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A Bela e a Fera

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E aí eu entrei no elevador e uma menininha usava um vestido amarelo de princesa. Estava eufórica, dançando.
– Hoje é festa à fantasia na escolinha!
– E a tua fantasia é de qual princesa?
– É a Bela! – respondeu a pequena, desapontada.
Nunca fui muito boa nesse negócio de princesas. Gostava da Cinderela, mas acho que era por causa do baile. Na escolinha eu gostava de brincar de índio. Desde o dia daquele ano em que Rastros de Ódio passou na TV, eu finalmente pude integrar a tribo indígena, depois de uma longa discussão com o Cacique. Apesar da cara feia dos demais, ele era uma liderança inconteste do lado B da turma. O Chefe autorizou, virei índia.
Mas não era disso que eu estava falando. Desde criança, eu achava que a vida da Bela só não era pior que a da Rapunzel, a presidiária de quem puxavam os cabelos. Aliás, só me apercebi que a Bela era uma princesa com o novo desenho. Em pequena eu achava que ela era mais um caso de cárcere privado com as tintas sinistras de um monstro como companhia. Alguém que finalmente se conformava com a falta de opções. Opa! De repente me dei conta que a Bela não era muito diferente de uma mulher final da balada para quem a contragosto é apresentada uma única opção. São 3hs da manhã, sacumé…
Pela primeira vez na vida, olhei para a personagem com simpatia. Mais ou menos como uma companheira de infortúnio. Atire a primeira pedra a primeira mulher que não fez como a Bela num momento de carência.
A lembrança de um ou dois momentos em que me comportei como a personagem me fizeram rir sozinha de manhã cedinho, num dia em que tinha acordado com o humor da Madrasta da Branca de Neve. Talvez a geração da menininha de vestido de cetim amarelo seja mais preparada para um mundo em que os sonhos continuam, mas príncipes não existem, nenhuma de nós tem jeito pra princesa e nós nos entendemos com o sexo oposto (ou com o mesmo sexo) do jeito que dá. Ponto final.
 

A pensão é minha mesmo.

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Doutora, aquele creme vaginal que a senhora me deu da outra vez, posso usar?

Dona Amália tem sessenta e poucos anos. Há dez anos retirei uma parte do seu colo do útero por causa uma lesão pré-maligna. A cirurgia é tecnicamente é muito simples e ela se recuperou muito bem. Ainda assim, ela me tem em alta conta e fala daquele evento como se tivesse sido uma cirurgia de risco, potencialmente fatal. As pessoas são do tamanho dos seus medos e os médicos são do tamanho dos medos dos seus pacientes.

– A vagina está ressecada?

– Sim

— Está doendo?

— Um pouco.

– Está de namorado novo?

Dona Amália era divorciada, um casamento infeliz e até onde me constava, não tinha nenhum relacionamento. Ela sorriu.

– Fiquei com vergonha de lhe dizer isso na outra consulta. Estou namorando sim, ele me pediu em casamento, acho que vou até casar. Faz quatro anos que temo nessa.

– Isso é ótimo, Dona Amália. Amor faz bem pra saúde.

Ela baixou a cabeça.

– Eu queria saber sua opinião do meu casamento.

Nesses anos de ginecologia já me pediram opinião de tudo. De casar, de descasar, de namorar, de não namorar, de transar sem compromisso, mudar a cor do cabelo, colocar silicone, o diabo. As mulheres fazem perguntas pouco afeitas às suas doenças para o ginecologista quase como se fosse um oráculo.

– Então me conte. Vamos ver se posso ajudar.

– É que ele é vinte anos mais novo que eu, Doutora. Quando a gente tem dinheiro, eu estou sem dor a minha filha está bem a gente sai pra dançar. Ele faz declaração de amor, me  cuida, faz o serviço da casa quando eu estou doente. Ele é pedreiro e entrega todo o salário na minha mão. Quem administra sou eu. Faz mais de ano que quer casar, eu tinha vergonha.

