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A Bela e a Fera

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E aí eu entrei no elevador e uma menininha usava um vestido amarelo de princesa. Estava eufórica, dançando.
– Hoje é festa à fantasia na escolinha!
– E a tua fantasia é de qual princesa?
– É a Bela! – respondeu a pequena, desapontada.
Nunca fui muito boa nesse negócio de princesas. Gostava da Cinderela, mas acho que era por causa do baile. Na escolinha eu gostava de brincar de índio. Desde o dia daquele ano em que Rastros de Ódio passou na TV, eu finalmente pude integrar a tribo indígena, depois de uma longa discussão com o Cacique. Apesar da cara feia dos demais, ele era uma liderança inconteste do lado B da turma. O Chefe autorizou, virei índia.
Mas não era disso que eu estava falando. Desde criança, eu achava que a vida da Bela só não era pior que a da Rapunzel, a presidiária de quem puxavam os cabelos. Aliás, só me apercebi que a Bela era uma princesa com o novo desenho. Em pequena eu achava que ela era mais um caso de cárcere privado com as tintas sinistras de um monstro como companhia. Alguém que finalmente se conformava com a falta de opções. Opa! De repente me dei conta que a Bela não era muito diferente de uma mulher final da balada para quem a contragosto é apresentada uma única opção. São 3hs da manhã, sacumé…
Pela primeira vez na vida, olhei para a personagem com simpatia. Mais ou menos como uma companheira de infortúnio. Atire a primeira pedra a primeira mulher que não fez como a Bela num momento de carência.
A lembrança de um ou dois momentos em que me comportei como a personagem me fizeram rir sozinha de manhã cedinho, num dia em que tinha acordado com o humor da Madrasta da Branca de Neve. Talvez a geração da menininha de vestido de cetim amarelo seja mais preparada para um mundo em que os sonhos continuam, mas príncipes não existem, nenhuma de nós tem jeito pra princesa e nós nos entendemos com o sexo oposto (ou com o mesmo sexo) do jeito que dá. Ponto final.
 

A pensão é minha mesmo.

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Doutora, aquele creme vaginal que a senhora me deu da outra vez, posso usar?

Dona Amália tem sessenta e poucos anos. Há dez anos retirei uma parte do seu colo do útero por causa uma lesão pré-maligna. A cirurgia é tecnicamente é muito simples e ela se recuperou muito bem. Ainda assim, ela me tem em alta conta e fala daquele evento como se tivesse sido uma cirurgia de risco, potencialmente fatal. As pessoas são do tamanho dos seus medos e os médicos são do tamanho dos medos dos seus pacientes.

– A vagina está ressecada?

– Sim

— Está doendo?

— Um pouco.

– Está de namorado novo?

Dona Amália era divorciada, um casamento infeliz e até onde me constava, não tinha nenhum relacionamento. Ela sorriu.

– Fiquei com vergonha de lhe dizer isso na outra consulta. Estou namorando sim, ele me pediu em casamento, acho que vou até casar. Faz quatro anos que temo nessa.

– Isso é ótimo, Dona Amália. Amor faz bem pra saúde.

Ela baixou a cabeça.

– Eu queria saber sua opinião do meu casamento.

Nesses anos de ginecologia já me pediram opinião de tudo. De casar, de descasar, de namorar, de não namorar, de transar sem compromisso, mudar a cor do cabelo, colocar silicone, o diabo. As mulheres fazem perguntas pouco afeitas às suas doenças para o ginecologista quase como se fosse um oráculo.

– Então me conte. Vamos ver se posso ajudar.

– É que ele é vinte anos mais novo que eu, Doutora. Quando a gente tem dinheiro, eu estou sem dor a minha filha está bem a gente sai pra dançar. Ele faz declaração de amor, me  cuida, faz o serviço da casa quando eu estou doente. Ele é pedreiro e entrega todo o salário na minha mão. Quem administra sou eu. Faz mais de ano que quer casar, eu tinha vergonha.

Fosse o contrário, ninguém acharia estranho e não haveria vergonha e sim elogios à pretensa virilidade do homem que casaria com uma mulher mais jovem. Dona Amália me dizia isso com um sorriso de satisfação.

– E eu penso que se eu casar com ele , o Jurandir herda minha pensão quando eu morrer. As pessoas dizem que eu estou louca.

