Os amores geográficos

 

 

pelelepew

É quase lei que os amores eternos são os mais breves. Foi mais ou menos isso que o poeta uruguaio Mario Benedetti disse – a tradução é minha. E esse verso sempre me comove. Meus amores eternos me emocionam, às vezes até me doem. Alguns deles me fazem rir. Sou um animal andarilho,  uma cruza de tropeiro com bandeirante. Sofro de amores geográficos.

Pra mim os amores breves são de três tipos. Aqueles em que a gente toma um pé na bunda cedo demais (os que mais causam estrago na vaidade e o ego), aqueles em que o objeto de amor morre tragicamente (os mais dolorosos) e aqueles que a geografia apartou (os mais caros).  Entendo alguma coisa dos três, mas quero falar desse último.

A geografia é um troço bonito e ingrato, ao mesmo tempo. Bonito porque preserva o encanto intocado nesses amores, sem permitir a corrosão pela rotina e o tempo. Ingrato porque essa beleza faz com que a gente revisite essas histórias de tempos em tempos e seja tomado pela nostalgia. Faz com que esses amores pareçam melhores que os outros. Talvez isso os faça inesquecíveis.

Era frio. Era a cripta de uma igreja anglicana, era Londres, era jazz, era muçulmano. Elogiou minhas mãos e entregou seu cartão de visitas. Médico como eu, a conversa fluiu. De coração dolorido com final abrupto do meu casamento só percebi o que estava acontecendo quando ele disse que queria me levar para Paris. O tempo parou. Lembrei de Casablanca. Na cena seguinte um bandonion enchia de tango um cantinho da Trafalgar Square e eu flutuei de mãos dados com um desconhecido pelas ruas decoradas para o Natal. Durou trinta e seis horas. Até eu pegar o vôo para Porto Alegre.

Três meses depois, voltei para vê-lo. As coisas não foram as mesmas. Nem eu era a mesma naquela época de mudanças frenéticas. Era mais frio e eu andei pelas ruas de Londres desiludida e só. A sensação de flutuar perdida para sempre. Me permiti um dia de dor-de-cotovelo, apenas (as libras esterlinas me obrigaram a ser tremendamente objetiva). Entrei em um pub, sentei no balcão, pedi um Dry Martini. Pouco tempo depois, um novo convite para ser levada para Paris, muito parecido com o anterior. Num instante, tudo fez sentido.

 Quero te levar para Paris é uma cantada barata pra turistas em férias na Europa. Descobri que existe uma variante, quero te levar pra Veneza, quando a conversa gira em torno de culinária.  A menção a Paris não significa nada, como não significam as coisas ditas na maioria das cantadas. Servem para agradar o ego da gente, apenas. E gente finge que acredita – se estiver gostando. Um jogo. Acho que foi ali que decidi que não levaria a minha da vida amorosa a sério. Foi uma das melhores decisões que eu já tomei.

 

2 opiniões sobre “Os amores geográficos”

  1. Ahh los amores eternos… siempre contradictos

    ♫♫
    Y morirme contigo si te matas
    Y matarme contigo si te mueres
    Porque el amor cuando no muere mata
    Porque amores que matan nunca mueren
    (Sabina, J)

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