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A Bela e a Fera

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E aí eu entrei no elevador e uma menininha usava um vestido amarelo de princesa. Estava eufórica, dançando.
– Hoje é festa à fantasia na escolinha!
– E a tua fantasia é de qual princesa?
– É a Bela! – respondeu a pequena, desapontada.
Nunca fui muito boa nesse negócio de princesas. Gostava da Cinderela, mas acho que era por causa do baile. Na escolinha eu gostava de brincar de índio. Desde o dia daquele ano em que Rastros de Ódio passou na TV, eu finalmente pude integrar a tribo indígena, depois de uma longa discussão com o Cacique. Apesar da cara feia dos demais, ele era uma liderança inconteste do lado B da turma. O Chefe autorizou, virei índia.
Mas não era disso que eu estava falando. Desde criança, eu achava que a vida da Bela só não era pior que a da Rapunzel, a presidiária de quem puxavam os cabelos. Aliás, só me apercebi que a Bela era uma princesa com o novo desenho. Em pequena eu achava que ela era mais um caso de cárcere privado com as tintas sinistras de um monstro como companhia. Alguém que finalmente se conformava com a falta de opções. Opa! De repente me dei conta que a Bela não era muito diferente de uma mulher final da balada para quem a contragosto é apresentada uma única opção. São 3hs da manhã, sacumé…
Pela primeira vez na vida, olhei para a personagem com simpatia. Mais ou menos como uma companheira de infortúnio. Atire a primeira pedra a primeira mulher que não fez como a Bela num momento de carência.
A lembrança de um ou dois momentos em que me comportei como a personagem me fizeram rir sozinha de manhã cedinho, num dia em que tinha acordado com o humor da Madrasta da Branca de Neve. Talvez a geração da menininha de vestido de cetim amarelo seja mais preparada para um mundo em que os sonhos continuam, mas príncipes não existem, nenhuma de nós tem jeito pra princesa e nós nos entendemos com o sexo oposto (ou com o mesmo sexo) do jeito que dá. Ponto final.
 

Bukowski, Exupéry e a tática da depreciação

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Era tarde quando o telefone fixo tocou. Era Anajara, aquela minha amiga que está sempre preocupada com o amor.

– As pessoas precisam ler Bukowski direito. Estão lendo o Velho como quem lê Exupéry.

Anajara vive me dando sugestões para crônicas, às vezes desenvolve uma teoria inteira, que eu me limito a transcrever. Como todo o fã, ela se considera íntima do Velho,  quase  como se fosse um tio doidão. Ainda que eu tenha certeza que o Hank pertence à minha família, não estava entendendo onde ela queria chegar. A ideia me parecia estranha.

Segundo ela, os homens nesses tempos de sexo fácil e inúmeras opções, liam Bukowski com o mesmo fervor que as misses  ou os sentimentais de outrora liam Exupéry à procura de conforto. Era engraçado e até fazia algum sentido.  Eu já tinha visto gente citar o Hank quase em transe religioso. Anajara não parava de falar.

– Eu até entendo que os homens se fascinem e tenho pra mim que os mais fracos da cabeça não entendem direito. O cara está lá em casa, sujo, sem banho, bêbado de cerveja. Aparece uma loira ou uma ruiva peituda querendo dar para ele. Tem quem leia e ache que a vida dele era sempre desse jeito, ou até que essa vida existia.

Anajara não é de filosofar sobre o sentindo da vida. Nem perde tempo com assuntos que não se originaram de alguma vivência sua. Devia haver algo novo, que tinha provocado aquela reflexão sobre o sexo oposto. Depois de algum tempo tagarelando sobre as pessoas “não lerem o Velho direito”, ela finalmente me contou. Tinha arranjado um hater, aquele tipo de pessoa disposta a encher a paciência dela em todos os posts. O que um hater teria a ver com Bukowski e Exupéry.?

– Lá pelas tantas ele me chamou de burra, que eu não sabia escrever e me recomendou que lesse o Velho!

Eu continuava sem entender o que uma coisa tinha a ver com outra

– Ele não parava de teclar. Ora me avacalhava, ora dava em cima. É a tática da depreciação.

Peguei uma caneta pra registrar as ideias.

