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Texto-clichê: afinal, o amor está no ar.

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Amigo leitor, quantos dias dos namorados estão nítidos na sua memória?  Na minha são cinco. Os outros, embaralhados pelo tempo, mesmo aqueles de coração repleto e feliz. Lembro particularmente do Dia dos Namorados no ano em que descobri o amor. Lembro também de outro, anos depois, quando descobri que o amor eterno acaba. Era o fim do meu mundo como eu o conhecia e eu não me sentia bem – contradizendo o poeta. Quem saiu da minha vida levou a chave consigo e me deixou trancada do lado de fora.

Tempos depois abri a primeira garrafa de espumante sem ajuda masculina e a bebi sozinha, num Dia dos Namorados. Sensação de independência total. Finalmente eu tinha conseguido trocar a fechadura da porta do meu mundo e entrei nele para reformá-lo. Prometi nunca mais entregar a chave da porta para o outro, no máximo uma cópia.  Despejo e sensação de relento, nunca mais.

A gente muda o que pensa sobre passado com o passar dos anos e hoje acho que as comemorações do dia dos namorados mais intensas eu tive com meus amigos. O primeiro deles, na época da faculdade, celebrei num karaokê com meus amigos, cantando músicas do Rei Roberto. “Quero ser a  coisa boa, liberada ou proibida/ tudo em sua vida.” A segunda foi ano passado. “Dia dos namorados com as minhas namoradas”. Foi assim que um  amigo querido e seu marido reuniram as amigas para lhes dar afeto.  Ele não disse, mas acho que resolveu simplificar a própria vida, uma vez que todas nós telefonaríamos para chorar os desamores e as pitangas.

Naquela noite entendi que o meu coração não estava vazio. O amor pelos amigos é algo parecido pelo amor que a gente tem pelos irmãos. Os amigos são a família que a gente escolhe e eu vejo os meus como a construção de uma família genuína, continuidade da minha. Uma reserva de amor, lealdade, aceitação.

O encontro amoroso de almas é dádiva rara que a vida nos oferece – quando oferece.  Em tempos de liberdade sexual irrestrita e opções quase infinitas, até os encontros de corpos não são frequentes.  Acho que um encontro de corpos genuíno, intenso, é cheio de beleza e merece ser celebrado.  No mais das vezes esbarramos, desatentos, nos corpos uns dos outros por algumas noites.

Talvez a melhor forma de encarar o dia dos namorados seja vê-lo como um dia para celebrar  os encontro que a vida propicia. O meu vai ser comemorado com meus amigos, no pub favorito – o nosso pub. Eu me recuso a deixar de dizer “Eu te amo” num dia feito para celebrar o amor e nesse ano meu amor vai ser todo deles. Pra todo mundo que está aí, casado, solteiro, amante, enrolado, ficante, peguete, o que seja, um feliz Dia dos Namorados. E que não nos faltem encontros cheios de beleza vida afora.

 

 

O triângulo amoroso

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Era um bar desses de mileniais, onde cada um faz o que quer e ama quem quer. Onde o amor é líquido e gente que amar de maneira sólida só encontra diversão se não se levar a sério. Em se tratando de amor, há muito tempo decidi que a seriedade deveria ficar no passado. A música na pista era excelente, a festa corria solta. Às vezes fico apenas olhando a festa acontecer, sem entrar nela. A forma como a nossa espécie dança a dança da aproximação (ou a dança do acasalamento, se preferirem) me intriga, sempre. No meio da muvuca, o trio chamou minha atenção. Entraram de mãos dadas, em fila indiana.

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Os amores de Dona Aurélia

Eros e Psiquê - Museu do Louvre
Eros e Psiquê – Museu do Louvre

Dona Aurélia, 81 anos é minha paciente há 5.  Lúcida, falante e bem educada. A cada consulta traz uma novidade.
– Ando pensando em casar novamente Doutora. Mas sou uma mulher exigente: tem que ser bonito, mais novo e ter todos os dentes na boca – todos seus, prótese nunca fica bem. Sabia que eu já dispensei vários pretendentes de posses porque não tinham todos os dentes? Homem desdentado não dá.

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As outras coisas do amor

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Joana entrou no consultório sorridente como de costume, cabelos vermelhos cacheados pelos ombros, desgrenhados.  costume.  Uma mulher com maternidade à flor da pele. Fala pausada, baixa, tranquila, acolhedora.  Há quatro anos teve um câncer de colo uterino. O tumor era grande, não havia possibilidade de cirurgia e ela foi encaminhada para a radioterapia. Durante o tratamento, o seu único  temor era não poder criar os cinco filhos.  Chorava em todas as consultas.

