Arquivo da categoria: poemas

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lancei meu canto na floresta
e ele veio na lua cheia
celebramos as núpcias ao redor da fogueira
como deveria ser ser
como fizemos antes
os amores tão intensos
que parecem já ter sido vividos
em época longínqua
imemorial
senti as presas, as garras
o cheiro
quando chegou a hora
me fiz entrega
para que ele me fizesse posse
amei-o como se nunca tivesse amado
como se eu tivesse desabrochado
agora
ou fosse fenecer amanhã
como se as diferenças não existissem
e fôssemos apenas
rito
e selvageria
como se eu não fosse inconstância
e ele o remédio
pra rotina que me esmaga
e que me esperará implacável
quando o dia for alto
casei-me na lua cheia
fui embora quando amanheceu

 

O corpo

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há dias em que eu gostaria
de ser esguia
longilínea
como as mulheres que caminham
etéreas
com a elegância dos cisnes

me foi dada
opulência
peitos convidativos
quadris generosos
coxas abundantes
e uma boa boca
ando pelo mundo
com as mulheres
feitas de terra
força

há dias
em que eu queria
a magreza e a palidez
os ossos protuberantes
e o fingido ar de enfado
daquelas que são cabides
para as roupas
da última tendência

a mim foi dada curiosidade
e uma fome que só sacia
se eu provo do mundo
pelos meus cinco sentidos
e eu não sei
se o temperamento
moldou o corpo
ou foi moldado por ele

os três gatos

ostresgatosmini2três gatos dormem
enrodilhados em minha cama
fico tomada de uma felicidade doméstica
que me é estranha

amanhã as femêas esfregarão
seus bigodes em mim
ele esfregará a barba
em outras pernas

terei ciúmes, mas não tanto
pode haver outro gato aqui, e ele sabe

olhos os meus três gatos
e sei que são só meus quando querem
talvez por isso eu os ame
e é por isso que eles voltam
os três

Carnaval I

carnavalImini

bolsas impertinentes
cravadas sob meus olhos
muito mal disfarçadas
pelo delineador
e a azia que não me largava

pasteis de camarão
uma cachaça barata
povo dançando na rua
suado e esbagaçado
era o que havia

ninguém parece bonito
na terça feira gorda

sexo frágil

 

Sexo frágil (15) (1)

num mundo de narcisistas

mal me conhecendo

ele ajudou com meu carro

(tenho horror à oficina mecânica)

decerto queria sexo

como todos os outros

nem precisou mandar flores

tampouco falou linda

(a palavra esvaziada

que nada significa)

ele sequer mencionou

meu falso cabelo loiro

arduamente cultivado

à base de produtos químicos

era desnecessário

A Musa e eu

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quando eu topei com a Musa

ela estava no bar

bebia cerveja

e paquerava um homem jovem

era ela, eu tinha certeza

tinha aparecido pra mim

 

sem vestes gregas, sem harpa

desgrenhada, vestia preto

idade indefinida

disse  estar matando tempo

até que eu chegasse

tão vulgar, a Musa

mas tinha me escolhido

 

eu quis impressionar a Musa

recitando um clássico

“- Desde quando lês Ovídio?

Se ao menos falasses de Manoel

ou do Buck”

era a minha Musa

sabia das minhas limitações

 

eu queria saber da Hilda e da Cecília

a musa não me deixava falar

rodopiava, cantava, dançava

eu quase não entendia

(será assim com os maus poetas?)

mas era a Musa

e só eu a reconheci.

 

” – Pra que tanto poema de amor?”

Anda escrever sobre a vida,

que é tão maior!”

– Ó Musa – gaguejei eu

“- Ah, foda-se!”

Interrompeu ela

dando um tapa no ar

“- Agora vamos beber.

Evoé!”