– Tinha jeito de ser um desses caras que se separou já maduro. Aí pegou umas mulé, maltratou alguns corações femininos e com esse currículo mínimo já acha que tem carteirinha de cafajeste. Fica se achando. Aí resolve ler Bukowski, mas entende tudo errado.

Toda a mulher conhece a tática da depreciação. Tipos como esse que ela descrevia não são raros. Finalmente, a teoria fazia algum sentido.

– O cara deve pensar assim: olha esse escritor aí. Ogro, tosco, sujo, andando de cueca pela sala, bêbado como um gambá. Avacalhava as mulheres e elas ainda davam pra ele. O cara fica com a ideia que o Velho pegava bem por causa tática da depreciação.

Desliguei o telefone e fiquei pensando no assunto. Uma das coisas que me surpreendeu no primeiro livro dele que eu li foi a quantidade de mulheres com autoestima baixa pra encarar depreciação, falta de banho e alcoolismo, partindo do pressuposto que parte das histórias não tinha sido inventada. Sinto muito, amigo, talvez eu destrua suas ilusões, mas parte das histórias pode ter sido apenas inventada,  O nome disso é autoficção, um gênero literário.

Uma vez conheci uma musa de pintor gaúcho, uma mulher simples e de pouca instrução  que caiu nas graças de um artista. Não me ocorre de ter visto aquele brilho no olhar de outra mulher. Talvez inspirar um grande artista seja mais sublime que sentir-se amada. Talvez por isso, as mulheres suportassem a depreciação do Velho Hank.  Também por isso, na imensa maioria das vezes depreciação provoca o que deveria provocar: revide.

 

Oito considerações sobre etiqueta no mundo virtual

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E aí minha amiga Anajara me ligou tarde da noite. Com quase quarenta anos, ela é de um tempo em que a gente telefonava para o único telefone que existia, o fixo. Está sempre preocupada com amor.  (Sobre clitóris, memes e pókemons e  O Fetiche da Vírgula) Tinha mais uma história pra contar.

– Minha pegada visualizou a mensagem e não respondeu? O que ele está pensando? Isso é falta de educação.

Aprendi com ela, a pegada é mais ou menos a mesma coisa que ficante. Algo sem compromisso. Alguém para quem a gente pode chamar em um momento de carência, solidão ou split estragado no inverno. Anajara não gostou da minha opinião. Acho que as pessoas respondem mensagens quando puderem. A vida vira um inferno com tanto controle. Ficou mais brava.

– E tem mais: Ele nunca se despede, me deixa falando sozinha.

Sou um animal antigo, da época que Kurt Cobain era vivo. Desconfio que isso me torne incapacitada para entender certas coisa, entre elas a (falta de) etiqueta do mundo virtual. O próprio fato de eu pensar em etiqueta, que remete aos livros de boas maneiras revela o quanto eu estou despreparada para ele. Já fiquei muito ofendida com isso. Até entender que essa regra não existe. A gente aparece, desaparece. Reaparece. É assim mesmo. Ouvindo Come as you are, concluo que não estou entendendo nada.

Era tarde, eu estava cansada, mas Anajara queria papo:

– Dia  desses um serumano me adicionou  no Facebook. Um cara que eu nunca tinha visto na vida. Aceitei e ele escreveu bem vinda. Acho isso tão esquisito.

Ando invocada com isso também. Se eu não fui ao encontro daquela pessoa, por que me dar boas vindas? Mais estranho ainda quando a proximidade é desejada pelo outro. Como não sei o que responder, não respondo nada. Dia desses eu passei por uma situação semelhante. Aí o serumano perguntou.

– Não gostou que eu te mandei um convite de amizade?

E era pra eu gostar? Se eu não gostei, era de se perguntar? Eu deveria ter reagido de alguma forma? Ouvindo Lithium, não consigo entender qual era a resposta definida no protocolo. Novamente, respondi com silêncio. Veio a terceira pergunta.

– Por que tu não fala nada?

– Porque respondo perguntas objetivas, como essa última. É a primeira vez que alguém pergunta se gostei de ter sido adicionada.

Ao que o indivíduo respondeu.

– É a primeira vez que ninguém me escreve nada quando eu digo bem vinda.

Quase senti a indignação do outro lado. Desisti de continuar o colóquio. Levando em conta a estranheza do diálogo, tentei fazer algumas considerações.