– Não entendi, Dona Amália

– Me dizem que se ele ficar com a minha pensão vai gastar o dinheiro com as outras. Eu não me importo o que ele vai fazer com o meu dinheiro quando eu morrer. Ele que gaste com quem quiser. Meus filhos não podem ficar com a pensão porque são dimaior. Ele me trata muito bem e me faz feliz. Por que eu devia deixar minha pensão para o governo?

– Se a senhora se separar, ele perde o direito a pensão?

– Perde. Já me informei.

– Eu não deixaria de fazer algo que me deixasse feliz.

Ela sorriu.

– Ele é só no mundo, Doutora. Depois que a mãe adotiva dele morreu, eu pressionei o meu sogro pra dar alguma pista de onde estaria a mãe verdadeira. Sabe que eu descobri a mãe dele e os irmãos?  A mãe dele “dava” todos os filhos, cada um tem um sobrenome. Achei todos. A mãe dele morreu, mas os irmãos vem para o nosso casamento.

Dona Amélia não queria minha opinião. Apenas queria que eu dissesse que tudo estava bem. O casamento já tinha até data. Naquelas situações em que tudo pode dar muito errado é difícil opinar. Qual seria o melhor conselho? Anos fazendo psicoterapia, aprendi que desde que a gente entenda as motivações dos próprios atos e esteja preparados para as consequências, pode fazer o que tem vontade.

Ela parecia ter uma visão clara das consequências da decisão e um plano de divórcio, caso fosse necessário. Aparentemente, lidava bem coma ideia de que o futuro marido usufruiria da sua pensão sem ela. Possivelmente com outra mulher.

As motivações dos atos são a matéria de trabalho dos terapeutas, mas eu arriscaria apostar qual seria a motivação de Dona Amália ao casar-se. Sentiu-se amada e cuidada. Um homem apresentou-lhe amor e ela retribuiu gratidão.

Sensível às histórias de amor, depois que Dona Amália saiu eu me perguntei se o amor nos deixa particularmente generosos. Dos amores da minha vida e dos casais apaixonados de que me lembrei, a fase de encantamento parece ser salpicada de atos generosos aqui e acolá. Uma das maneiras pelas quais as pessoas percebemos o amor é quando vemos a generosidade do outro. Alguns só conseguem manifestá-lo concretamente.

Dona Amália vai casar com um homem bem mais jovem. Pode ser a melhor ou a pior decisão da sua vida. Como quem assiste ao primeiro capítulo de uma série em que simpatizei com a personagem principal, torço pelo final feliz.

Sobre ideogramas, moda japa e blogueiras feias

 

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Eu não posso enxergar um ideograma. Tenho um tatuado na pele. Da vitrine, os risquinhos orientais me atraíram como uma força gravitacional. Entrei na loja, mesmo sabendo que ali um vestido custa o preço do meu rim direito. Muito cetim, desenhos que remetiam ao Japão, mas os ideogramas eram poucos. As estampas eram lindas e mas os cortes eram esquisitos, aquele tipo de falta de estrutura que só fica bem em mulheres magras feito cabides. O gerente purpurinava pela loja enquanto a vendedora tentava me convencer a provar algo. Lá pelas tantas ele resolveu me achar.

– Quero te mostrar algo que é a tua cara.

Tenho medo dessa frase, a peça que me mostram me diz que eu tenho cara de louca ou de burra. Eu estava vestindo preto e botas de caubói. O que haveria na coleção japa parecido com o que eu estava usando?

– Olha só, é lindo!

Ele segurava a peça em um cabide com o braço estendido, alto do chão. O tecido era preto e  vaporoso, com umas poucas flores esbranquiçadas aqui e acolá. A saia era longa e ficava mais larga em baixo. Uma coisa meio baiana-gótica. A estampa ficaria bem na minha avó e olhe lá.

– Olha, não é bem o meu estilo…

– Vai ficar ótimo em ti, experimenta!

– Eu não uso saia longa.

– Mas essa é linda, usa!

– Com um quadril do tamanho do meu? Nem pensar!

Todos os vendedores balançaram o pescoço em sinal de negativa, como se o que estivesse dizendo fosse uma rematada bobagem.

– Linda, esse tipo de roupa corta o quadril todo! As clientes que nem tu adoram!

