As dores compulsórias

 

Papoula Scarlet-O-Hara
Papoula Scarlet-O-Hara

Dona Eudóxia veio à consulta porque estava com dores na vulva. Tinha também um reumatismo, usava várias medicações e tinha feito uma cirurgia na coluna recentemente. Em seguida, fez uma nova hérnia de disco e estava com muita dor. Era casada, o marido dela tinha insuficiência cardíaca e quase não caminhava  por causa do coração fraco.

– Dona Eudóxiam já que a senhora tem dor a vulva lá de vez em quando, vamos usar essa pomada, apenas quando tiver dor. Mas acho que está na hora de usarmos morfina para as outras dores. É uma medicação segura se a gente usar direitinho. E é fornecida pelo SUS.

– Doutora eu tenho medo da morfina.

– Vamos começar com dose baixa, quero lhe ver daqui um mês.

– Deixa eu ver se entendi, Doutora. Para a vulva, pomada. Para as outras dores, morfina.

Dona Eudóxia fez uma pequena pausa e emendou o assunto seguinte como se tivesse relação com suas dores.

– Sabe, Doutora, eu tenho 53 anos de casamento. Tenho medo de perder ele, meu velho está muito doentinho. O problema no coração é muito grave. E com as nossas doenças, um cuidando do outro, estamos cada vez mais unidos.

Levantou-se e quase na porta parou novamente.

– Hoje não é mais assim, Doutora. É difícil encontrar o amor. Minha filha está separada. Minha neta está separada. Eu tenho medo de perder ele.

Dona Eudóxia despediu-se e saiu. Mais que as dores físicas ela parecia ter uma dor lhe apertando o coração, o medo de perder o marido devido a uma doença grave. As dores físicas teriam alívio com a morfina, mas não haveria o que aliviasse a dor do medo da perda. Seja para a vida ou para a morte, o medo da perda é uma dor compulsória do amor.

 

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