Uma solução para os problemas conjugais

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–   A senhora sabia, Doutora? A porta do meu barraco não tem tranca, fica encostada. Quando eu ia trabalhar, dizia que se encostassem um dedo nas minhas meninas, eu matava.

Berenice arregalou os olhos. No mundo violento em que vive, assassinatos são comuns. Berenice tem insônia  . Sempre tem uma história nova. Uma delas rendeu inclusive o título do meu livro. o-marido-perdido/    Em seguida, mudou o tom da conversa.

– É que lá no morro todo mundo me respeita…

Fez uma pausa, como se tentasse encadear o que estava contando.

A senhora sabe que eu a coisa andou feia lá em casa? Mês passado quase passei fome. Aí eu pedi um dinheiro para o Luis Carlos. Sabe o Luis Carlos, Doutora?

Não eu não sabia, mas não vinha ao caso. Nas reflexões sobre a vida de Berenice eu sou apenas um ouvido. É daquelas pacientes que consultam porque precisam entender a própria vida.

– O Luis Carlos foi meu marido. Morei com ele depois que fiquei viúva. O nego era bom, me ajudou muito pra criar as meninas. Até hoje é apaixonado por mim.

– E o casamento acabou por quê?

– Tinha um defeito triste…

Esfregou o dedo indicador no polegar.

– Jogo? Caça níqueis?

– Isso. A maquininha aquela. Tinha uma no boteco no pé do morro. Eu achava estranho, porque volta e meia ele voltava sem dinheiro, dizendo que tinha sido  assaltado. Daí eu perguntava para os assaltantes do morro – eu sou amiga de todo mundo, né, a senhora sabe – e me diziam. “Nega, pra esses lados não tá dando assalto, se fosse mais para baixo ou mais para cima…” Um dia, resolvi seguir o Luis Carlos. Vi entrando no bar e comprando as fichas. Pensei uns dois dias o que eu ia fazer. Aí passou “Tropa de Elite” na TV. Resolvi o problema com álcool.

Eu não sabia se podia, me deu vontade de rir. Ponderei que Luis Carlos ainda estava vivo, então não deveria ser tão grave.

Gastei cinco pila numa garrafa de álcool. Mais dois pila num isqueiro do Paraguai.

– Álcool líquido ou gel?

A história era boa demais, eu precisava de todos os detalhes.

– Claro que é líquido, né Doutora? Pensa um pouco! Não assistiu Tropa de Elite?

Assistir, eu tinha assistido. Mas não estava entendendo.

– Cheguei no bar e fui perguntando por ele, dizendo que ia matar. E eu queria, Doutora. Estava louca de raiva. Aí um homem que estava lá, ficou me tirando. “Sai daí que mulher aqui não entra, quero ver tu continuar aqui. Te coloco pra fora.”

Fiquei mais louca ainda. Joguei álcool no chão e atirei o isqueiro em cima da poça maior. Pegou fogo em todas as poças de álcool, Doutora.

Berenice ria, divertida. Eu ri também. A essas alturas a formalidade do jaleco tinha ido para o espaço sideral.

– E o Luiz Carlos?

– Saiu correndo, apavorado. E os outros homens começaram a apagar o fogo.  Eu fui embora, bem calma.

E o que aconteceu depois, Berenice?

– O dono do bar veio me cobrar o prejuízo. Eu disse que não tinha queimado nada, que quem queimou tudo foi o álcool. E que ele tinha sorte de eu não avisar a polícia da maquininha de jogo. O Luiz Carlos me largou, pra todo mundo ele dizia. “Eu amo a Berê, mas a nega é louca”. Por isso a porta do meu barraco não tem tranca, Doutora. Todo mundo me respeita.

Era uma solução criativa para dirimir determinados conflitos conjugais. Mas, aqui entre nós prezada amiga, mesmo que tenha considerado a hipótese por instante (assim como eu), não tente fazer isso em casa. Berenice mora num barraco sem tranca numa das vilas mais violentas da cidade. Consegue ser respeitada ali. Para uma mulher que sobrevive a tiroteios, estourar um isqueiro numa poça de álcool deve ser até lúdico.

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