Nos minutos seguintes, ele me repetiu a mesma frase três vezes e me ocorreu perguntar pra que existia cirurgia plástica, se aquela a saia da baiana gótica cortava praticamente todo o quadril. O homem insistia.

– Mas as gordinhas usam, vou te mostrar um foto da blogueira que esteve aqui nessa semana.

Até fiquei curiosa. O homem trouxe um I Pad, mostrado com orgulho. Eu nunca tinha visto a tal mulher na vida. A cor do cabelo não combinava com o tom da pele. E saia de baiana gótica na baixinha, atarracada e sem cintura chegou a me despertar uma certa pena.

– Então? Vamos provar?

Perdi a paciência.

– Olha, tu vai me desculpar. Eu achei muito feio.

Ele me olhou como se eu fosse uma coitada. Continuei.

. Reforçou a opinião que eu tenho a respeito de saias longas em mulheres baixinhas tamanho GG. Parecem ensacadas. No caso, um saco de batatas.

O homem largou do meu pé e eu saí da loja, irritada com tanta insistência. Caras ou baratas, as lojas costumam subestimar a inteligência feminina na tentativa de fazê-las comprar qualquer porcaria. Em seguida pensei na blogueira que despertou minha pena. Talvez a única diferença entre nós as duas seja que ela ganha pra pagar mico. Faço isso de graça, com a minha falta de tino comercial.

 

Os amores geográficos

 

 

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É quase lei que os amores eternos são os mais breves. Foi mais ou menos isso que o poeta uruguaio Mario Benedetti disse – a tradução é minha. E esse verso sempre me comove. Meus amores eternos me emocionam, às vezes até me doem. Alguns deles me fazem rir. Sou um animal andarilho,  uma cruza de tropeiro com bandeirante. Sofro de amores geográficos.

Pra mim os amores breves são de três tipos. Aqueles em que a gente toma um pé na bunda cedo demais (os que mais causam estrago na vaidade e o ego), aqueles em que o objeto de amor morre tragicamente (os mais dolorosos) e aqueles que a geografia apartou (os mais caros).  Entendo alguma coisa dos três, mas quero falar desse último.

A geografia é um troço bonito e ingrato, ao mesmo tempo. Bonito porque preserva o encanto intocado nesses amores, sem permitir a corrosão pela rotina e o tempo. Ingrato porque essa beleza faz com que a gente revisite essas histórias de tempos em tempos e seja tomado pela nostalgia. Faz com que esses amores pareçam melhores que os outros. Talvez isso os faça inesquecíveis.

Era frio. Era a cripta de uma igreja anglicana, era Londres, era jazz, era muçulmano. Elogiou minhas mãos e entregou seu cartão de visitas. Médico como eu, a conversa fluiu. De coração dolorido com final abrupto do meu casamento só percebi o que estava acontecendo quando ele disse que queria me levar para Paris. O tempo parou. Lembrei de Casablanca. Na cena seguinte um bandonion enchia de tango um cantinho da Trafalgar Square e eu flutuei de mãos dados com um desconhecido pelas ruas decoradas para o Natal. Durou trinta e seis horas. Até eu pegar o vôo para Porto Alegre.

Três meses depois, voltei para vê-lo. As coisas não foram as mesmas. Nem eu era a mesma naquela época de mudanças frenéticas. Era mais frio e eu andei pelas ruas de Londres desiludida e só. A sensação de flutuar perdida para sempre. Me permiti um dia de dor-de-cotovelo, apenas (as libras esterlinas me obrigaram a ser tremendamente objetiva). Entrei em um pub, sentei no balcão, pedi um Dry Martini. Pouco tempo depois, um novo convite para ser levada para Paris, muito parecido com o anterior. Num instante, tudo fez sentido.

 Quero te levar para Paris é uma cantada barata pra turistas em férias na Europa. Descobri que existe uma variante, quero te levar pra Veneza, quando a conversa gira em torno de culinária.  A menção a Paris não significa nada, como não significam as coisas ditas na maioria das cantadas. Servem para agradar o ego da gente, apenas. E gente finge que acredita – se estiver gostando. Um jogo. Acho que foi ali que decidi que não levaria a minha da vida amorosa a sério. Foi uma das melhores decisões que eu já tomei.