Consideração um: ele deve estar certo. Sou um animal estranho, com dificuldade para entender as regras do diálogo virtual;

Consideração dois: talvez as boas vindas não façam sentido e o indivíduo se irritou por ter ouvido isso;

Consideração três: vai ver no dia todo mundo combinou é pra dizer “obrigada” para o estranho desejo de boas vindas, eu estava distraída (como de costume) e não entendi o que era pra fazer;

Consideração quatro: vai ver ele estava querendo me xavecar e eu não estava colaborando;

Consideração cinco: estar afastada do trabalho por conta de uma cirurgia  (tudo está indo muito bem, mas está sendo um exercício de paciência) está me deixando com tempo demais pra pensar bobagem – porque não fico trabalhando apenas no meu livro novo ou vou ler algo que preste?

Consideração seis: a dieta low carb está me deixando impaciente.

Consideração sete: não me pergunte se estou na TPM. Lembre da minha dieta low carb. Contrariar um animal faminto na TPM pode ser perigoso.

Consideração oito: a paquera no Facebook consegue provocar diálogos mais estranhos que aqueles dos aplicativos de relacionamento. Lá, ao menos as intenções são claras

Consideração nove (extra): quando a gente esta sem assunto, escrever uma lista de qualquer coisa (considerações, inclusive) é um ótimo recurso pra escrever uma crônica. Se o seu site favorito vive de postar listas, eles não devem saber como escrever uma crônica de outro jeito.

 

O Fetiche da Vírgula

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Prezado amigo. Quer se dar bem com o sexo oposto? Ser irresistível? Esqueça a barriga tanquinho que cerveja não lhe permite adquirir. Aprenda a usar a vírgula. O novo Don Juan, o sedutor do século XXI, além de ir para a academia necessariamente precisa manjar dos paranauê da gramática. Nos Estados Unidos, trinta por cento dos casamentos no ano passado iniciaram com contatos na internet. Se a sua paquera pela internet vai mal, amigo, o problema talvez esteja na forma como escreve.

Uma vez que a primeira abordagem é escrita, aqueles habilidosos com as palavras levarão vantagem em relação aos outros. Pouco adianta aquela barriga trabalhada se nas primeiras frases o candidato trocar o S pelo Z. “Oi princeza!”. Erros ortográficos grosseiros podem transformar a mulher mais disposta ao amor numa bruxa enlouquecida na TPM. Um dia a medicina ou a psicologia irão estudara influência da ortografia na libido feminina.

A primeira vez que me apaixonei em tempos internéticos, foi por um adorável canalha, habilidoso com as mãos e as vírgulas.  Não falo em um domínio estrito das orações coordenadas e subordinadas, mas de um domínio intuitivo do ritmo da língua portuguesa. Findado o romance e curando a dor-de-cotovelo, aprendi nos meses seguintes sobre as regras amorosas do século XXI e, confesso, senti mais falta das vírgulas que das mãos.

Segundo Anajara, aquela minha amiga que vive preocupada com o amor Sobre clitóris, memes e pokémons o problema é mais sério que entender-se com o sinuoso sinal ortográfico. Dia desses ela me ligou:

– Estou traumatizada.

Perguntei o que tinha havido.

– Engatei um papo com um cara que me adicionou no Facebook, três frases e eu já tinha me arrependido. Disse que não queria mais falar com ele. Continuou insistindo. Repeti que não queria. Aí ele escreveu. “não gosta de mim, pode mim bloquear”

Ela fez uma pausa dramática.

– Foi pior que se ele tivesse me mandando a foto da piroca que eu não tinha pedido pra ver.

Politicamente incorreto? Pois é, quer troço mais politicamente incorreto que libido? Sua própria existência desafia o ordenamento do mundo. A gente gosta do que atiça. Já ouvi inúmeras histórias de mulheres que desistiram (com pesar) de conversar com um homem bonito porque a quantidade de erros de português esfriou o papo. Os memes estão por aí.  Pra mim, um texto com vírgulas bem colocadas é quase fetiche – desde que o indivíduo não esqueça dos “Rs” no final dos verbos. Do outro lado o problema também existe: amigo meu desistiu de conversar com uma guria, ansiosa demais pelo primeiro encontro, quando ela sugeriu lá pelas tantas. “Quem sabe se vemos na Redenção?”

