A pitangueira

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– Doutora, eu não quero que o meu marido saiba que não tem mais tratamento.

– E se ele quiser se despedir de alguém, organizar alguma coisa?

– Não quer, que eu sei. Ele não dá bola pra essas coisas, é desligado.

– E se ele me perguntar?

– Não quero que a senhora diga nada, ele vai acreditar naquilo que eu disser.

– A senhora me disse que ele emagreceu trinta quilos. Será mesmo que ele não tem noção da gravidade da doença?

Dona Maura não respondeu e me olhava com cara de poucos amigos. Eu tinha assumido o caso naquele dia. Ela não queria que o marido soubesse da gravidade da situação porque não conseguia aceitá-la. Mas eu ainda tinha coisas mais duras a dizer.

– Inclusive, Dona Maura, as notícias não são boas. Ele piorou de ontem pra cá, os exames estão muito ruins.  Acho bom chamar os filhos e os parentes, para as despedidas.  Existe uma grande possibilidade de óbito nas próximas 24 horas.

Ela reagiu como se o marido fosse um homem sadio e ela estivesse recebendo a má notícia naquele momento. Chorou bastante, disse estar surpresa.  Dona Maura estava negando a gravidade da doença e isso é muito comum.

Três horas mais tarde fui chamada. Ele tinha piorado. Situação temporariamente contornada, Dona Maura falou:

– Doutora, na hora que ele estava pior, me abraçou e disse. “Acho que agora eu vou morrer.”

– A senhora percebeu que ele sabe da gravidade da situação?

Ela fingiu que não me ouviu. O nome desse fenômeno e a Conspiração do Silêncio. A família acha doloroso demais conversar sobre a provável morte do ente querido com ele e decide que não vai falar nada, com a justificativa de preservá-lo. Por outro lado, os pacientes percebem que a família não consegue tolerar o sofrimento da inevitabilidade da morte e se calam, sendo relegados à solidão. Um pacto de silêncio se estabelece. Por que insistimos na quebra desse pacto? Estudos de final de vida demonstraram que as despedidas e tomada de providências são importantes para reduzir o nível de stress do paciente e dos cuidadores. Inclusive, o processo de luto para os que ficam pode ser mais curto.

No dia seguinte o marido estava pior e Dona Maura me encheu de perguntas, tentando arrancar de mim alguma esperança na reversão do quadro, ou que me contradissesse. Reiterei apenas que o quadro era muito grave e o mais importante era oferecer conforto. Ela queria um culpado, uma justificativa, qualquer coisa que não fosse a inevitabilidade da morte – uma coisa que apavora a todos nós.  Ouvi e acolhi, respeitosamente. É o que há para fazer nessas horas. A conversa foi interrompida com a chegada dos quatro irmãos do Seu Juremar, ansiosos por vê-lo. Ele morreu cerca de duas horas depois, acompanhado da irmã e da filha.

A filha me contou que Dona Josalva, a irmã, era pessoa que ele mais gostava, a mais próxima, a mais amiga. Os últimos momentos foram com ela. Dona Josalva era muito parecida com ele e chorava mansinho. Sentei-me para ouvi-la.

– Sabe, Doutora, ele gostava muito de plantar árvores e me deu umas sementes ano passado. Hoje eu peguei da mão dele e disse. “Mano, a pitangueira cresceu. Está grande nesse tanto, a coisa mais linda. “

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