Bukowski, Exupéry e a tática da depreciação

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Era tarde quando o telefone fixo tocou. Era Anajara, aquela minha amiga que está sempre preocupada com o amor.

– As pessoas precisam ler Bukowski direito. Estão lendo o Velho como quem lê Exupéry.

Anajara vive me dando sugestões para crônicas, às vezes desenvolve uma teoria inteira, que eu me limito a transcrever. Como todo o fã, ela se considera íntima do Velho,  quase  como se fosse um tio doidão. Ainda que eu tenha certeza que o Hank pertence à minha família, não estava entendendo onde ela queria chegar. A ideia me parecia estranha.

Segundo ela, os homens nesses tempos de sexo fácil e inúmeras opções, liam Bukowski com o mesmo fervor que as misses  ou os sentimentais de outrora liam Exupéry à procura de conforto. Era engraçado e até fazia algum sentido.  Eu já tinha visto gente citar o Hank quase em transe religioso. Anajara não parava de falar.

– Eu até entendo que os homens se fascinem e tenho pra mim que os mais fracos da cabeça não entendem direito. O cara está lá em casa, sujo, sem banho, bêbado de cerveja. Aparece uma loira ou uma ruiva peituda querendo dar para ele. Tem quem leia e ache que a vida dele era sempre desse jeito, ou até que essa vida existia.

Anajara não é de filosofar sobre o sentindo da vida. Nem perde tempo com assuntos que não se originaram de alguma vivência sua. Devia haver algo novo, que tinha provocado aquela reflexão sobre o sexo oposto. Depois de algum tempo tagarelando sobre as pessoas “não lerem o Velho direito”, ela finalmente me contou. Tinha arranjado um hater, aquele tipo de pessoa disposta a encher a paciência dela em todos os posts. O que um hater teria a ver com Bukowski e Exupéry.?

– Lá pelas tantas ele me chamou de burra, que eu não sabia escrever e me recomendou que lesse o Velho!

Eu continuava sem entender o que uma coisa tinha a ver com outra

– Ele não parava de teclar. Ora me avacalhava, ora dava em cima. É a tática da depreciação.

Peguei uma caneta pra registrar as ideias.

– Tinha jeito de ser um desses caras que se separou já maduro. Aí pegou umas mulé, maltratou alguns corações femininos e com esse currículo mínimo já acha que tem carteirinha de cafajeste. Fica se achando. Aí resolve ler Bukowski, mas entende tudo errado.

Toda a mulher conhece a tática da depreciação. Tipos como esse que ela descrevia não são raros. Finalmente, a teoria fazia algum sentido.

– O cara deve pensar assim: olha esse escritor aí. Ogro, tosco, sujo, andando de cueca pela sala, bêbado como um gambá. Avacalhava as mulheres e elas ainda davam pra ele. O cara fica com a ideia que o Velho pegava bem por causa tática da depreciação.

Desliguei o telefone e fiquei pensando no assunto. Uma das coisas que me surpreendeu no primeiro livro dele que eu li foi a quantidade de mulheres com autoestima baixa pra encarar depreciação, falta de banho e alcoolismo, partindo do pressuposto que parte das histórias não tinha sido inventada. Sinto muito, amigo, talvez eu destrua suas ilusões, mas parte das histórias pode ter sido apenas inventada,  O nome disso é autoficção, um gênero literário.

Uma vez conheci uma musa de pintor gaúcho, uma mulher simples e de pouca instrução  que caiu nas graças de um artista. Não me ocorre de ter visto aquele brilho no olhar de outra mulher. Talvez inspirar um grande artista seja mais sublime que sentir-se amada. Talvez por isso, as mulheres suportassem a depreciação do Velho Hank.  Também por isso, na imensa maioria das vezes depreciação provoca o que deveria provocar: revide.

 

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