Hoje ela tem a alegria das pessoas que são gratas por estarem vivas, apesar dos problemas que a radioterapia deixou.  No final da última consulta, veio uma pergunta:

–  Doutora, que quero muito perguntar uma coisa, tenho vergonha, mas a senhora é minha médica e é única pessoa desse mundo para quem eu posso perguntar.

Incentivei  Joana a continuar falando.

– Como a senhora sabe, eu não consigo mais fazer amor com o meu marido como antes. Nós estemo junto há vinte e dois anos e nós se amemo muito. E nós precisemo se amar, a gente se quer muito bem. Então a gente faz as outras coisas do amor.

Joana baixou a cabeça, mais um pouco constrangida e continuou:

– Eu queria saber se eu posso fazer essas coisas, se não vai me fazer mal pra saúde por causa da doença que eu tive.

Fiz duas ou três perguntas para entender exatamente de outras coisas do amor ela estava falando. Depois continuei:

– Joana, tudo pode em termos de amor sexo – se os dois estejam gostando, tudo pode.

Joana sorriu, satisfeita. Dei algumas orientações técnicas sobre o assunto.  Joana sabia de todas elas. Na verdade, só queria assegurar-se que estava tudo bem. Alguém deve ter dito que ela não deveria fazer as outras coisas do amor. Solicitei os exames de rotina e agendei consulta seguinte.

Parei pra tomar um café. Às vezes eu preciso parar para digerir as coisas que ouço, ouvir o ritmo, apreciar a beleza. Posso perder a vida que está nelas. Seria bem mais simples se o corpo não fosse fragmentado e o amor fosse visto como Joana vê:  afeto e sexo juntos, misturados, complementares. Lamentei ter tanta coisa para fazer. Era tema pra pensar uma tarde inteira. Joana é poeta e não sabe.

Fernanda aprende a dizer não

Broken heart
Broken heart

Abaixo o prontuário de Fernanda, com alguma licença poética,

Consulta1: Fernanda chegou à consulta cabisbaixa, triste. Trazia nas mãos uma nota de alta. Internação por dor abdominal, vários exames, sem diagnóstico. Diarista, trabalha muito, tem dor há mais de 3 anos, desde o nascimento do segundo filho. A dor piorou há três meses. Estava com um marido novo. Anotei as informações, examinei, mas parecia que havia mais no silêncio do que nas palavras dela. Perguntei se não havia algo que tivesse desencadeado a dor. Ela disse que não. Perguntei se não tinha acontecido nada de novo e se ela estava feliz com esse casamento.

– Eu me apaixonei perdidamente por uma mulher doutora, antes eu só tinha tido homens na minha vida. Fomos morar juntas, minha família quase me enlouqueceu. E ela era canalha, vivia tendo outras. Terminei tudo. Aí arranjei um namorado e ele se meteu na minha casa. Eu não queria casar, nem voltar a lavar cuecas.

– E a mulher por quem tu te apaixonaste?

– Vive me pedindo pra voltar, mas eu não quero fazer isso. Ela não presta.

Dei as orientações, prescrevi as medicações e pedi exames. Mais do que qualquer coisa, ali me parecia ter a dor de um coração partido. Remarquei uma consulta para 30 dias.

Consulta2: Fernanda volta um pouco melhor, parecia menos ansiosa, talvez resultado das medicações. Continuava casada, mas não estava mais lavando cuecas. Reduziu um pouco ritmo do trabalho e estava dormindo melhor, coisas fundamentais para pacientes que têm dor crônica. Parecia mais confiante. Falou um pouco da sua vida. A ex-companheira continuava insistindo pela retomada do relacionamento. Ao encerrar a consulta, parecia que ali ainda tinha um coração partido. Mas também eu tinha uma outra impressão:

– Das várias coisas que tu me contaste, Fernanda, me parece que tu tens muita dificuldade em dizer não. Aprender a dizer sim para as coisas que a gente quer é importante, mas dizer não para as coisas que a gente não quer é mais ainda.
Mantive as mesmas medicações e remarquei a consulta seguinte para dali três meses.

Consulta3: Fernanda retorna aparentando tranquilidade, usando maquiagem, cabelo cuidado. As medicações pareciam estar surtindo efeito, enfim. Disse que estava com pouca dor, dormindo bem, tinha conseguido retomar o ritmo de trabalho anterior. Financeiramente as coisas estavam melhores. Tinha dispensado o marido. E estava tentando dizer não para os familiares.

– E a tua ex-companheira?

Pela primeira vez , vi um sorriso largo:

– Voltei pra ela, doutora. E ela está comportada. E eu estou feliz. E minha família não gosta, paciência.

Remarquei a consulta seguinte para dali seis meses. Tem vezes que a gente não sabe se o que dói é o corpo ou a alma.

