Recalculando a rota

recalculando a rota“Às vezes a gente tem que fazer igual a moça gentil do GPS e recalcular a rota, se pegar um caminho equivocado.  Afinal, a gente erra de estrada o tempo todo.” Disse uma amiga que está fazendo uma correção de rota dramática. Mais que um comentário bem humorado sobre os aplicativos que mudaram o deslocamento das pessoas nas cidades, ela estava falando sobre a vida.

Salvo os muito pacatos ou aqueles que têm a sorte (ou o azar) de a vida ter saído exatamente como planejaram, a maioria de nós tem duas opções quando pega o caminho errado ou quando a estrada se modifica abruptamente: ou bem recalcula rota, ou fica parado. Assim como a gente se agonia enquanto a moça simpática faz novas contas pra nos levar onde gostaríamos, é a ansiedade na vida, quando ela exige de nós uma revisão de percurso.

Quando olho para os meus sonhos e planos da juventude, vejo que nada saiu como eu planejei. A vida me impôs um recálculo dramático de rota nos últimos anos.  Sem saber a que recorrer, fui olhar para infância na tentativa de enxergar o que realmente era importante pra mim. Um endereço a ser digitado para que a moça gentil do meu GPS mental pudesse calcular um novo percurso.

Correr mundo, ser escritora, ter uma vida cheia de gente – eram as três coisas que eu queria na vida.  Aos doze anos, decidi que queria ser diplomata, mas a doença do meu pai alguns anos depois colocou meu GPS para trabalhar pela primeira vez, sem que eu eu percebesse. No ano seguinte, passei no vestibular para medicina. Demorei muito tempo pra perceber que a minha pouca paciência com rapapés me tornaria inábil para o mundo sutil da diplomacia. E hoje provavelmente eu estaria reclamando da vida em algum escritório do Itamary, frustrada. É um defeito mortal no mundo em que eu queria viver.

Dois anos atrás eu sofri um acidente e quase morri. Metida num jaleco verde e deitada num maca na emergência de um hospital em que ninguém me conhecia, eu me vi obrigada a fazer uma nova correção de rota. Não me tornei uma pessoa melhor (gostaria de dizer isso, mas não é verdade), não cuido mais da minha saúde (minha família gostaria de me ouvir dizer isso, mas também não é verdade). Mas entendi que pode não haver tempo para correções suaves de rumo.

Criei coragem para mostrar a cara escrevendo.  Lancei um livro e o  www.deusmelivreserbege.com tem um ano em meio e mais de dez mil acessos. Ainda não ganhei um centavo com isso, mas a minha vida ficou mais divertida.  Comprei uma ampulheta com areia rosa choque que fica à minha vista, em casa, enquanto tento escrever meu primeiro romance. Pra me lembrar que pode não haver tempo para correções suaves  na trajetória e que eu preciso fazer escolhas

Ontem colei um adesivo amarelo de mapa-mundi na minha parede de casa, cor de beterraba. Pra não me esquecer que economizar é fundamental.  Ainda não vi o Rei Tut (quase um amigo, afinal, foi ele que me fez perceber que o mundo era grande, aos dez anos), não sentei na frente do Príncipe dos Lírios, não vi a serpente emplumada. Mas já tomei cachaça num bar pouco recomendado pra turistas no Pelourinho, dancei na rua numa parada de São Patrício em New Orleans,  vi a Nefertiti.

Encher a minha vida de gente foi o melhor de tudo.  Abrir meus braços para pessoas muito diferentes de mim e escrever trouxeram mais amigos do que eu poderia imaginar. E agora, terminando de escrever essa crônica, me dei conta que talvez a minha vida esteja como deveria estar: bagunçada, colorida, cheia gente. Nada está em seu lugar e tudo pode (e vai) piorar qualquer hora dessas em que eu errar o caminho ou a estrada mudar. Espero ter aprendido que recalcular rota não dói tanto assim.

Obs: Em homenagem à minha amiga que amanhã chega no destino desejado depois de um recálculo de rota que levou cinco anos.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *