A pensão é minha mesmo.

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Doutora, aquele creme vaginal que a senhora me deu da outra vez, posso usar?

Dona Amália tem sessenta e poucos anos. Há dez anos retirei uma parte do seu colo do útero por causa uma lesão pré-maligna. A cirurgia é tecnicamente é muito simples e ela se recuperou muito bem. Ainda assim, ela me tem em alta conta e fala daquele evento como se tivesse sido uma cirurgia de risco, potencialmente fatal. As pessoas são do tamanho dos seus medos e os médicos são do tamanho dos medos dos seus pacientes.

– A vagina está ressecada?

– Sim

— Está doendo?

— Um pouco.

– Está de namorado novo?

Dona Amália era divorciada, um casamento infeliz e até onde me constava, não tinha nenhum relacionamento. Ela sorriu.

– Fiquei com vergonha de lhe dizer isso na outra consulta. Estou namorando sim, ele me pediu em casamento, acho que vou até casar. Faz quatro anos que temo nessa.

– Isso é ótimo, Dona Amália. Amor faz bem pra saúde.

Ela baixou a cabeça.

– Eu queria saber sua opinião do meu casamento.

Nesses anos de ginecologia já me pediram opinião de tudo. De casar, de descasar, de namorar, de não namorar, de transar sem compromisso, mudar a cor do cabelo, colocar silicone, o diabo. As mulheres fazem perguntas pouco afeitas às suas doenças para o ginecologista quase como se fosse um oráculo.

– Então me conte. Vamos ver se posso ajudar.

– É que ele é vinte anos mais novo que eu, Doutora. Quando a gente tem dinheiro, eu estou sem dor a minha filha está bem a gente sai pra dançar. Ele faz declaração de amor, me  cuida, faz o serviço da casa quando eu estou doente. Ele é pedreiro e entrega todo o salário na minha mão. Quem administra sou eu. Faz mais de ano que quer casar, eu tinha vergonha.

Fosse o contrário, ninguém acharia estranho e não haveria vergonha e sim elogios à pretensa virilidade do homem que casaria com uma mulher mais jovem. Dona Amália me dizia isso com um sorriso de satisfação.

– E eu penso que se eu casar com ele , o Jurandir herda minha pensão quando eu morrer. As pessoas dizem que eu estou louca.

– Não entendi, Dona Amália

– Me dizem que se ele ficar com a minha pensão vai gastar o dinheiro com as outras. Eu não me importo o que ele vai fazer com o meu dinheiro quando eu morrer. Ele que gaste com quem quiser. Meus filhos não podem ficar com a pensão porque são dimaior. Ele me trata muito bem e me faz feliz. Por que eu devia deixar minha pensão para o governo?

– Se a senhora se separar, ele perde o direito a pensão?

– Perde. Já me informei.

– Eu não deixaria de fazer algo que me deixasse feliz.

Ela sorriu.

– Ele é só no mundo, Doutora. Depois que a mãe adotiva dele morreu, eu pressionei o meu sogro pra dar alguma pista de onde estaria a mãe verdadeira. Sabe que eu descobri a mãe dele e os irmãos?  A mãe dele “dava” todos os filhos, cada um tem um sobrenome. Achei todos. A mãe dele morreu, mas os irmãos vem para o nosso casamento.

Dona Amélia não queria minha opinião. Apenas queria que eu dissesse que tudo estava bem. O casamento já tinha até data. Naquelas situações em que tudo pode dar muito errado é difícil opinar. Qual seria o melhor conselho? Anos fazendo psicoterapia, aprendi que desde que a gente entenda as motivações dos próprios atos e esteja preparados para as consequências, pode fazer o que tem vontade.

Ela parecia ter uma visão clara das consequências da decisão e um plano de divórcio, caso fosse necessário. Aparentemente, lidava bem coma ideia de que o futuro marido usufruiria da sua pensão sem ela. Possivelmente com outra mulher.

As motivações dos atos são a matéria de trabalho dos terapeutas, mas eu arriscaria apostar qual seria a motivação de Dona Amália ao casar-se. Sentiu-se amada e cuidada. Um homem apresentou-lhe amor e ela retribuiu gratidão.

Sensível às histórias de amor, depois que Dona Amália saiu eu me perguntei se o amor nos deixa particularmente generosos. Dos amores da minha vida e dos casais apaixonados de que me lembrei, a fase de encantamento parece ser salpicada de atos generosos aqui e acolá. Uma das maneiras pelas quais as pessoas percebemos o amor é quando vemos a generosidade do outro. Alguns só conseguem manifestá-lo concretamente.

Dona Amália vai casar com um homem bem mais jovem. Pode ser a melhor ou a pior decisão da sua vida. Como quem assiste ao primeiro capítulo de uma série em que simpatizei com a personagem principal, torço pelo final feliz.

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