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Com morfina e rock’n’roll and roll

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Por algum motivo aos sábados eu consigo enxergar o que acontece ao redor. Boa parte das crônicas foram de histórias coletadas aos sábados. Quanta vida passa debaixo do meu nariz que eu não consigo ver? Naquele sábado, um adolescente menor de idade saiu da enfermaria acompanhado da família numa cadeira de rodas. Despediu-se dos técnicos alegremente. Nenhum dos técnicos me parecia confortável.

– O que tem o paciente? – perguntei para Samara, a técnica de enfermagem ao meu lado no balcão da enfermaria

– Câncer de testículo. Internou três vezes nesse ano. Na próxima vez vai ser mandado para sua equipe, Doutora e vai morrer aqui. Espero que seja depois das festas de final de ano.

Quanto mais os anos passam eu penso que quem tem cancha na enfermaria é capaz de prever as coisas que a medicina é incapaz de prever. Samara estava realmente triste.

– Deve ser difícil, né? Vocês se apegam, assistem o paciente piorar aos poucos e depois internar na nossa equipe, passam muito mais tempo com eles que a gente.

– É duro. Mas às vezes a gente consegue se despedir. Sabe, eu consegui me despedir da Dona Irene. Lembra dela, Doutora?

Até o porteiro do hospital conhecia Dona Irene. Um câncer de mama avançado e o úmero (o maior osso do braço) estraçalhado pelas metástases. Não havia bloqueio anestésico, morfina, cirurgia, gesso que desse conta da dor. Era muito difícil manter o membro imobilizado. A única saída seria um amputação, discutida pela equipe. Ninguém gosta de indicar uma amputação porque todas as outras medidas falharam. Dona Irene e a filha xingaram todo mundo e se negaram a fazê-la.

Quando a dor piorou Dona Irene finalmente concordou com a cirurgia, foi internada. Aí era tarde. A doença progrediu rápido demais e a cirurgia não pode foi realizada, ela não suportaria. Internada e recebendo com doses de morfina cada vez mais altas, a vida de Dona Irene era melhor que na etapa anterior. Um dos momentos mais difíceis era a hora do banho, em que ela era mobilizada.

– Um dia antes dela morrer eu cheguei: hoje a senhora vai tomar um banhão com morfina e rock’n’roll

Me ajeitei na cadeira. Parecia uma cena de filme. Tinha acontecido na minha enfermaria, aquela em que eu só consigo ver além das coisas aos sábados. O que eu fazia nesse dia?

– Olhei a prescrição e preparei a dose toda: uma ampola e meia de morfina na  veia. Peguei meu celular, coloquei um dos fones no ouvido dela, o outro no meu e apertei play.

– E ela?

– Fechou os olhos e curtiu, oras.

Fez uma pausa, sorrindo.

– Ela morreu no dia seguinte, eu estava de folga. Aí eu entendi que tinha sido minha oportunidade de me despedir.

A cena era boa demais. Eu precisava conta-la.

– Qual era a música?

– Hã?

– O rock, que vocês ouviram?

– Ah, não sei Doutora. Meu filho gravou, não sei direito nome das músicas. Só sei que é “clássico”

– Pelo amor de Deus, Samara! Eu preciso saber qual era a música! Pensa.

– Vou olhar a playlist e perguntar para o meu filho. Se eu ouvir, vou saber o que é.

O que seria um rock clássico? Depende do gosto e da idade. “Satisfaction?” Nada mau. “It’s my life?” Não deveria ser essa. A vida não é a Sessão da Tarde “Hihgway to Hell? Torci para que Dona Irene não soubesse nada de inglês. “Sympathy for the Devil”? Pior ainda.

De todo modo, viver meu último dia recebendo uma dose de morfina suficiente para me deixar confortável e ouvindo rock me pareceu digno. Algo que eu escolheria. e pra mim.

Finalmente Samara voltou trazendo um papel dizendo que poderia ter algum erro porque ela não fala inglês.

Come as you are.

 

 

A pensão é minha mesmo.

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Doutora, aquele creme vaginal que a senhora me deu da outra vez, posso usar?

Dona Amália tem sessenta e poucos anos. Há dez anos retirei uma parte do seu colo do útero por causa uma lesão pré-maligna. A cirurgia é tecnicamente é muito simples e ela se recuperou muito bem. Ainda assim, ela me tem em alta conta e fala daquele evento como se tivesse sido uma cirurgia de risco, potencialmente fatal. As pessoas são do tamanho dos seus medos e os médicos são do tamanho dos medos dos seus pacientes.

– A vagina está ressecada?

– Sim

— Está doendo?

— Um pouco.

– Está de namorado novo?

Dona Amália era divorciada, um casamento infeliz e até onde me constava, não tinha nenhum relacionamento. Ela sorriu.

– Fiquei com vergonha de lhe dizer isso na outra consulta. Estou namorando sim, ele me pediu em casamento, acho que vou até casar. Faz quatro anos que temo nessa.

– Isso é ótimo, Dona Amália. Amor faz bem pra saúde.

Ela baixou a cabeça.

– Eu queria saber sua opinião do meu casamento.

Nesses anos de ginecologia já me pediram opinião de tudo. De casar, de descasar, de namorar, de não namorar, de transar sem compromisso, mudar a cor do cabelo, colocar silicone, o diabo. As mulheres fazem perguntas pouco afeitas às suas doenças para o ginecologista quase como se fosse um oráculo.

– Então me conte. Vamos ver se posso ajudar.

– É que ele é vinte anos mais novo que eu, Doutora. Quando a gente tem dinheiro, eu estou sem dor a minha filha está bem a gente sai pra dançar. Ele faz declaração de amor, me  cuida, faz o serviço da casa quando eu estou doente. Ele é pedreiro e entrega todo o salário na minha mão. Quem administra sou eu. Faz mais de ano que quer casar, eu tinha vergonha.

Fosse o contrário, ninguém acharia estranho e não haveria vergonha e sim elogios à pretensa virilidade do homem que casaria com uma mulher mais jovem. Dona Amália me dizia isso com um sorriso de satisfação.

– E eu penso que se eu casar com ele , o Jurandir herda minha pensão quando eu morrer. As pessoas dizem que eu estou louca.

– Não entendi, Dona Amália

– Me dizem que se ele ficar com a minha pensão vai gastar o dinheiro com as outras. Eu não me importo o que ele vai fazer com o meu dinheiro quando eu morrer. Ele que gaste com quem quiser. Meus filhos não podem ficar com a pensão porque são dimaior. Ele me trata muito bem e me faz feliz. Por que eu devia deixar minha pensão para o governo?

– Se a senhora se separar, ele perde o direito a pensão?

– Perde. Já me informei.

– Eu não deixaria de fazer algo que me deixasse feliz.

Ela sorriu.

– Ele é só no mundo, Doutora. Depois que a mãe adotiva dele morreu, eu pressionei o meu sogro pra dar alguma pista de onde estaria a mãe verdadeira. Sabe que eu descobri a mãe dele e os irmãos?  A mãe dele “dava” todos os filhos, cada um tem um sobrenome. Achei todos. A mãe dele morreu, mas os irmãos vem para o nosso casamento.

Dona Amélia não queria minha opinião. Apenas queria que eu dissesse que tudo estava bem. O casamento já tinha até data. Naquelas situações em que tudo pode dar muito errado é difícil opinar. Qual seria o melhor conselho? Anos fazendo psicoterapia, aprendi que desde que a gente entenda as motivações dos próprios atos e esteja preparados para as consequências, pode fazer o que tem vontade.

Ela parecia ter uma visão clara das consequências da decisão e um plano de divórcio, caso fosse necessário. Aparentemente, lidava bem coma ideia de que o futuro marido usufruiria da sua pensão sem ela. Possivelmente com outra mulher.

As motivações dos atos são a matéria de trabalho dos terapeutas, mas eu arriscaria apostar qual seria a motivação de Dona Amália ao casar-se. Sentiu-se amada e cuidada. Um homem apresentou-lhe amor e ela retribuiu gratidão.

Sensível às histórias de amor, depois que Dona Amália saiu eu me perguntei se o amor nos deixa particularmente generosos. Dos amores da minha vida e dos casais apaixonados de que me lembrei, a fase de encantamento parece ser salpicada de atos generosos aqui e acolá. Uma das maneiras pelas quais as pessoas percebemos o amor é quando vemos a generosidade do outro. Alguns só conseguem manifestá-lo concretamente.

