Sobre ideogramas, moda japa e blogueiras feias

 

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Eu não posso enxergar um ideograma. Tenho um tatuado na pele. Da vitrine, os risquinhos orientais me atraíram como uma força gravitacional. Entrei na loja, mesmo sabendo que ali um vestido custa o preço do meu rim direito. Muito cetim, desenhos que remetiam ao Japão, mas os ideogramas eram poucos. As estampas eram lindas e mas os cortes eram esquisitos, aquele tipo de falta de estrutura que só fica bem em mulheres magras feito cabides. O gerente purpurinava pela loja enquanto a vendedora tentava me convencer a provar algo. Lá pelas tantas ele resolveu me achar.

– Quero te mostrar algo que é a tua cara.

Tenho medo dessa frase, a peça que me mostram me diz que eu tenho cara de louca ou de burra. Eu estava vestindo preto e botas de caubói. O que haveria na coleção japa parecido com o que eu estava usando?

– Olha só, é lindo!

Ele segurava a peça em um cabide com o braço estendido, alto do chão. O tecido era preto e  vaporoso, com umas poucas flores esbranquiçadas aqui e acolá. A saia era longa e ficava mais larga em baixo. Uma coisa meio baiana-gótica. A estampa ficaria bem na minha avó e olhe lá.

– Olha, não é bem o meu estilo…

– Vai ficar ótimo em ti, experimenta!

– Eu não uso saia longa.

– Mas essa é linda, usa!

– Com um quadril do tamanho do meu? Nem pensar!

Todos os vendedores balançaram o pescoço em sinal de negativa, como se o que estivesse dizendo fosse uma rematada bobagem.

– Linda, esse tipo de roupa corta o quadril todo! As clientes que nem tu adoram!

Nos minutos seguintes, ele me repetiu a mesma frase três vezes e me ocorreu perguntar pra que existia cirurgia plástica, se aquela a saia da baiana gótica cortava praticamente todo o quadril. O homem insistia.

– Mas as gordinhas usam, vou te mostrar um foto da blogueira que esteve aqui nessa semana.

Até fiquei curiosa. O homem trouxe um I Pad, mostrado com orgulho. Eu nunca tinha visto a tal mulher na vida. A cor do cabelo não combinava com o tom da pele. E saia de baiana gótica na baixinha, atarracada e sem cintura chegou a me despertar uma certa pena.

– Então? Vamos provar?

Perdi a paciência.

– Olha, tu vai me desculpar. Eu achei muito feio.

Ele me olhou como se eu fosse uma coitada. Continuei.

. Reforçou a opinião que eu tenho a respeito de saias longas em mulheres baixinhas tamanho GG. Parecem ensacadas. No caso, um saco de batatas.

O homem largou do meu pé e eu saí da loja, irritada com tanta insistência. Caras ou baratas, as lojas costumam subestimar a inteligência feminina na tentativa de fazê-las comprar qualquer porcaria. Em seguida pensei na blogueira que despertou minha pena. Talvez a única diferença entre nós as duas seja que ela ganha pra pagar mico. Faço isso de graça, com a minha falta de tino comercial.

 

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