 

Recalculando a rota

recalculando a rota“Às vezes a gente tem que fazer igual a moça gentil do GPS e recalcular a rota, se pegar um caminho equivocado.  Afinal, a gente erra de estrada o tempo todo.” Disse uma amiga que está fazendo uma correção de rota dramática. Mais que um comentário bem humorado sobre os aplicativos que mudaram o deslocamento das pessoas nas cidades, ela estava falando sobre a vida.

Salvo os muito pacatos ou aqueles que têm a sorte (ou o azar) de a vida ter saído exatamente como planejaram, a maioria de nós tem duas opções quando pega o caminho errado ou quando a estrada se modifica abruptamente: ou bem recalcula rota, ou fica parado. Assim como a gente se agonia enquanto a moça simpática faz novas contas pra nos levar onde gostaríamos, é a ansiedade na vida, quando ela exige de nós uma revisão de percurso.

Quando olho para os meus sonhos e planos da juventude, vejo que nada saiu como eu planejei. A vida me impôs um recálculo dramático de rota nos últimos anos.  Sem saber a que recorrer, fui olhar para infância na tentativa de enxergar o que realmente era importante pra mim. Um endereço a ser digitado para que a moça gentil do meu GPS mental pudesse calcular um novo percurso.

Correr mundo, ser escritora, ter uma vida cheia de gente – eram as três coisas que eu queria na vida.  Aos doze anos, decidi que queria ser diplomata, mas a doença do meu pai alguns anos depois colocou meu GPS para trabalhar pela primeira vez, sem que eu eu percebesse. No ano seguinte, passei no vestibular para medicina. Demorei muito tempo pra perceber que a minha pouca paciência com rapapés me tornaria inábil para o mundo sutil da diplomacia. E hoje provavelmente eu estaria reclamando da vida em algum escritório do Itamary, frustrada. É um defeito mortal no mundo em que eu queria viver.

Dois anos atrás eu sofri um acidente e quase morri. Metida num jaleco verde e deitada num maca na emergência de um hospital em que ninguém me conhecia, eu me vi obrigada a fazer uma nova correção de rota. Não me tornei uma pessoa melhor (gostaria de dizer isso, mas não é verdade), não cuido mais da minha saúde (minha família gostaria de me ouvir dizer isso, mas também não é verdade). Mas entendi que pode não haver tempo para correções suaves de rumo.

Criei coragem para mostrar a cara escrevendo.  Lancei um livro e o  www.deusmelivreserbege.com tem um ano em meio e mais de dez mil acessos. Ainda não ganhei um centavo com isso, mas a minha vida ficou mais divertida.  Comprei uma ampulheta com areia rosa choque que fica à minha vista, em casa, enquanto tento escrever meu primeiro romance. Pra me lembrar que pode não haver tempo para correções suaves  na trajetória e que eu preciso fazer escolhas

Ontem colei um adesivo amarelo de mapa-mundi na minha parede de casa, cor de beterraba. Pra não me esquecer que economizar é fundamental.  Ainda não vi o Rei Tut (quase um amigo, afinal, foi ele que me fez perceber que o mundo era grande, aos dez anos), não sentei na frente do Príncipe dos Lírios, não vi a serpente emplumada. Mas já tomei cachaça num bar pouco recomendado pra turistas no Pelourinho, dancei na rua numa parada de São Patrício em New Orleans,  vi a Nefertiti.

Encher a minha vida de gente foi o melhor de tudo.  Abrir meus braços para pessoas muito diferentes de mim e escrever trouxeram mais amigos do que eu poderia imaginar. E agora, terminando de escrever essa crônica, me dei conta que talvez a minha vida esteja como deveria estar: bagunçada, colorida, cheia gente. Nada está em seu lugar e tudo pode (e vai) piorar qualquer hora dessas em que eu errar o caminho ou a estrada mudar. Espero ter aprendido que recalcular rota não dói tanto assim.

Obs: Em homenagem à minha amiga que amanhã chega no destino desejado depois de um recálculo de rota que levou cinco anos.

 

 

Oito considerações sobre etiqueta no mundo virtual

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E aí minha amiga Anajara me ligou tarde da noite. Com quase quarenta anos, ela é de um tempo em que a gente telefonava para o único telefone que existia, o fixo. Está sempre preocupada com amor.  (Sobre clitóris, memes e pókemons e  O Fetiche da Vírgula) Tinha mais uma história pra contar.

– Minha pegada visualizou a mensagem e não respondeu? O que ele está pensando? Isso é falta de educação.

Aprendi com ela, a pegada é mais ou menos a mesma coisa que ficante. Algo sem compromisso. Alguém para quem a gente pode chamar em um momento de carência, solidão ou split estragado no inverno. Anajara não gostou da minha opinião. Acho que as pessoas respondem mensagens quando puderem. A vida vira um inferno com tanto controle. Ficou mais brava.

– E tem mais: Ele nunca se despede, me deixa falando sozinha.

Sou um animal antigo, da época que Kurt Cobain era vivo. Desconfio que isso me torne incapacitada para entender certas coisa, entre elas a (falta de) etiqueta do mundo virtual. O próprio fato de eu pensar em etiqueta, que remete aos livros de boas maneiras revela o quanto eu estou despreparada para ele. Já fiquei muito ofendida com isso. Até entender que essa regra não existe. A gente aparece, desaparece. Reaparece. É assim mesmo. Ouvindo Come as you are, concluo que não estou entendendo nada.

Era tarde, eu estava cansada, mas Anajara queria papo:

– Dia  desses um serumano me adicionou  no Facebook. Um cara que eu nunca tinha visto na vida. Aceitei e ele escreveu bem vinda. Acho isso tão esquisito.

Ando invocada com isso também. Se eu não fui ao encontro daquela pessoa, por que me dar boas vindas? Mais estranho ainda quando a proximidade é desejada pelo outro. Como não sei o que responder, não respondo nada. Dia desses eu passei por uma situação semelhante. Aí o serumano perguntou.

– Não gostou que eu te mandei um convite de amizade?

E era pra eu gostar? Se eu não gostei, era de se perguntar? Eu deveria ter reagido de alguma forma? Ouvindo Lithium, não consigo entender qual era a resposta definida no protocolo. Novamente, respondi com silêncio. Veio a terceira pergunta.

– Por que tu não fala nada?

– Porque respondo perguntas objetivas, como essa última. É a primeira vez que alguém pergunta se gostei de ter sido adicionada.

Ao que o indivíduo respondeu.

– É a primeira vez que ninguém me escreve nada quando eu digo bem vinda.

Quase senti a indignação do outro lado. Desisti de continuar o colóquio. Levando em conta a estranheza do diálogo, tentei fazer algumas considerações.

Consideração um: ele deve estar certo. Sou um animal estranho, com dificuldade para entender as regras do diálogo virtual;

Consideração dois: talvez as boas vindas não façam sentido e o indivíduo se irritou por ter ouvido isso;

Consideração três: vai ver no dia todo mundo combinou é pra dizer “obrigada” para o estranho desejo de boas vindas, eu estava distraída (como de costume) e não entendi o que era pra fazer;

Consideração quatro: vai ver ele estava querendo me xavecar e eu não estava colaborando;

Consideração cinco: estar afastada do trabalho por conta de uma cirurgia  (tudo está indo muito bem, mas está sendo um exercício de paciência) está me deixando com tempo demais pra pensar bobagem – porque não fico trabalhando apenas no meu livro novo ou vou ler algo que preste?

Consideração seis: a dieta low carb está me deixando impaciente.

Consideração sete: não me pergunte se estou na TPM. Lembre da minha dieta low carb. Contrariar um animal faminto na TPM pode ser perigoso.

Consideração oito: a paquera no Facebook consegue provocar diálogos mais estranhos que aqueles dos aplicativos de relacionamento. Lá, ao menos as intenções são claras

Consideração nove (extra): quando a gente esta sem assunto, escrever uma lista de qualquer coisa (considerações, inclusive) é um ótimo recurso pra escrever uma crônica. Se o seu site favorito vive de postar listas, eles não devem saber como escrever uma crônica de outro jeito.

 

O Fetiche da Vírgula

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Prezado amigo. Quer se dar bem com o sexo oposto? Ser irresistível? Esqueça a barriga tanquinho que cerveja não lhe permite adquirir. Aprenda a usar a vírgula. O novo Don Juan, o sedutor do século XXI, além de ir para a academia necessariamente precisa manjar dos paranauê da gramática. Nos Estados Unidos, trinta por cento dos casamentos no ano passado iniciaram com contatos na internet. Se a sua paquera pela internet vai mal, amigo, o problema talvez esteja na forma como escreve.

Uma vez que a primeira abordagem é escrita, aqueles habilidosos com as palavras levarão vantagem em relação aos outros. Pouco adianta aquela barriga trabalhada se nas primeiras frases o candidato trocar o S pelo Z. “Oi princeza!”. Erros ortográficos grosseiros podem transformar a mulher mais disposta ao amor numa bruxa enlouquecida na TPM. Um dia a medicina ou a psicologia irão estudara influência da ortografia na libido feminina.

A primeira vez que me apaixonei em tempos internéticos, foi por um adorável canalha, habilidoso com as mãos e as vírgulas.  Não falo em um domínio estrito das orações coordenadas e subordinadas, mas de um domínio intuitivo do ritmo da língua portuguesa. Findado o romance e curando a dor-de-cotovelo, aprendi nos meses seguintes sobre as regras amorosas do século XXI e, confesso, senti mais falta das vírgulas que das mãos.

Segundo Anajara, aquela minha amiga que vive preocupada com o amor Sobre clitóris, memes e pokémons o problema é mais sério que entender-se com o sinuoso sinal ortográfico. Dia desses ela me ligou:

– Estou traumatizada.

Perguntei o que tinha havido.

– Engatei um papo com um cara que me adicionou no Facebook, três frases e eu já tinha me arrependido. Disse que não queria mais falar com ele. Continuou insistindo. Repeti que não queria. Aí ele escreveu. “não gosta de mim, pode mim bloquear”

Ela fez uma pausa dramática.

– Foi pior que se ele tivesse me mandando a foto da piroca que eu não tinha pedido pra ver.

Politicamente incorreto? Pois é, quer troço mais politicamente incorreto que libido? Sua própria existência desafia o ordenamento do mundo. A gente gosta do que atiça. Já ouvi inúmeras histórias de mulheres que desistiram (com pesar) de conversar com um homem bonito porque a quantidade de erros de português esfriou o papo. Os memes estão por aí.  Pra mim, um texto com vírgulas bem colocadas é quase fetiche – desde que o indivíduo não esqueça dos “Rs” no final dos verbos. Do outro lado o problema também existe: amigo meu desistiu de conversar com uma guria, ansiosa demais pelo primeiro encontro, quando ela sugeriu lá pelas tantas. “Quem sabe se vemos na Redenção?”

Pensando em escrever sobre o assunto, fui conversar novamente com Anajara, talvez ela me ajudasse a organizar as ideias. Aparentemente já tinha superado o trauma, pois me contou que tinha um novo crush. Ela me ajudou pouco, porque já estava metida numa nova reflexão. Embora considerasse minha ideia um bom tema pra crônica, ela recomendou muitíssimo que me ocupasse de temas mais urgentes e incompreensíveis do mundo virtual, como escrever sobre a mania que alguns homens têm de mandar fotos da própria piroca. Sensibilizada com o apelo, anotei a sugestão.

Uma solução para os problemas conjugais

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–   A senhora sabia, Doutora? A porta do meu barraco não tem tranca, fica encostada. Quando eu ia trabalhar, dizia que se encostassem um dedo nas minhas meninas, eu matava.

Berenice arregalou os olhos. No mundo violento em que vive, assassinatos são comuns. Berenice tem insônia  . Sempre tem uma história nova. Uma delas rendeu inclusive o título do meu livro. o-marido-perdido/    Em seguida, mudou o tom da conversa.

– É que lá no morro todo mundo me respeita…

Fez uma pausa, como se tentasse encadear o que estava contando.

A senhora sabe que eu a coisa andou feia lá em casa? Mês passado quase passei fome. Aí eu pedi um dinheiro para o Luis Carlos. Sabe o Luis Carlos, Doutora?

Não eu não sabia, mas não vinha ao caso. Nas reflexões sobre a vida de Berenice eu sou apenas um ouvido. É daquelas pacientes que consultam porque precisam entender a própria vida.

– O Luis Carlos foi meu marido. Morei com ele depois que fiquei viúva. O nego era bom, me ajudou muito pra criar as meninas. Até hoje é apaixonado por mim.

– E o casamento acabou por quê?

