A Doutora Juliana e o Gajo

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E aí eu sentei na livraria para tomar um café e olhar o povo.  Era sábado. Mesinha de rua, na esquina. Serumano me aborda:
– A Senhora é a Doutora Juliana?
Passar mais de 12 horas todos dos dias sendo chamada de doutora me deixaram adestrada, meio feito cachorro. Se ouço “doutora” na rua, tenho o ímpeto de achar que é comigo. Respondo mais por adestramento que por empáfia. Não lembrava de conhecê-lo, mas anos no SUS tornaram impossível que eu me lembre de todos os rostos. Achei que ele me conhecia e tinha trocado meu nome.
– Doutora Luciana – respondi meio constrangida – não gosto de lascar meu nome de guerra em ambientes informais.
O homem me olhava inseguro, parecia não ter certeza se eu era a pessoa que ele estava esperando. Na pergunta seguinte eu percebi um leve sotaque português, com jeito de quem morava no Brasil há tempos.
– A senhora veio aqui encontrar-se com um escritor?
Não sei como é pra vocês, mas sempre acho esquisito quando me confundem com alguém e o enredo da história poderia ser o meu. Por um instante, sempre parece que eu estou vivendo alguma vida paralela que nem eu sabia, desconhecida de mim mesma. Voltando a história. Não era bem isso que eu queria falar.
Agora, ele parecia visivelmente nervoso.
– Acho que o senhor está me confundindo.
Uns minutos sem saber o que fazer, o Gajo afastou-se. Com o canto dos olhos fiquei observando. Ansioso, o Gajo esperou pela Doutora Juliana por mais  uns vinte minutos e foi embora cabisbaixo.  A Doutora Juliana deu o cano no Gajo, que era bem apessoado. Fiquei com pena. Mas a selva virtual é assim mesmo. O nervosismo, a abordagem, a forma como esperava  me saltavam aos olhos: Tinder. O enredo era típico.
(Não que eu tenha qualquer conhecimento prático sobre o aplicativo. Meu interesse é meramente científico e estabeleço essas ilações baseada exclusivamente nas informações obtida com amigos )

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