 ou 8 horas, deixando espaços para que ele ficasse acordado.   Seu Cândido finalmente concordou, incentivado pela filha mais nova. Aos vinte e poucos anos a menina parecia estar amadurecendo na marra, como costuma ser. Uma mistura de seriedade e leveza. Acho que ela foi crucial para que ele tomasse as últimas decisões. “Pai, vamos tentar? Fico aqui do teu lado e chamo a Doutora, se precisar. Fica tranquilo”

Seu Cândido alternou períodos de sono e vigília e morreu 72 horas depois. Só o vi completamente inconsciente um pouquinho antes de morrer. As vontades de seu Cândido foram respeitadas até os limites da doença que ele tinha.  A família ficou aliviada por ter conseguido atendê-lo. O corpo era dele.

 

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