– Tinha um defeito triste…

Esfregou o dedo indicador no polegar.

– Jogo? Caça níqueis?

– Isso. A maquininha aquela. Tinha uma no boteco no pé do morro. Eu achava estranho, porque volta e meia ele voltava sem dinheiro, dizendo que tinha sido  assaltado. Daí eu perguntava para os assaltantes do morro – eu sou amiga de todo mundo, né, a senhora sabe – e me diziam. “Nega, pra esses lados não tá dando assalto, se fosse mais para baixo ou mais para cima…” Um dia, resolvi seguir o Luis Carlos. Vi entrando no bar e comprando as fichas. Pensei uns dois dias o que eu ia fazer. Aí passou “Tropa de Elite” na TV. Resolvi o problema com álcool.

Eu não sabia se podia, me deu vontade de rir. Ponderei que Luis Carlos ainda estava vivo, então não deveria ser tão grave.

Gastei cinco pila numa garrafa de álcool. Mais dois pila num isqueiro do Paraguai.

– Álcool líquido ou gel?

A história era boa demais, eu precisava de todos os detalhes.

– Claro que é líquido, né Doutora? Pensa um pouco! Não assistiu Tropa de Elite?

Assistir, eu tinha assistido. Mas não estava entendendo.

– Cheguei no bar e fui perguntando por ele, dizendo que ia matar. E eu queria, Doutora. Estava louca de raiva. Aí um homem que estava lá, ficou me tirando. “Sai daí que mulher aqui não entra, quero ver tu continuar aqui. Te coloco pra fora.”

Fiquei mais louca ainda. Joguei álcool no chão e atirei o isqueiro em cima da poça maior. Pegou fogo em todas as poças de álcool, Doutora.

Berenice ria, divertida. Eu ri também. A essas alturas a formalidade do jaleco tinha ido para o espaço sideral.

– E o Luiz Carlos?

– Saiu correndo, apavorado. E os outros homens começaram a apagar o fogo.  Eu fui embora, bem calma.

E o que aconteceu depois, Berenice?

– O dono do bar veio me cobrar o prejuízo. Eu disse que não tinha queimado nada, que quem queimou tudo foi o álcool. E que ele tinha sorte de eu não avisar a polícia da maquininha de jogo. O Luiz Carlos me largou, pra todo mundo ele dizia. “Eu amo a Berê, mas a nega é louca”. Por isso a porta do meu barraco não tem tranca, Doutora. Todo mundo me respeita.

Era uma solução criativa para dirimir determinados conflitos conjugais. Mas, aqui entre nós prezada amiga, mesmo que tenha considerado a hipótese por instante (assim como eu), não tente fazer isso em casa. Berenice mora num barraco sem tranca numa das vilas mais violentas da cidade. Consegue ser respeitada ali. Para uma mulher que sobrevive a tiroteios, estourar um isqueiro numa poça de álcool deve ser até lúdico.

Crônica de bar, calçando havaianas

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Eu era o único par de havaianas ali. Tinha dado sorte. Era o dia 08/11, eu estava em Miami e as pessoas aguardavam ansiosamente os resultados da eleição americana – ainda incertos. Antes disso, eu tinha parado em uma aglomeração de rua, onde havia uma transmissão de TV. Eu queria olhar o povo, mas um democrata estragou minha alegria. “A CNN vai ao ar em três minutos! Vamos sorrir, vibrar, bater palmas”. Uma das poucas coisas que não gosto nos americanos é o falso entusiasmo. Acho que não sou a única. A pequena multidão dispersou. Também não aplaudo políticos brasileiros, nem gringos. No máximo tomaria umas cervejas com a Merckel.

Mas não era disso que eu queria falar. Eu ia pela rua, gostei da música, entrei, feito cachorro que encontra a porta aberta. Ninguém me olhou – o que significava que o bar era seguro para uma mulher sozinha. Sentei no balcão, observei alguns olhares com o canto dos olhos. Pedi um black label. Pedir uma bebida forte é uma boa medida para afastar curiosos. Eu queria olhar, apenas. Sem ser importunada. Fora do Brasil, uma mulher pode fazer isso.

