As coisas que não são guardadas

beggar2 (1)23:45 e eu vinha de boas pela rua voltando pra casa e um morador de rua que aparenta uns vinte e poucos anos me parou, falando com uma voz empostada de locutor de rádio AM.
– Madrinha, eu não sou ladrão. Consegue um trocado?
Com pressa, comecei a mexer na bolsa procurando uns trocados. Não era uma situação exatamente segura. Ele pareceu ler meus pensamentos.
– Madrinha, vou ficar aqui mais longe pra tu ficar à vontade pra procurar.
Bolsa, cheia, eu não conseguia catar todas as moedas que queria. Discretamente, comecei a observá-lo. Não estava desnutrido, tão sujo ou mal vestido quanto os mendigos há tempo na rua. Já vivi o suficiente pra ver outra grande crise com desemprego em massa e sempre morei nos bairros boêmios. Meses depois da crise atingir seu auge, pessoas como ele vão parar na rua. Não entendo nada de economia, mas sei quando os indicadores pioram. A população de rua aumenta, simples assim. Ele estava de costas e virou-se:
– Com todo o respeito, madrinha. A senhora é um mulherão.
O que um homem como ele não faria se fosse vendedor? Eu teria comprado um carro, um apartamento.
Enchi a mão de moedas, ele abriu a mão e eu as entreguei. Eu já estava de costas quando virou.
– Madrinha, tem uma coisa aqui que é sua.
Ele abriu a mão cheia de moedas e eu vi a minúscula embalagem rosa. Era um absorvente interno. Sempre acho mais fácil gargalhar que morrer de vergonha, mas meu desconforto era visível.
– Esquenta não, madrinha. Ninguém viu.
Continuei meu caminho em mais um capítulo da saga “passo vergonha porque minhas coisas nunca estão lugar onde deveriam. “

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