Todos os post de lucampos202

Sou médica ginecologista e trabalho exclusivamente no SUS. Há três anos comecei a trabalhar num Serviço de Dor e Cuidados Paliativos, que atende pacientes com dor ou pacientes com câncer sem chance de cura. Escrevo para me divertir, às vezes para me aliviar. Às vezes também escrevo para não ficar maluca. Alguns erros são propositais, outros não. Obrigada pela visita

“Doença pegada”

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— Doutora, “isso” (líquen escleroso) não é “doença ruim” (câncer)?

— Não Dona Maria, o  problema que a senhora tem na pele não é nem “doença ruim”, nem “doença pegada” pelo sexo.

— Deus que me perdoe doutora! Minha irmã sente a mesma coisa que eu e disse que é “doença pegada.” Sou viúva desde 95 e agora sonho que estou brigando com ele. E o pobre até me deixou uma pensãozinha…

TPM e chocolate

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Paro na tabacaria quase ao lado da minha casa para comprar um  bombom. “Serumano”que me atende diz que não tem e me alcança um folder: “Aproveito a oportunidade para divulgar meu novo negócio na Cidade Baixa.” Leio o folder de divulgação de shakes emagrecedores. Dois pensamentos me ocorrem imediatamente: 1) Esse animal não tem amor à vida, oferecendo shakes emagrecedores para uma mulher na TPM, com fome e  em busca de chocolate. 2) Se ele continuar oferecendo shakes emagrecedores para quem entra na loja para comprar chocolate, o “novo negócio” vai ser um   retumbante fracasso.

(publicado no Facebook em 05 de fevereiro d e 2013)

Dona Frida entra na moda

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Dona Frida, 93 anos, chegou a consulta rindo, acompanhada da filha. Eu a operei há 3 anos. Ela é lúcida, cozinha e faz bolos. Me contou que fez aniversário na  semana passada. Mora sozinha e as filhas providenciaram uma cuidadora  recentemente. Disse que tinha algo para me contar, naquela mistuar de português  com alemão que alguns idosos falam no interior do Rio Grande do Sul. “Doutora, a moça que me cuida disse que não estar depilada é fora de moda. E me depilou toda para vir à consulta.” E sorriu, com carinha de criança sapeca. Eu expliquei que não havia indicação médica para a depilação. E que a depilação completa inclusive poderia deixar a região desprotegida. Dona Maria leva minhas orientações muito a sério, mas dessa vez ela sequer me ouviu. Ela estava naquele estado em que a cabeça fica leve e auto-confiança atinge o seu máximo. Impossível convencer uma mulher que está se sentindo “na moda” do que quer que seja. Não é todo o dia em que uma mulher se sente assim.

(postado no Facebook em 18/09/2013)

Bege, eu?

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Deve haver algum círculo específico do inferno para mulheres consumistas que compram coisas que não gostam – sabendo disso. A “Serumano” aqui chega na loja estressada, cansada e na TPM. Tudoaomesmotempoagora. E sai com uma sacolinha com um scarpin bege. Bege, eu? Cruzes!

(postado originalmente no Facebook em 06/11/2013)

Hey! Ho!

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Mulher com mais de 60 anos caminhando pelos corredores do hospital. Quase sem sombrancelhas pela quimioterapia, vestida de preto. Caminhava altiva, incomum. De longe me chamou a atenção o lenço preto na cabeça, para esconder a falta de cabelos, amarrado como um lenço de pirata.  Um pouco mais perto, pude ver a estampa da camiseta dos Ramones, grande para ela, provavelmente emagrecida pela doença. Bem de perto vi que ela usava batom. A doença derrubou os cabelos, mas não derrubou o espírito. Hey! Ho! Let´s go! (publicado no Facebook em 11/11/2013)