Dona Amália vai casar com um homem bem mais jovem. Pode ser a melhor ou a pior decisão da sua vida. Como quem assiste ao primeiro capítulo de uma série em que simpatizei com a personagem principal, torço pelo final feliz.

Fritura com gosto de casa

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– Doutora, mande colocar em mim aquela sonda grossa que entra pelo nariz e vai até o estômago. Da outra vez, resolveu na hora. Fiquei tão bem que até tentei fugir do hospital.

O homem emagrecido que me dizia isso não parava de vomitar, estendido em uma maca na emergência. Era portador do vírus do HIV e de um câncer de intestino avançado para o qual as medidas terapêuticas já haviam se esgotado.  O tumor estava impedindo a passagem do alimento pelo intestino delgado, por isso ele vomitava. Simpatizei com ele de cara. Tinha um nome bíblico daqueles que tornaria sua identificação muito fácil, por isso vou chamá-lo de José.

Na manhã dia seguinte a sonda drenava o conteúdo estomacal esverdeado em grande quantidade em um frasco no chão. Seu José, enjoado e debilitado, tinha aprontado na enfermaria. Reclamou do banho e do atendimento.

– Eu continuo enjoado. A senhora pretende fazer o que agora?

– Vou ajustar as medicações e pedir mais alguns exames. Também vou aumentar o volume do seu soro pra que o senhor não tenha sede. Quero que fique em jejum completo, não beba nem água. No máximo molhe os lábios com uma gaze, se a boca ficar muito seca.

Fazia um calor dos diabos naqueles dias.

No outro dia havia um novo relato de insubordinação com a enfermagem e uma esposa aflita que me aguardava para uma conversa em separado.

– O José melhorou, mas ele não lhe obedeceu. A senhora acredita que ele passou o dia bebendo água? Chegava a tomar meio copo de uma vez!

Eu disse imaginava que ele faria isso. Ela ficou surpresa.

– Dona Maria, Seu José é um homem teimoso que sabe que vai morrer. Passou a vida inteira se opondo as coisas que os outros diziam. Eu não tinha dúvidas que ele desobedeceria as minhas orientações. É da natureza dele.

– Mas a senhora não ficou brava?

Parte das decisões de final de vida é entender um pouco os valores dos pacientes. Um homem que faz questão de dizer para o médico responsável por ele que tentou fugir na internação anterior e cria problemas todos os dias, provavelmente é alguém que gosta de desobedecer regras.

– Conversei sobre os exames há pouco. A nova tomografia mostrou que as metástases aumentaram muito e por isso o fígado está funcionando mal. Apareceram metástases no pâncreas. Ele tem pouco tempo de vida. Eu não o impediria de fazer o que quer.

Ela fez cara de quem já tinha ideia da gravidade da situação.

– Mas a senhora não acha que ele deveria obedecer, já que está muito mal?

Fiz uma pausa. Às vezes é difícil explicar o que é autonomia.

– Eu imagino que um teimoso se sinta vivo toda a vez desobedece ordens. Deixe ele desobedecê-las, ao menos um pouco. O tempo dele muito curto.

Dois dias depois Seu José estava conseguindo comer as papinhas e as sopinhas do hospital, mas me recebeu de cara fechada.

– O atendimento da noite é muito ruim, Doutora.

Perguntei o que tinha havido.

– Uma técnica mexeu na minha sonda e eu vomitei a noite inteira.

– Tem certeza que foi problema na sonda? Um passarinho me contou que o senhor comeu cueca virada e café com leite lá pelas 22 horas.

Seu José fez cara de ofendido.

– Claro que foi a sonda, né Doutora. Eu sei o que me faz mal e o que não me faz.

Café com leite com cueca virada tem gosto de reunião em família. Sabor de casa e aconchego. Ele tinha clareza do diagnóstico e do seu pouco tempo de vida. Escolheu continuar vomitando e burlando a dieta. Eu não poderia impedi-lo.  As papinhas do hospital só tornariam a digestão mais fácil, mas não iriam fazê-lo viver mais. Seu José seria um transgressor até o final

 

A pitangueira

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– Doutora, eu não quero que o meu marido saiba que não tem mais tratamento.

– E se ele quiser se despedir de alguém, organizar alguma coisa?

– Não quer, que eu sei. Ele não dá bola pra essas coisas, é desligado.

– E se ele me perguntar?

– Não quero que a senhora diga nada, ele vai acreditar naquilo que eu disser.

– A senhora me disse que ele emagreceu trinta quilos. Será mesmo que ele não tem noção da gravidade da doença?

Dona Maura não respondeu e me olhava com cara de poucos amigos. Eu tinha assumido o caso naquele dia. Ela não queria que o marido soubesse da gravidade da situação porque não conseguia aceitá-la. Mas eu ainda tinha coisas mais duras a dizer.

– Inclusive, Dona Maura, as notícias não são boas. Ele piorou de ontem pra cá, os exames estão muito ruins.  Acho bom chamar os filhos e os parentes, para as despedidas.  Existe uma grande possibilidade de óbito nas próximas 24 horas.

Ela reagiu como se o marido fosse um homem sadio e ela estivesse recebendo a má notícia naquele momento. Chorou bastante, disse estar surpresa.  Dona Maura estava negando a gravidade da doença e isso é muito comum.

Três horas mais tarde fui chamada. Ele tinha piorado. Situação temporariamente contornada, Dona Maura falou:

– Doutora, na hora que ele estava pior, me abraçou e disse. “Acho que agora eu vou morrer.”

– A senhora percebeu que ele sabe da gravidade da situação?

Ela fingiu que não me ouviu. O nome desse fenômeno e a Conspiração do Silêncio. A família acha doloroso demais conversar sobre a provável morte do ente querido com ele e decide que não vai falar nada, com a justificativa de preservá-lo. Por outro lado, os pacientes percebem que a família não consegue tolerar o sofrimento da inevitabilidade da morte e se calam, sendo relegados à solidão. Um pacto de silêncio se estabelece. Por que insistimos na quebra desse pacto? Estudos de final de vida demonstraram que as despedidas e tomada de providências são importantes para reduzir o nível de stress do paciente e dos cuidadores. Inclusive, o processo de luto para os que ficam pode ser mais curto.

No dia seguinte o marido estava pior e Dona Maura me encheu de perguntas, tentando arrancar de mim alguma esperança na reversão do quadro, ou que me contradissesse. Reiterei apenas que o quadro era muito grave e o mais importante era oferecer conforto. Ela queria um culpado, uma justificativa, qualquer coisa que não fosse a inevitabilidade da morte – uma coisa que apavora a todos nós.  Ouvi e acolhi, respeitosamente. É o que há para fazer nessas horas. A conversa foi interrompida com a chegada dos quatro irmãos do Seu Juremar, ansiosos por vê-lo. Ele morreu cerca de duas horas depois, acompanhado da irmã e da filha.

A filha me contou que Dona Josalva, a irmã, era pessoa que ele mais gostava, a mais próxima, a mais amiga. Os últimos momentos foram com ela. Dona Josalva era muito parecida com ele e chorava mansinho. Sentei-me para ouvi-la.

– Sabe, Doutora, ele gostava muito de plantar árvores e me deu umas sementes ano passado. Hoje eu peguei da mão dele e disse. “Mano, a pitangueira cresceu. Está grande nesse tanto, a coisa mais linda. “

Uma solução para os problemas conjugais

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–   A senhora sabia, Doutora? A porta do meu barraco não tem tranca, fica encostada. Quando eu ia trabalhar, dizia que se encostassem um dedo nas minhas meninas, eu matava.

Berenice arregalou os olhos. No mundo violento em que vive, assassinatos são comuns. Berenice tem insônia  . Sempre tem uma história nova. Uma delas rendeu inclusive o título do meu livro. o-marido-perdido/    Em seguida, mudou o tom da conversa.

– É que lá no morro todo mundo me respeita…

Fez uma pausa, como se tentasse encadear o que estava contando.

A senhora sabe que eu a coisa andou feia lá em casa? Mês passado quase passei fome. Aí eu pedi um dinheiro para o Luis Carlos. Sabe o Luis Carlos, Doutora?

Não eu não sabia, mas não vinha ao caso. Nas reflexões sobre a vida de Berenice eu sou apenas um ouvido. É daquelas pacientes que consultam porque precisam entender a própria vida.

– O Luis Carlos foi meu marido. Morei com ele depois que fiquei viúva. O nego era bom, me ajudou muito pra criar as meninas. Até hoje é apaixonado por mim.

– E o casamento acabou por quê?

– Tinha um defeito triste…

Esfregou o dedo indicador no polegar.

– Jogo? Caça níqueis?

– Isso. A maquininha aquela. Tinha uma no boteco no pé do morro. Eu achava estranho, porque volta e meia ele voltava sem dinheiro, dizendo que tinha sido  assaltado. Daí eu perguntava para os assaltantes do morro – eu sou amiga de todo mundo, né, a senhora sabe – e me diziam. “Nega, pra esses lados não tá dando assalto, se fosse mais para baixo ou mais para cima…” Um dia, resolvi seguir o Luis Carlos. Vi entrando no bar e comprando as fichas. Pensei uns dois dias o que eu ia fazer. Aí passou “Tropa de Elite” na TV. Resolvi o problema com álcool.

Eu não sabia se podia, me deu vontade de rir. Ponderei que Luis Carlos ainda estava vivo, então não deveria ser tão grave.

Gastei cinco pila numa garrafa de álcool. Mais dois pila num isqueiro do Paraguai.

– Álcool líquido ou gel?

A história era boa demais, eu precisava de todos os detalhes.

– Claro que é líquido, né Doutora? Pensa um pouco! Não assistiu Tropa de Elite?

Assistir, eu tinha assistido. Mas não estava entendendo.

– Cheguei no bar e fui perguntando por ele, dizendo que ia matar. E eu queria, Doutora. Estava louca de raiva. Aí um homem que estava lá, ficou me tirando. “Sai daí que mulher aqui não entra, quero ver tu continuar aqui. Te coloco pra fora.”

Fiquei mais louca ainda. Joguei álcool no chão e atirei o isqueiro em cima da poça maior. Pegou fogo em todas as poças de álcool, Doutora.

Berenice ria, divertida. Eu ri também. A essas alturas a formalidade do jaleco tinha ido para o espaço sideral.

– E o Luiz Carlos?

– Saiu correndo, apavorado. E os outros homens começaram a apagar o fogo.  Eu fui embora, bem calma.

E o que aconteceu depois, Berenice?

– O dono do bar veio me cobrar o prejuízo. Eu disse que não tinha queimado nada, que quem queimou tudo foi o álcool. E que ele tinha sorte de eu não avisar a polícia da maquininha de jogo. O Luiz Carlos me largou, pra todo mundo ele dizia. “Eu amo a Berê, mas a nega é louca”. Por isso a porta do meu barraco não tem tranca, Doutora. Todo mundo me respeita.

Era uma solução criativa para dirimir determinados conflitos conjugais. Mas, aqui entre nós prezada amiga, mesmo que tenha considerado a hipótese por instante (assim como eu), não tente fazer isso em casa. Berenice mora num barraco sem tranca numa das vilas mais violentas da cidade. Consegue ser respeitada ali. Para uma mulher que sobrevive a tiroteios, estourar um isqueiro numa poça de álcool deve ser até lúdico.

Direto do mundo cão

 

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Amigo leitor: o que segue saltou diretamente do mundo cão para o meu consultório no SUS, me esbofeteando a cara. Por isso tomo a liberdade de esbofetear a sua. Pensei muito se deveria publicar essa história. Ela envolve bullying, uma criança, uma mãe, pobreza e desamparo.

Jucinara praticamente pulou para dentro do meu consultório, segurando as mamas. É minha paciente há mais de cinco anos. Nunca a tinha visto desse jeito. Ela é dona de casa e o marido perdeu o emprego por causa da crise. A família veio para a grande Porto Alegre, onde o marido arranjou trabalho.

– Estou morrendo de dor nos peitos, Doutora.