Pensando em escrever sobre o assunto, fui conversar novamente com Anajara, talvez ela me ajudasse a organizar as ideias. Aparentemente já tinha superado o trauma, pois me contou que tinha um novo crush. Ela me ajudou pouco, porque já estava metida numa nova reflexão. Embora considerasse minha ideia um bom tema pra crônica, ela recomendou muitíssimo que me ocupasse de temas mais urgentes e incompreensíveis do mundo virtual, como escrever sobre a mania que alguns homens têm de mandar fotos da própria piroca. Sensibilizada com o apelo, anotei a sugestão.

O galanteio

 

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Cena1: É domingo e eu entro no edifício onde moro. O elevador chega. Ela abre a porta e sorri: Primeiro as damas. Retribuí o sorriso e entrei. Trocou comigo duas ou três palavras afáveis antes de descer no segundo andar. Morando na Cidade Baixa, estou habituada a cantadas de ambos os sexos, mas não entendi bem o que ela queria com aquela gentileza. Cena2: Amiga minha me contou que um colega de trabalho que chegava das férias elogiou sua pele.

Em nenhum dos dois casos quem fez o elogio tinha qualquer intenção de levar a coisa adiante. Essa é a diferença entre galanteio e e cantada. Às vezes a cantada também não tem uma intenção específica, mas é mais direta e descarada, ao passo que o galanteio se caracteriza pela elegância e gentileza. O que move, então o galanteador?

Talvez o galanteio seja um fim em si mesmo e faça muito bem a quem tem o hábito de fazê-los, já que é algo dado generosamente. Puxando pela memória, percebi que os homens mais galantes que eu conheci têm excelente autoestima. Para o galanteador do mesmo sexo, talvez funcione também como uma forma afirmação da identidade sexual. Algo como: não estou jogando agora porque não quero, mas tenho condições de estar no jogo quanto qualquer um.

Longe de mim fazer apologia aos tempos em que ser mulher era mais difícil, mas tenho que confessar: sou capaz de me derreter com um galanteio bem feito. Tenho medo que relações virtuais, as inúmeras possibilidades e nossa pressa estejam ameaçando a gentileza de extinção.

Aos galanteadores, meu apelo. Insistam. Às galanteadoras, repito o apelo. Insistam, mesmo sob o risco de rechaço. Em tempos de selfies curtidos de qualquer jeito e elogios virtuais a belezas inexistentes, acho que precisamos mesmo é do agrado genuíno, aquele que nos torna únicos. Pra mim, esses instantes trazem beleza à vida, e a beleza anda rara.

Portanto, amigo ou amiga, ao receber a pequenina joia que é um galanteio num dia cinza, agradeça, se a timidez não impedir. Sobretudo sorria. É possível que um sorriso salve da extinção o galanteio derradeiro, aquele que seria último.

Sobre clitóris, memes e pokémons

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Dia desses postei um meme que vi não-sei-onde. “ Quem sabe encontrar clitóris, não perde tempo procurando pokemon.” Muitas curtidas, vários compartilhamentos, convites de amizade. Mensagens inbox dos constrangidos em curtir o post publicamente. Concluí que crônicas são um atrativo fraco atrativo perto de memes de duplo sentido. Até pensei em largar tudo fazer outra coisa da vida, me alistar na Legião Estrangeira ou me converter à religião da batata doce, mas tive preguiça. Juntar os documentos para o alistamento ou sair pra comprar batatas me pareceram demasiado esforço. Sem contar que eu ainda teria fazer a inscrição ou ir pra cozinha.

Já que ganhei mais curtidas que em posts sobre bichinhos abandonados, George Clooney ou xingamentos para a Dilma, concluí que as pessoas estão mais interessadas em encontrar clitóris que em qualquer outro assunto. Resolvi continuar lutando da minha trincheira de cronista-blogueira desconhecida, dessa vez munida de novas armas. Fui conversar com a minha amiga Anajara, a pessoa mais preocupada com assuntos de amor e sexo que eu conheço.

Segundo ela, parece que as pessoas perderam o mapa de localização desse órgão feminino e não sabem mais onde fica. As regras rígidas do Facebook para abordar temas sexuais me impedem de ser específica e nem eu pretendo ofender os espíritos mais sensíveis. Mas diria que encontrá-lo é mais ou menos como saber a senha de acesso a um lugar misterioso. Dá para entrar sem senha,  mas a estadia e os tesouros oferecidos são infinitamente mais generosos para aqueles que dominam o código.