Um DJ mandando bem, dois barmen, dois telões com a apuração da CNN. Com exceção do DJ, dos democratas de camiseta azul e do barman de braços tatuados, os outros não tinham jeito de brancos americanos. Também não tinham jeito de turistas europeus. Eram negros e latinos, os primeiros calçando tênis coloridos e usando correntes, e os últimos calçando sapatos e usando camisas – com dois ou três botões próximos ao colarinho deliberadamente desabotoados.

A música era boa e eles começaram a dançar. Hispânicos gostam de dançar, como os homens das minhas origens na fronteira. Mais uma dose e eu levaria as minhas havaianas – loucas para bailar – pra pista, mas eu não podia me demorar. Meu voo no outro dia era cedinho.

Olhando para os meus pés em estado deplorável depois de uma semana de mar e caminhada, o esmalte vermelho em petição de miséria, novamente pensei que tinha dado sorte em ter entrado num bar de locais. Perdi meu pai na adolescência e ele me aconselhou várias vezes a observar os sapatos das pessoas, para saber de onde vinham. “Morro de medo que tu engrace com bagaceira, filha.” É um dos poucos conselhos de que me lembro, porque sempre achei engraçado. Ele era um homem de outro tempo e nós tínhamos valores muito diferentes. Ainda assim, quando tenho dificuldade para entender um ambiente, me pego olhando para os pés das pessoas.

 

Sobre zoológicos, latinas, o cóccix e questões afeitas às três matérias.

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Era o tipo do bar em que a gente se pergunta se deveria levar a própria mãe. Espiei a minha com o canto dos olhos. Habituada ao carnaval carioca e assídua na Sapucaí, tirou de letra. Tinham me dito que era um bar de salsa, mas quando cheguei bailarinas rebolavam freneticamente em um palco. Em seguida começaria o show masculino. Lembrou o Valen, o bar erótico em Porto Alegre. Mas esse era mais divertido. E mais caro. Aparentemente tudo ali estava à venda. Ou quase tudo.

Mais que observar gente seminua dançando com muita ou pouca convicção o divertido observar era olhar fauna variada de todos os cantos do planeta. Um zoológico. Todos eles bárbaros da horda dos turistas, como eu. Se para mim eles pareciam ele engraçados dançando salsa, eu deveria ser exótica aos olhos deles também. Afinal, a falsa loira bronzeada é um animal exclusivo da fauna brasileira, abundante na Província do Rio Grande de São Pedro. Estranhou minha afirmação peremptória, amigo leitor? Se considerarmos os opcionais de fábrica, o animal em questão só existe no Caos brasilis.

Os bárbaros sempre pensam que se misturam ao povo local e estão entendendo tudo.  Como era um bar de salsa, a fauna se sentia muito, mas muito sexy. Portanto, uma vez que todos nós nos tornávamos irresistíveis apenas porque tocava Fiebre, era natural que todo o resto do planeta estivesse disposto a uma abordagem. Aliás, amigo do sexo oposto, uma digressão oportuna. Quer a atenção de uma mulher? Não chegue pegando, abraçando, não invada o espaço físico. A menos que claramente indicado.  Obrigada. De nada.

Mas não era bem isso que eu queria falar. No palco, a minha frente uma mulata de cabelo platinado rebolava. Eu, invocada. O uniforme era um macacão tigrado, justíssimo, daqueles tecidos que deixam transparecer até celulite que a gente vai ter na próxima encarnação. Mas o que me deixava cismada não era a falta de celulite ou a bunda empinada que parecia apontar para o espaço.

Elas dançavam, rebolavam, agachavam. O macacão não saía do lugar. Os homens, urravam. Eu, encafifada, pensava se conseguiria fazer a pergunta que me esclareceria a questão em inglês ou espanhol.  Nenhuma delas era brasileira. Tinha algum adesivo segurando a roupa? Colchetes? Como era possível?

Eu tinha passado a tarde no provador de uma loja testando todas as modelagens de jeans curvy  de cintura alta (leia-se calça para mulheres bundudas) até encontrar um modelo que não me fizesse parecer saída de um baile funk se precisasse me abaixar para pegar algo no chão. E a mulher, impávida, rebolava agachada num macacão barato, que não saia do lugar, exibindo precisamente o cócix, sem exibir nada mais. Saí do bar tão invocada quanto entrei. Pensei em inúmeras construções frasais, mas não consegui pensar numa maneira de dizer “cofrinho” em inglês ou espanhol.