Me disse isso em pé, não quis sentar. Menstruando regularmente, mamografia em dia, nenhuma alteração digna de nota. Apenas uma grande contratura no músculo peitoral – o músculo que fica embaixo da mama.

– Andou fazendo muita faxina, Jussinara? Ou bateu a mama em algum lugar?

– Não.

A pergunta foi suficiente para que as lágrimas escorressem. Me falou que o filho de oito não queria ir para a escola Era um menino tranqüilo, boas notas, alfabetizado. Ninguém na escola estaria ajudando a resolver o problema. Os meninos da quarta série, bem maiores, bateram nele no banheiro. Mais de uma vez.

-Disseram que iam continuar batendo toda a vez que ele fosse no banheiro. Aí ele não quis mais ir pra escola, chegava em casa se urinando, o pobrezinho… Ainda ameaçaram ele com bagaceirice.

– Abusaram do teu filho?

Ela chorava mais ainda.

– Disseram para ele que porque ele era gordo e feio iam tirar a roupa dele e fazer ele de mulherzinha… Ele me disse que não abusaram dele, Doutora, mas como é que eu posso ter certeza?

Protegida pelas ilusões do meu mundo, perguntei.

– Mas tu não falaste com a diretora?

– A diretora disse que isso era impressão, invenção de criança, que não ia acontecer nada. Me mandou resolver o assunto com a mãe dos meninos. Eu ia falar, doutora, mas a minha vizinha disse que eles são gente barra pesada, moram pertinho da minha casa. Fiquei até com medo que pegassem meu menino de vingança.

– Ou teu marido…

– Pensei nisso, Doutora. Por isso fiquei quieta.

Ela chorava. Com as ilusões do meu mundo respirando por aparelhos, mas ainda vivas, arrisquei uma sugestão.

– Tu pensaste em mudá-lo de escola?

– A secretaria de educação disse que só pode mudar ele no próximo ano.

Apesar da morte cerebral das minhas ilusões, arrisquei outra.

– E o Conselho Tutelar?

– Quem garante que o conselho fica do meu lado? É tudo dimenor… Meu menino fica em casa agora, do meu lado. Para vir aqui eu implorei pra minha sogra não sair do lado dele. Ele só fica tranqüilo se eu estou por perto. Isso até eu ir embora.

– Tu tens como sair dali?

– Mas só daqui dois meses. Temo juntando dinheiro pra mudança. Até lá vai ser esse inferno… A senhora me dá remédio pra dormir, Doutora?

Jucinara chorou novamente. Segurei sua mãoaté que parasse de chorar.  Saquei do coldre meu receituário azul e prescrevi os remédios para dormir – a única arma ao meu alcancei para aliviá-la daquela violência. Abracei calorosamente quando me despedi.

Estou engasgada com essa história há vários dias. Tentando entender como suportamos viver num estado de impunidade tal em que é impossível para uma mãe pobre proteger seu filho. São vinte anos de medicina, todos eles no SUS e eu continuo achando que a impunidade é a desgraça original da nossa sociedade. Ainda que quisesse, a diretora da escola pouco poderia ajudar, no descalabro de criminalidade em que o Rio Grande do Sul se transformou nos últimos dez, quinze anos e que piorou agudamente em 2016. Descalabro esse que faz com que a vida gente não valha nada. Se a minha, se a sua vida não vale nada, a dignidade de uma criança pobre da periferia vale menos ainda, sequer merece uma nota de rodapé na estatística da violência.

 

Somos todas iguais

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Berenice é a melhor contadora de histórias que eu conheço.  (leia http://deusmelivreserbege.com/2015/12/21/o-marido-perdido/ e http://deusmelivreserbege.com/2015/12/21/o-marido-perdido/

– Doutora, a senhora sabe a promoção da ótica Silva, lá para os lados de onde eu moro?

Não, eu não sabia.

– Se a pessoa junta cupons de compra no valor de quarenta e oito reais pode trocar por uma armação de óculos. Aí só paga as lentes.

Fiquei me perguntando como funcionava a tal promoção exatamente, mas ela continuou.

