A Bela e a Fera

Profanity-Pop-Disney-Art

E aí eu entrei no elevador e uma menininha usava um vestido amarelo de princesa. Estava eufórica, dançando.
– Hoje é festa à fantasia na escolinha!
– E a tua fantasia é de qual princesa?
– É a Bela! – respondeu a pequena, desapontada.
Nunca fui muito boa nesse negócio de princesas. Gostava da Cinderela, mas acho que era por causa do baile. Na escolinha eu gostava de brincar de índio. Desde o dia daquele ano em que Rastros de Ódio passou na TV, eu finalmente pude integrar a tribo indígena, depois de uma longa discussão com o Cacique. Apesar da cara feia dos demais, ele era uma liderança inconteste do lado B da turma. O Chefe autorizou, virei índia.
Mas não era disso que eu estava falando. Desde criança, eu achava que a vida da Bela só não era pior que a da Rapunzel, a presidiária de quem puxavam os cabelos. Aliás, só me apercebi que a Bela era uma princesa com o novo desenho. Em pequena eu achava que ela era mais um caso de cárcere privado com as tintas sinistras de um monstro como companhia. Alguém que finalmente se conformava com a falta de opções. Opa! De repente me dei conta que a Bela não era muito diferente de uma mulher final da balada para quem a contragosto é apresentada uma única opção. São 3hs da manhã, sacumé…
Pela primeira vez na vida, olhei para a personagem com simpatia. Mais ou menos como uma companheira de infortúnio. Atire a primeira pedra a primeira mulher que não fez como a Bela num momento de carência.
A lembrança de um ou dois momentos em que me comportei como a personagem me fizeram rir sozinha de manhã cedinho, num dia em que tinha acordado com o humor da Madrasta da Branca de Neve. Talvez a geração da menininha de vestido de cetim amarelo seja mais preparada para um mundo em que os sonhos continuam, mas príncipes não existem, nenhuma de nós tem jeito pra princesa e nós nos entendemos com o sexo oposto (ou com o mesmo sexo) do jeito que dá. Ponto final.
 

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