A Nega Ju e o Inverno

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Todo o hospital tem alguns personagens que desafiam a dor, a desgraça, os uniformes brancos e são desbragadamente coloridos. A Nega Ju é uma das minhas preferidas. Faz questão de ser chamada assim desde os tempos que eu era médica residente. “Bom dia, eu sou a Nega Ju, a técnica de enfermagem que vai cuidar da senhora hoje.” A Ju conhece todo mundo, presta atenção em todo mundo e para todos tem um gesto de afeto. Uns anos atrás a Nega Ju topou comigo no corredor, abatida e sem maquiagem. Eu estava recém separada e de coração partido.  Naquele ano eu estava de plantão no dia 13 de junho e a Ju, sempre preocupada com o amor, me trouxe um pãozinho de Santo Antonio . Mas não era bem isso que eu ia falar. Estávamos a Ju, a ascensorista e eu no elevador, há duas semanas atrás.

– E esse frio, Doutora?

– O bom do inverno é que ele acaba, Nega Ju.

A ascensorista entrou na conversa

– Inverno só é bom pra rico, Doutora. Tem dinheiro, vai tudo pra Gramado, tomar vinho. Aí é bom. Pra quem pode ir para Gramado, o inverno é ótimo.

– Ou para quem foge para o Rio – respondi pensativa

A Nega Ju riu

– Ah! Salvador é muito melhor! Imagina nós lá: aquele calor, o sol, a música e bem abraçada em um negão bonito e sarado.

Deu aquela gargalhada de que apenas as pessoas muito felizes são capazes, aquecendo a manhã fria, como que convidando a gente a rir com ela .

– Bem melhor, né Doutora?

O elevador parou no segundo andar e a Nega Ju desceu, me poupando de dar uma resposta (honesta) na frente da ascensorista, que eu mal conhecia. Continuamos a subida.

– A Nega Ju pensando maldade e nós as duas só pensando em fugir do frio, né Doutora?

– Pois é… – respondi sendo propositadamente vaga.

(na minha cabeça, só rodava a musiquinha antiga: I don´t want to stay here/ I wanna to go back to Bahia)

 

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