Direto do mundo cão

 

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Amigo leitor: o que segue saltou diretamente do mundo cão para o meu consultório no SUS, me esbofeteando a cara. Por isso tomo a liberdade de esbofetear a sua. Pensei muito se deveria publicar essa história. Ela envolve bullying, uma criança, uma mãe, pobreza e desamparo.

Jucinara praticamente pulou para dentro do meu consultório, segurando as mamas. É minha paciente há mais de cinco anos. Nunca a tinha visto desse jeito. Ela é dona de casa e o marido perdeu o emprego por causa da crise. A família veio para a grande Porto Alegre, onde o marido arranjou trabalho.

– Estou morrendo de dor nos peitos, Doutora.

Me disse isso em pé, não quis sentar. Menstruando regularmente, mamografia em dia, nenhuma alteração digna de nota. Apenas uma grande contratura no músculo peitoral – o músculo que fica embaixo da mama.

– Andou fazendo muita faxina, Jussinara? Ou bateu a mama em algum lugar?

– Não.

A pergunta foi suficiente para que as lágrimas escorressem. Me falou que o filho de oito não queria ir para a escola Era um menino tranqüilo, boas notas, alfabetizado. Ninguém na escola estaria ajudando a resolver o problema. Os meninos da quarta série, bem maiores, bateram nele no banheiro. Mais de uma vez.

-Disseram que iam continuar batendo toda a vez que ele fosse no banheiro. Aí ele não quis mais ir pra escola, chegava em casa se urinando, o pobrezinho… Ainda ameaçaram ele com bagaceirice.

– Abusaram do teu filho?

Ela chorava mais ainda.

– Disseram para ele que porque ele era gordo e feio iam tirar a roupa dele e fazer ele de mulherzinha… Ele me disse que não abusaram dele, Doutora, mas como é que eu posso ter certeza?

Protegida pelas ilusões do meu mundo, perguntei.

– Mas tu não falaste com a diretora?

– A diretora disse que isso era impressão, invenção de criança, que não ia acontecer nada. Me mandou resolver o assunto com a mãe dos meninos. Eu ia falar, doutora, mas a minha vizinha disse que eles são gente barra pesada, moram pertinho da minha casa. Fiquei até com medo que pegassem meu menino de vingança.

– Ou teu marido…

– Pensei nisso, Doutora. Por isso fiquei quieta.

Ela chorava. Com as ilusões do meu mundo respirando por aparelhos, mas ainda vivas, arrisquei uma sugestão.

– Tu pensaste em mudá-lo de escola?

– A secretaria de educação disse que só pode mudar ele no próximo ano.

Apesar da morte cerebral das minhas ilusões, arrisquei outra.

– E o Conselho Tutelar?

– Quem garante que o conselho fica do meu lado? É tudo dimenor… Meu menino fica em casa agora, do meu lado. Para vir aqui eu implorei pra minha sogra não sair do lado dele. Ele só fica tranqüilo se eu estou por perto. Isso até eu ir embora.

– Tu tens como sair dali?

– Mas só daqui dois meses. Temo juntando dinheiro pra mudança. Até lá vai ser esse inferno… A senhora me dá remédio pra dormir, Doutora?

Jucinara chorou novamente. Segurei sua mãoaté que parasse de chorar.  Saquei do coldre meu receituário azul e prescrevi os remédios para dormir – a única arma ao meu alcancei para aliviá-la daquela violência. Abracei calorosamente quando me despedi.

Estou engasgada com essa história há vários dias. Tentando entender como suportamos viver num estado de impunidade tal em que é impossível para uma mãe pobre proteger seu filho. São vinte anos de medicina, todos eles no SUS e eu continuo achando que a impunidade é a desgraça original da nossa sociedade. Ainda que quisesse, a diretora da escola pouco poderia ajudar, no descalabro de criminalidade em que o Rio Grande do Sul se transformou nos últimos dez, quinze anos e que piorou agudamente em 2016. Descalabro esse que faz com que a vida gente não valha nada. Se a minha, se a sua vida não vale nada, a dignidade de uma criança pobre da periferia vale menos ainda, sequer merece uma nota de rodapé na estatística da violência.

 

2 opiniões sobre “Direto do mundo cão”

  1. Infelizmente, enquanto nossos “governantes” pensam apenas em encher ilusoriamente seus bolsos e suas contas bancárias, com um dinheiro extraido do suor da classe trabalhadora
    que sustenta e ainda mantém aberto
    esse país, eles não olham para os menos favorecidos, pois seus filhos não estudam em escola pública e muito menos seus familiares não usam o SUS, pela impunidade e o não cumprimento da justiça, todos nós ficamos
    amarrados ao mundo dos que se acham espertos e protegidos pela corrupção mental dos políticos e bandidos que assumiram de vez este Brasil.

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