Estranhou a conversa, amigo conhecedor da anatomia feminina? Saiba que em tempos de internet, relações líquidas e Pokemons, a dedicação para mapear o caminho está cada vez menor, segundo Anajara. Para o amigo que se sente completamente perdido no terreno desconhecido, esclareço. Não adianta procurar no Google ou usar bússola. Não perca seu precioso tempo na Wikipedia. Cada território precisa ser mapeado centímetro a centímetro, sem pressa. Ou preguiça.

 

Aos que têm certeza absoluta que dominam qualquer mapa, uma ressalva. Às vezes sabem tão pouco quanto os assumidamente perdidos e dispostos a receber algum auxílio objetivo.  E pra terminar, o último comentário da minha amiga Anajara: tenha em mente que a região é pequena e a sensibilidade é muito maior que a do equivalente masculino. Clitóris não é campainha. Não é pra sair apertando.

 

 

 

A Doutora Juliana e o Gajo

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E aí eu sentei na livraria para tomar um café e olhar o povo.  Era sábado. Mesinha de rua, na esquina. Serumano me aborda:
– A Senhora é a Doutora Juliana?
Passar mais de 12 horas todos dos dias sendo chamada de doutora me deixaram adestrada, meio feito cachorro. Se ouço “doutora” na rua, tenho o ímpeto de achar que é comigo. Respondo mais por adestramento que por empáfia. Não lembrava de conhecê-lo, mas anos no SUS tornaram impossível que eu me lembre de todos os rostos. Achei que ele me conhecia e tinha trocado meu nome.
– Doutora Luciana – respondi meio constrangida – não gosto de lascar meu nome de guerra em ambientes informais.
O homem me olhava inseguro, parecia não ter certeza se eu era a pessoa que ele estava esperando. Na pergunta seguinte eu percebi um leve sotaque português, com jeito de quem morava no Brasil há tempos.
– A senhora veio aqui encontrar-se com um escritor?
Não sei como é pra vocês, mas sempre acho esquisito quando me confundem com alguém e o enredo da história poderia ser o meu. Por um instante, sempre parece que eu estou vivendo alguma vida paralela que nem eu sabia, desconhecida de mim mesma. Voltando a história. Não era bem isso que eu queria falar.
Agora, ele parecia visivelmente nervoso.
– Acho que o senhor está me confundindo.
Uns minutos sem saber o que fazer, o Gajo afastou-se. Com o canto dos olhos fiquei observando. Ansioso, o Gajo esperou pela Doutora Juliana por mais  uns vinte minutos e foi embora cabisbaixo.  A Doutora Juliana deu o cano no Gajo, que era bem apessoado. Fiquei com pena. Mas a selva virtual é assim mesmo. O nervosismo, a abordagem, a forma como esperava  me saltavam aos olhos: Tinder. O enredo era típico.
(Não que eu tenha qualquer conhecimento prático sobre o aplicativo. Meu interesse é meramente científico e estabeleço essas ilações baseada exclusivamente nas informações obtida com amigos )

Texto-clichê: afinal, o amor está no ar.

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Amigo leitor, quantos dias dos namorados estão nítidos na sua memória?  Na minha são cinco. Os outros, embaralhados pelo tempo, mesmo aqueles de coração repleto e feliz. Lembro particularmente do Dia dos Namorados no ano em que descobri o amor. Lembro também de outro, anos depois, quando descobri que o amor eterno acaba. Era o fim do meu mundo como eu o conhecia e eu não me sentia bem – contradizendo o poeta. Quem saiu da minha vida levou a chave consigo e me deixou trancada do lado de fora.

Tempos depois abri a primeira garrafa de espumante sem ajuda masculina e a bebi sozinha, num Dia dos Namorados. Sensação de independência total. Finalmente eu tinha conseguido trocar a fechadura da porta do meu mundo e entrei nele para reformá-lo. Prometi nunca mais entregar a chave da porta para o outro, no máximo uma cópia.  Despejo e sensação de relento, nunca mais.

