O Fetiche da Vírgula

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Prezado amigo. Quer se dar bem com o sexo oposto? Ser irresistível? Esqueça a barriga tanquinho que cerveja não lhe permite adquirir. Aprenda a usar a vírgula. O novo Don Juan, o sedutor do século XXI, além de ir para a academia necessariamente precisa manjar dos paranauê da gramática. Nos Estados Unidos, trinta por cento dos casamentos no ano passado iniciaram com contatos na internet. Se a sua paquera pela internet vai mal, amigo, o problema talvez esteja na forma como escreve.

Uma vez que a primeira abordagem é escrita, aqueles habilidosos com as palavras levarão vantagem em relação aos outros. Pouco adianta aquela barriga trabalhada se nas primeiras frases o candidato trocar o S pelo Z. “Oi princeza!”. Erros ortográficos grosseiros podem transformar a mulher mais disposta ao amor numa bruxa enlouquecida na TPM. Um dia a medicina ou a psicologia irão estudara influência da ortografia na libido feminina.

A primeira vez que me apaixonei em tempos internéticos, foi por um adorável canalha, habilidoso com as mãos e as vírgulas.  Não falo em um domínio estrito das orações coordenadas e subordinadas, mas de um domínio intuitivo do ritmo da língua portuguesa. Findado o romance e curando a dor-de-cotovelo, aprendi nos meses seguintes sobre as regras amorosas do século XXI e, confesso, senti mais falta das vírgulas que das mãos.

Segundo Anajara, aquela minha amiga que vive preocupada com o amor Sobre clitóris, memes e pokémons o problema é mais sério que entender-se com o sinuoso sinal ortográfico. Dia desses ela me ligou:

– Estou traumatizada.

Perguntei o que tinha havido.

– Engatei um papo com um cara que me adicionou no Facebook, três frases e eu já tinha me arrependido. Disse que não queria mais falar com ele. Continuou insistindo. Repeti que não queria. Aí ele escreveu. “não gosta de mim, pode mim bloquear”

Ela fez uma pausa dramática.

– Foi pior que se ele tivesse me mandando a foto da piroca que eu não tinha pedido pra ver.

Politicamente incorreto? Pois é, quer troço mais politicamente incorreto que libido? Sua própria existência desafia o ordenamento do mundo. A gente gosta do que atiça. Já ouvi inúmeras histórias de mulheres que desistiram (com pesar) de conversar com um homem bonito porque a quantidade de erros de português esfriou o papo. Os memes estão por aí.  Pra mim, um texto com vírgulas bem colocadas é quase fetiche – desde que o indivíduo não esqueça dos “Rs” no final dos verbos. Do outro lado o problema também existe: amigo meu desistiu de conversar com uma guria, ansiosa demais pelo primeiro encontro, quando ela sugeriu lá pelas tantas. “Quem sabe se vemos na Redenção?”

Pensando em escrever sobre o assunto, fui conversar novamente com Anajara, talvez ela me ajudasse a organizar as ideias. Aparentemente já tinha superado o trauma, pois me contou que tinha um novo crush. Ela me ajudou pouco, porque já estava metida numa nova reflexão. Embora considerasse minha ideia um bom tema pra crônica, ela recomendou muitíssimo que me ocupasse de temas mais urgentes e incompreensíveis do mundo virtual, como escrever sobre a mania que alguns homens têm de mandar fotos da própria piroca. Sensibilizada com o apelo, anotei a sugestão.

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