Romance I

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Fui a enfermaria para atender uma intercorrência. Problema resolvido, não pude deixar de observar a cena. Braços dados, os dois caminhavam pelo corredor. Ele falava baixinho, cochichando no ouvido dela. E ela, cabeça baixa, parecia gostar do que ouvia. E sorria. Ela devia ter uns 10 anos a mais que ele e usava camisola do hospital. Ele acompanhava outra uma paciente. A cena era bonita, comovente, dolorosa. Meus pensamentos foram interrompidos por Sandra, técnica de enfermagem,- Viu o chamego, Doutora?, Faz mais de semana que estão assim.

Ela tinha câncer de pulmão e tinha retirado uma metástase da coluna uns dez dias antes. O passeio acontecia com o pretexto de ajudá-la a caminhar. A família pouco vinha visitá-la, uma filha ausenta, nunca entendemos o motivo. Ele estava acompanhando a mãe no final vida, para quem estávamos oferecendo apenas medidas de conforto. E estava visivelmente devastado.

– Isso é romance, Sandra? (perguntei, supresa, querendo saber mais da história incomum)

– Só a senhora que não percebeu, doutora. A gente já sabe disso faz dias.

– Ela comentou alguma coisa?

– A senhora sabe que ela é uma mulher que fala pouco. Mas anda com um sorriso largo desde que isso começou

Às vezes as pessoas se apaixonam no meio da dor. Para ela, que tinha uma expectativa de vida de poucos meses, era a melhor coisa que poderia ter acontecido. Para ele, nem tanto. Depois da perda da mãe teria que lidar com a perda da namorada. Aliás, quem disse que ela era namorada? Eu estava supondo, criando um rótulo. Mania essa minha, de dar nome para o amor e o sexo. Lembrei do verso do músico Lenine. “A vida é tão rara”. O amor é ainda mais raro. Tive pena dele, por alguns minutos. Depois me ocorreu que não fazia a menor diferença o que iria acontecer no outro dia. Se a mãe dele iria morrer, se a paciente iria morrer. Para os dois, parecia não ter nenhuma importância. E no fim das contas, a gente nunca sabe o que vai ser amanhã – quem vai morrer primeiro, posso até ser eu. O dia pra todos nós é o dia de hoje.

A mãe dele morreu no dia seguinte. Uns três meses depois, um dia lembrei da paciente. Pedi à enfermeira da equipe que telefonasse para a vizinha dela, que era o nosso contato e cuidava da paciente eventualmente. Dona Alda tinha morrido há poucos dias, sozinha. Até onde a vizinha sabia, Dona Alda nunca recebeu visitas depois que teve alta do hospital.

A elasticidade do tempo

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Comecei a ler o prontuário e a história de Dona Ana não diferia das histórias que leio todos os dias. 68 anos, câncer de intestino, cheia de metástases. Sintomas sendo progressivamente controlados e uma família relutante em aceitar a alta hospitalar. A assistente social me contou parte da história: 8 filhos, marido, ela não usava drogas e nem bebia. “Não sei porque a família não quer levá-la, Doutora. A única que vem aqui é uma sobrinha, que está aqui agora.”

Encontrei dona Jane ajudando a dar banho na paciente, já confusa, com uma sonda no nariz para drenar o conteúdo estomacal. Conversei com ela em separado, perguntando qual dos filhos a receberia, em caso de alta. “Nenhum deles doutora, são tudo nervoso e sempre arranjam desculpa pra não ver a tia.” Perguntei o motivo de tanto “nervosismo” ela mudou de assunto. “Só pra senhora ter ideia, uma filha da tia Ana morreu a pouco, aqui no hospital. E quem vai cuidar do funeral sou eu.” A mulher minha frente falava disso com naturalidade, sem aparentemente reprovar a família ausente, ou com superioridade por assumir o cuidado de uma mãe que não era a sua.

“A alta seria pra quando, doutora?” Ela interrompeu minha divagação sobre o assunto. Respondi que provavelmente seria no início da próxima semana. “Nesse caso, eu levo ela pra casa. Quando a gente quer doutora, acha tempo. Eu cuido do meu irmão que faz hemodiálise e do meu marido que está na fila do transplante de fígado.” Conforme ela ia falando eu me sentia pequena, cada vez menor. E meus problemas, insignificantes. A naturalidade com que ela falava, sem aparentar afetação ou vitimização, me deixava mais curiosa. Perguntei sua idade. “49, doutora.” Para uma mulher sem acesso à tecnologia, ela estava muito bem. Disse que ela era uma mulher corajosa. “Nem é isso doutora, é que eu acredito no amor. Quando a gente ama, acha um tempo pra tudo.” Me chamaram para ver uma paciente e eu interrompi a conversa. Passei o dia pensando no amor e no tempo. No amor e na elasticidade do tempo.