A gente muda o que pensa sobre passado com o passar dos anos e hoje acho que as comemorações do dia dos namorados mais intensas eu tive com meus amigos. O primeiro deles, na época da faculdade, celebrei num karaokê com meus amigos, cantando músicas do Rei Roberto. “Quero ser a  coisa boa, liberada ou proibida/ tudo em sua vida.” A segunda foi ano passado. “Dia dos namorados com as minhas namoradas”. Foi assim que um  amigo querido e seu marido reuniram as amigas para lhes dar afeto.  Ele não disse, mas acho que resolveu simplificar a própria vida, uma vez que todas nós telefonaríamos para chorar os desamores e as pitangas.

Naquela noite entendi que o meu coração não estava vazio. O amor pelos amigos é algo parecido pelo amor que a gente tem pelos irmãos. Os amigos são a família que a gente escolhe e eu vejo os meus como a construção de uma família genuína, continuidade da minha. Uma reserva de amor, lealdade, aceitação.

O encontro amoroso de almas é dádiva rara que a vida nos oferece – quando oferece.  Em tempos de liberdade sexual irrestrita e opções quase infinitas, até os encontros de corpos não são frequentes.  Acho que um encontro de corpos genuíno, intenso, é cheio de beleza e merece ser celebrado.  No mais das vezes esbarramos, desatentos, nos corpos uns dos outros por algumas noites.

Talvez a melhor forma de encarar o dia dos namorados seja vê-lo como um dia para celebrar  os encontro que a vida propicia. O meu vai ser comemorado com meus amigos, no pub favorito – o nosso pub. Eu me recuso a deixar de dizer “Eu te amo” num dia feito para celebrar o amor e nesse ano meu amor vai ser todo deles. Pra todo mundo que está aí, casado, solteiro, amante, enrolado, ficante, peguete, o que seja, um feliz Dia dos Namorados. E que não nos faltem encontros cheios de beleza vida afora.

 

 

Supermercado II

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Sempre me divirto com a criatividade dos aplicativos de relacionamento. Existem aplicativos para achar namorado, ficante, parceiro sexual. Existem até aplicativos para quem gosta de homem barbudo, por exemplo. Dia desses eu descobri um aplicativo no qual a mulher é tratada como cliente e o homem como mercadoria. Os homens estão em ligeira desvantagem. As mulheres podem mandar mensagens sem a concordância dos homens. Eles não.

Na primeira impressão parece que os homens realmente são apresentados como mercadorias – ou como candidatos a emprego. As clientes têm uma lista de compras na qual podem especificar itens que procuram num determinado produto. Dá escolher cor de cabelo, homem que goste de cozinhar, que entenda de mecânica, que saiba dançar (item opcional de poucos modelos, infelizmente). Mas continua ainda sendo um supermercado desorganizado. http://deusmelivreserbege.com/2015/09/24/supermercado/ De cara, já sabia com o que encabeçaria minha lista. Tem que ser bem humorado. Não consigo gostar de um homem se não consigo rir com ele. De preferência, deve gostar das minhas piadas, mesmo as sem graça.Cadastro feito, comecei a navegação. ”Fulano lhe enviou solicitação de contato.” Eu poderia aceitar ou não para ver o que acontecia. Aceitando, o chat de abriu pra conversa. Desclassifiquei o candidato logo depois. Impaciente demais por um primeiro encontro. Não gosto disso, pode até ser perigoso. Há quem mergulhe de cabeça no papel de homem-objeto, O perfil mais divertido que eu li foi um em que o indivíduo se apresentava como um carro 78, quase sem uso, praticamente única dona.

Criatividade à parte, o cara pode se definir como freelancer (pega mais não se apega), estagiário (pra ver no que dá) e carteira assinada (quer romance).  Na verdade quase todo mundo é freelancer. Me diverti um bocado com um sujeito que se apresentou como freelancer e disponível para adoção. Depois de dizer que não queria papo, ele tentou me convencer que eu não tinha entendido direito a proposta. Lá pelas tantas ele perdeu a paciência e me disse que o que ele realmente queria uma mulher disponível (agenda livre pra ele, sem restrições), geograficamente próxima (o que era o caso) e que nunca em momento algum reclamasse ou cobrasse nada. Sugeri uma boneca inflável.

