Somos todas iguais

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Berenice é a melhor contadora de histórias que eu conheço.  (leia http://deusmelivreserbege.com/2015/12/21/o-marido-perdido/ e http://deusmelivreserbege.com/2015/12/21/o-marido-perdido/

– Doutora, a senhora sabe a promoção da ótica Silva, lá para os lados de onde eu moro?

Não, eu não sabia.

– Se a pessoa junta cupons de compra no valor de quarenta e oito reais pode trocar por uma armação de óculos. Aí só paga as lentes.

Fiquei me perguntando como funcionava a tal promoção exatamente, mas ela continuou.

–Fiz faxina por todo o morro pra ganhar os cupons dos vizinhos. Lá na ótica a vendedora me disse. “Os que dá para trocar pelos cupons estão aqui nessa parede.” Como é que pode, Doutora, era tudo óculos feio. Eu até disse pra mulher: “Bem que vocês podiam ter escolhido uns óculos melhorzinhos, né?” A gente já não é bonita,  já não enxerga direito, aí coloca esses óculos e fica parecendo um filhotinho de cruz-credo.  Voltei pra casa triste. Aí minha filha me ajudou com um dinheiro pra comprar um óculos melhor. Fiquei até bonitinha.  Neguinho lá na vila vai até notou. A senhora sabe que eu me dou bem, Doutora?  Tenho um bom papo. É tomar uma cerveja comigo, eu passo a conversa e pego mesmo. Vacilou, se distraiu, termina lá no meu barraco. Pego uns bichinho até bonito. Porque homem tem que ser bonito, né?

Como eu iria discordar dos objetivos critérios de Berenice a respeito do sexo oposto? Apesar do oceano de diferenças entre a minha vida e a dela, Berenice me faz pensar o quanto somos parecidas. Sim, os artigos em liquidação são mais feios que os que estão fora dela, e a gente quer os que estão na prateleira ao lado. Sim, é (bem) melhor que o homem seja bonito. Sim, quem tem bom papo leva vantagem no jogo da sedução. E finalmente, independente do bolso ou da coordenada geográfica, em se tratando de amor e sexo, autoconfiança é quase tudo.

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