Astrologia

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Agosto me faz pensar sobre resiliência. É frio, desafia meu comodismo. Vezenquando testa meus limites também. Há 4 anos meu casamento terminou abruptamente, no início de agosto. Levei cartão vermelho sem levar um amarelo antes. Achei que ia morrer. Na verdade, eu não sabia o que era quase morrer até então. Há exatamente um ano atrás, minha família me levou para a emergência de um hospital após um acidente. Na sala vermelha do hospital eu lembrei da saída dele de casa e tive vontade de rir. Correndo risco de vida, sem diagnóstico, confusa e esperando o médico que assumiria meu caso – aquilo sim era quase morrer. Apavorada, deitada numa maca eu pensava por que diabos eu tinha que mudar de lado? Camisola de paciente ao invés de jaleco? Socorro! A frivolidade é um mecanismo de defesa poderoso e eu dizia para os médicos que precisava de três coisas: uma coca-zero, um secador de cabelo e meu estojo de maquiagem, para a diversão dos funcionários da emergência. Eu dizia isso porque não sabia se poderia trabalhar novamente, se teria condições neurológicas. Será que eu poderia voltar a ser médica? Tentava ouvir as discussões dos médicos sobre os casos da emergência e não entendia quase nada. Do meu caso, entendi que era grave, mas tudo era lento demais dentro do meu cérebro. Foram 48 horas até que eu conseguisse pensar claro por algumas horas. De longe, as piores 48 horas da minha vida – tanto que ainda hoje preciso falar nelas. Como era inacreditável que eu tivesse sobrevivido, fui submetida a uma bateria de exames digna de Dr. Gregory House. Virei paciente de seriado médico. As hipóteses diagnósticas mais estranhas foram testadas, apenas para comprovar que eu não tinha nada, apenas tinha sofrido um acidente – daqueles que pouca gente consegue contar a história. Ainda hoje, continuo perplexa. Só me resta ser grata, ganhei uma segunda chance, um segundo aniversário. Antes eu era de Touro. Agora acho que sou de Leão.

Selagem térmica

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Selagem térmica. Um dos milagres do cabelo liso e sem frizz do século XXI. O melhor de tudo, segundo os fabricantes, é que não tem formol. Uma verdadeira dádiva para a auto-estima da “serumano”. Quando o produto está evaporando sob a chapinha ou escova eu estranhamente sou assaltada por recordações juvenis. Tenho a sensação que estou caminhado pelo subsolo da faculdade, com o meu avental branco e o estojinho de dissecção ma mão para mais uma aula prática de anatomia. Até sinto falta do nosso camarada Hulk, o cadáver acometido por um fungo verde na pele. Aí não sei se as lágrimas que me vêm aos olhos são por causa do produto da selagem – que não é formol, diga-se de passagem – ou se são saudade de um tempo em que eu era feliz e não sabia.

 (postado no Facebook em 12/08/2013)

A elasticidade do tempo

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Comecei a ler o prontuário e a história de Dona Ana não diferia das histórias que leio todos os dias. 68 anos, câncer de intestino, cheia de metástases. Sintomas sendo progressivamente controlados e uma família relutante em aceitar a alta hospitalar. A assistente social me contou parte da história: 8 filhos, marido, ela não usava drogas e nem bebia. “Não sei porque a família não quer levá-la, Doutora. A única que vem aqui é uma sobrinha, que está aqui agora.”

Encontrei dona Jane ajudando a dar banho na paciente, já confusa, com uma sonda no nariz para drenar o conteúdo estomacal. Conversei com ela em separado, perguntando qual dos filhos a receberia, em caso de alta. “Nenhum deles doutora, são tudo nervoso e sempre arranjam desculpa pra não ver a tia.” Perguntei o motivo de tanto “nervosismo” ela mudou de assunto. “Só pra senhora ter ideia, uma filha da tia Ana morreu a pouco, aqui no hospital. E quem vai cuidar do funeral sou eu.” A mulher minha frente falava disso com naturalidade, sem aparentemente reprovar a família ausente, ou com superioridade por assumir o cuidado de uma mãe que não era a sua.

“A alta seria pra quando, doutora?” Ela interrompeu minha divagação sobre o assunto. Respondi que provavelmente seria no início da próxima semana. “Nesse caso, eu levo ela pra casa. Quando a gente quer doutora, acha tempo. Eu cuido do meu irmão que faz hemodiálise e do meu marido que está na fila do transplante de fígado.” Conforme ela ia falando eu me sentia pequena, cada vez menor. E meus problemas, insignificantes. A naturalidade com que ela falava, sem aparentar afetação ou vitimização, me deixava mais curiosa. Perguntei sua idade. “49, doutora.” Para uma mulher sem acesso à tecnologia, ela estava muito bem. Disse que ela era uma mulher corajosa. “Nem é isso doutora, é que eu acredito no amor. Quando a gente ama, acha um tempo pra tudo.” Me chamaram para ver uma paciente e eu interrompi a conversa. Passei o dia pensando no amor e no tempo. No amor e na elasticidade do tempo.