Aí me dei conta que poderia pedir reserva da mercadoria. Reserva, na bucha. O serumano que aceita reserva não consegue conversar com outra mulher no chat do aplicativo durante 24 horas. Eu teria exclusividade na entrevista. Em se tratando do mundo virtual, 24 horas é quase a eternidade, principalmente num sábado. Eu, se  fosse homem, não aceitaria reserva. Ou talvez aceitasse, é o tipo da coisa que pode aumentar a popularidade.

Ato contínuo, me dei conta que o aplicativo me mostrava as rivais. Hã? Deu vontade de sair correndo. Em seguida lembrei de uma amiga que conversava com um boy americano. Um dia ela descobriu que ele também conversava com a prima dela. O sobrenome das duas não deixava dúvidas, ele sabia disso. As rivais estão ali só pra evitar que duas amigas conversem com o mesmo cara. Às vezes o mundo virtual parece assustadoramente pequeno. A gente encontra pessoas que conhece no mundo real. E às vezes, pessoas que a gente conhece bem. Encontrar um colega de trabalho num aplicativo desses é esquisito, muito esquisito. Ao menos eu acho.
Os homens são tratados como mercadoria, mas as mulheres também. Eles também fazem uma lista de compras no seu perfil, com os opcionais desejados. Dá pra procurar por cor do cabelo, tamanho, tipo de corpo, estilo e uma série de outros opcionais – alguns bem ousados, inclusive – bem mais ousados que os opcionais masculinos, que incluem um inocente cueca boxer como opcional de fábrica.
No fundo mesmo o jogo é sempre o mesmo, só é mais bem humorado. Os aplicativos tem regras exclusivas do mundo virtual e mais aquelas do mundo real. O mais impressionante é que tem gente que não se dá conta. E se irrita, xinga, faz o diabo. A proteção da tela do computador não aumenta as chances de conhecer alguém que não daria bola pra gente na vida real. E essa regra é clara, não importa onde a gente esteja jogando o jogo da aproximação.

To be or not to be (nude)

 

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Na selva amorosa do século XXI mandar ou não mandar nudes é um dilema que se impõe As pessoas trocam fotos nuas, via de regra sem o rosto, mesmo quando ainda não se conhecem pessoalmente, ou talvez até porque não tenham nenhuma intenção de se conhecer. Sou uma mulher prática. Nunca vi muito sentido em posar nua de graça. Sempre foi um trabalho muito bem pago. Pelo menos até aqui.

               Na semana, a Playboy americana anunciou que não publicará mais fotos de mulheres nuas. Segundo seus editores, o nu na revista perdeu o sentido devido a enorme quantidade de conteúdo erótico que as pessoas trocam em seus smartphones. Erotismo passou a ser gratuito e fartamente disponível. E as pessoas comuns substituíram as modelos esculturais.

    Progressivamente, serviços gratuitos oferecidos pela internet foram substituindo serviços que tinham um custo no mundo real. A tiragem dos jornais só tem feito diminuir. Mas isso é apenas uma das razões. Tenho pra mim que a troca de conteúdo erótico entre pessoas que se conhecem talvez estimule mais a sensação de proibido, pecaminoso e de risco, mexe com a libido. Isso se a criatura tem um mínimo de domínio da linguagem erótica. Amiga minha me contou que ficou profundamente decepcionada ao receber uma foto de um boy (muito bonito) que ela curtia no mundo virtual. Ele estava pelado e de havaianas. Não foi exatamente uma imagem sexy. Ao menos não para ela. Poderia ter sido até pior se ele estivesse de boné. Pra mim seria.

     Aparentemente, a decisão da Playboy marca o fim de uma era. Aquela em que o nu feminino era ansiosamente aguardado, mês a mês e uma mulher exuberante e famosa ocupava o imaginário masculino. A escritora Anais Nin dizia que o erotismo é uma forma de auto-conhecimento como qualquer outra. A necessidade de expressão existe, do contrário as pessoas não correriam o risco de exposição, que pode ter sequelas psicológicas devastadoras. A tecnologia permitiu que as coelhinhas esculturais fossem milhares de mulheres anônimas. Todos os tipos de corpos e idades. Infinitamente mais democrático. Alguém faz a foto e em algum lugar do mundo alguém a vê. É um fenômeno atual. Tão atual quanto a necessidade que outros têm escrever um texto, sobre qualquer assunto e espalhá-lo na blogsfera, com o objetivo que alguém o leia. E goste.