–Fiz faxina por todo o morro pra ganhar os cupons dos vizinhos. Lá na ótica a vendedora me disse. “Os que dá para trocar pelos cupons estão aqui nessa parede.” Como é que pode, Doutora, era tudo óculos feio. Eu até disse pra mulher: “Bem que vocês podiam ter escolhido uns óculos melhorzinhos, né?” A gente já não é bonita,  já não enxerga direito, aí coloca esses óculos e fica parecendo um filhotinho de cruz-credo.  Voltei pra casa triste. Aí minha filha me ajudou com um dinheiro pra comprar um óculos melhor. Fiquei até bonitinha.  Neguinho lá na vila vai até notou. A senhora sabe que eu me dou bem, Doutora?  Tenho um bom papo. É tomar uma cerveja comigo, eu passo a conversa e pego mesmo. Vacilou, se distraiu, termina lá no meu barraco. Pego uns bichinho até bonito. Porque homem tem que ser bonito, né?

Como eu iria discordar dos objetivos critérios de Berenice a respeito do sexo oposto? Apesar do oceano de diferenças entre a minha vida e a dela, Berenice me faz pensar o quanto somos parecidas. Sim, os artigos em liquidação são mais feios que os que estão fora dela, e a gente quer os que estão na prateleira ao lado. Sim, é (bem) melhor que o homem seja bonito. Sim, quem tem bom papo leva vantagem no jogo da sedução. E finalmente, independente do bolso ou da coordenada geográfica, em se tratando de amor e sexo, autoconfiança é quase tudo.

As dores compulsórias

 

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Papoula Scarlet-O-Hara

Dona Eudóxia veio à consulta porque estava com dores na vulva. Tinha também um reumatismo, usava várias medicações e tinha feito uma cirurgia na coluna recentemente. Em seguida, fez uma nova hérnia de disco e estava com muita dor. Era casada, o marido dela tinha insuficiência cardíaca e quase não caminhava  por causa do coração fraco.

– Dona Eudóxiam já que a senhora tem dor a vulva lá de vez em quando, vamos usar essa pomada, apenas quando tiver dor. Mas acho que está na hora de usarmos morfina para as outras dores. É uma medicação segura se a gente usar direitinho. E é fornecida pelo SUS.

– Doutora eu tenho medo da morfina.

– Vamos começar com dose baixa, quero lhe ver daqui um mês.

– Deixa eu ver se entendi, Doutora. Para a vulva, pomada. Para as outras dores, morfina.

Dona Eudóxia fez uma pequena pausa e emendou o assunto seguinte como se tivesse relação com suas dores.

– Sabe, Doutora, eu tenho 53 anos de casamento. Tenho medo de perder ele, meu velho está muito doentinho. O problema no coração é muito grave. E com as nossas doenças, um cuidando do outro, estamos cada vez mais unidos.

Levantou-se e quase na porta parou novamente.

– Hoje não é mais assim, Doutora. É difícil encontrar o amor. Minha filha está separada. Minha neta está separada. Eu tenho medo de perder ele.

Dona Eudóxia despediu-se e saiu. Mais que as dores físicas ela parecia ter uma dor lhe apertando o coração, o medo de perder o marido devido a uma doença grave. As dores físicas teriam alívio com a morfina, mas não haveria o que aliviasse a dor do medo da perda. Seja para a vida ou para a morte, o medo da perda é uma dor compulsória do amor.

 

A Nega Ju e o Inverno

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Todo o hospital tem alguns personagens que desafiam a dor, a desgraça, os uniformes brancos e são desbragadamente coloridos. A Nega Ju é uma das minhas preferidas. Faz questão de ser chamada assim desde os tempos que eu era médica residente. “Bom dia, eu sou a Nega Ju, a técnica de enfermagem que vai cuidar da senhora hoje.” A Ju conhece todo mundo, presta atenção em todo mundo e para todos tem um gesto de afeto. Uns anos atrás a Nega Ju topou comigo no corredor, abatida e sem maquiagem. Eu estava recém separada e de coração partido.  Naquele ano eu estava de plantão no dia 13 de junho e a Ju, sempre preocupada com o amor, me trouxe um pãozinho de Santo Antonio . Mas não era bem isso que eu ia falar. Estávamos a Ju, a ascensorista e eu no elevador, há duas semanas atrás.

– E esse frio, Doutora?

– O bom do inverno é que ele acaba, Nega Ju.

A ascensorista entrou na conversa

– Inverno só é bom pra rico, Doutora. Tem dinheiro, vai tudo pra Gramado, tomar vinho. Aí é bom. Pra quem pode ir para Gramado, o inverno é ótimo.

– Ou para quem foge para o Rio – respondi pensativa

A Nega Ju riu

– Ah! Salvador é muito melhor! Imagina nós lá: aquele calor, o sol, a música e bem abraçada em um negão bonito e sarado.

Deu aquela gargalhada de que apenas as pessoas muito felizes são capazes, aquecendo a manhã fria, como que convidando a gente a rir com ela .

– Bem melhor, né Doutora?

O elevador parou no segundo andar e a Nega Ju desceu, me poupando de dar uma resposta (honesta) na frente da ascensorista, que eu mal conhecia. Continuamos a subida.

– A Nega Ju pensando maldade e nós as duas só pensando em fugir do frio, né Doutora?

– Pois é… – respondi sendo propositadamente vaga.

(na minha cabeça, só rodava a musiquinha antiga: I don´t want to stay here/ I wanna to go back to Bahia)

 

O ar que Seu Cândido não tem

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Seu Cândido tem um câncer de pulmão avançado que evolui sem trégua há dois anos apesar do tratamento. Sente muita falta de ar. À noite, às vezes cochila. Deitar, no caso dele é impossível. Só consegue respirar sentado. Quando as medidas se esgotam, a gente prescreve sedativos para  que o cérebro não perceba tanto a falta de ar. Seu Cândido não gostou deles. Eu ainda não tinha visto um paciente que preferisse permanecer absolutamente consciente na situação que ele está. Seu Cândido não queria morrer dormindo, os filhos disseram.

No primeiro dia em que o atendi, Seu Cândido se queixou a falta de ar. Disse que as medidas que nós poderíamos usar para aliviar o sofrimento dele estavam se esgotando. (Na prática, estavam esgotadas) Novamente falei que uma das opções seria a sedação. Com a fala entrecortada, seu Cândido deu um tapa no ar, rejeitando categoricamente a ideia. Não insisti. À vezes, o limite entre oferecer novamente um lenitivo para o sofrimento ou importurnar o paciente com algo que ele não quer é sutil. Seu Cândido estava terminalmente doente, mas o corpo era dele.

No terceiro dia ele parecia exausto. “Meu único problema é o ar que eu não tenho, Doutora. Eu só queria poder respirar, um pouco que fosse.” Expliquei que apenas uma parte muito pequena do pulmão estava sadia e por isso nada do que a gente fazia aliviava o sofrimento dele. Nem mesmo cânula de oxigênio que entrava pelo orifício da traqueostomia.

Os olhos muito azuis de seu Cândido transmitiam brandura e afeto. Impossível não gostar dele. Isso aumentava minha sensação de impotência. Estivesse na situação dele, talvez eu mandasse os médicos para os diabos – para extravasar ou para passar o tempo, como alguns pacientes fazem. Descarregar a frustração com o inevitável é humano. E necessário.

Sugeri um sedativo aplicado periodicamente, para que ele passasse parte do tempo acordado. O sedativo não interferiria no número de dias ele tinha pra viver, a natureza seguiria seu curso. Disse que os efeitos poderiam ser revertidos imediatamente caso ele se sentisse mal. E que nós poderíamos programá-lo para pra ser aplicado a cada 6 ou 8 horas, deixando espaços para que ele ficasse acordado.   Seu Cândido finalmente concordou, incentivado pela filha mais nova. Aos vinte e poucos anos a menina parecia estar amadurecendo na marra, como costuma ser. Uma mistura de seriedade e leveza. Acho que ela foi crucial para que ele tomasse as últimas decisões. “Pai, vamos tentar? Fico aqui do teu lado e chamo a Doutora, se precisar. Fica tranquilo”

Seu Cândido alternou períodos de sono e vigília e morreu 72 horas depois. Só o vi completamente inconsciente um pouquinho antes de morrer. As vontades de seu Cândido foram respeitadas até os limites da doença que ele tinha.  A família ficou aliviada por ter conseguido atendê-lo. O corpo era dele.