Fosse o contrário, ninguém acharia estranho e não haveria vergonha e sim elogios à pretensa virilidade do homem que casaria com uma mulher mais jovem. Dona Amália me dizia isso com um sorriso de satisfação.

– E eu penso que se eu casar com ele , o Jurandir herda minha pensão quando eu morrer. As pessoas dizem que eu estou louca.

– Não entendi, Dona Amália

– Me dizem que se ele ficar com a minha pensão vai gastar o dinheiro com as outras. Eu não me importo o que ele vai fazer com o meu dinheiro quando eu morrer. Ele que gaste com quem quiser. Meus filhos não podem ficar com a pensão porque são dimaior. Ele me trata muito bem e me faz feliz. Por que eu devia deixar minha pensão para o governo?

– Se a senhora se separar, ele perde o direito a pensão?

– Perde. Já me informei.

– Eu não deixaria de fazer algo que me deixasse feliz.

Ela sorriu.

– Ele é só no mundo, Doutora. Depois que a mãe adotiva dele morreu, eu pressionei o meu sogro pra dar alguma pista de onde estaria a mãe verdadeira. Sabe que eu descobri a mãe dele e os irmãos?  A mãe dele “dava” todos os filhos, cada um tem um sobrenome. Achei todos. A mãe dele morreu, mas os irmãos vem para o nosso casamento.

Dona Amélia não queria minha opinião. Apenas queria que eu dissesse que tudo estava bem. O casamento já tinha até data. Naquelas situações em que tudo pode dar muito errado é difícil opinar. Qual seria o melhor conselho? Anos fazendo psicoterapia, aprendi que desde que a gente entenda as motivações dos próprios atos e esteja preparados para as consequências, pode fazer o que tem vontade.

Ela parecia ter uma visão clara das consequências da decisão e um plano de divórcio, caso fosse necessário. Aparentemente, lidava bem coma ideia de que o futuro marido usufruiria da sua pensão sem ela. Possivelmente com outra mulher.

As motivações dos atos são a matéria de trabalho dos terapeutas, mas eu arriscaria apostar qual seria a motivação de Dona Amália ao casar-se. Sentiu-se amada e cuidada. Um homem apresentou-lhe amor e ela retribuiu gratidão.

Sensível às histórias de amor, depois que Dona Amália saiu eu me perguntei se o amor nos deixa particularmente generosos. Dos amores da minha vida e dos casais apaixonados de que me lembrei, a fase de encantamento parece ser salpicada de atos generosos aqui e acolá. Uma das maneiras pelas quais as pessoas percebemos o amor é quando vemos a generosidade do outro. Alguns só conseguem manifestá-lo concretamente.

Dona Amália vai casar com um homem bem mais jovem. Pode ser a melhor ou a pior decisão da sua vida. Como quem assiste ao primeiro capítulo de uma série em que simpatizei com a personagem principal, torço pelo final feliz.

Bukowski, Exupéry e a tática da depreciação

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Era tarde quando o telefone fixo tocou. Era Anajara, aquela minha amiga que está sempre preocupada com o amor.

– As pessoas precisam ler Bukowski direito. Estão lendo o Velho como quem lê Exupéry.

Anajara vive me dando sugestões para crônicas, às vezes desenvolve uma teoria inteira, que eu me limito a transcrever. Como todo o fã, ela se considera íntima do Velho,  quase  como se fosse um tio doidão. Ainda que eu tenha certeza que o Hank pertence à minha família, não estava entendendo onde ela queria chegar. A ideia me parecia estranha.

Segundo ela, os homens nesses tempos de sexo fácil e inúmeras opções, liam Bukowski com o mesmo fervor que as misses  ou os sentimentais de outrora liam Exupéry à procura de conforto. Era engraçado e até fazia algum sentido.  Eu já tinha visto gente citar o Hank quase em transe religioso. Anajara não parava de falar.

– Eu até entendo que os homens se fascinem e tenho pra mim que os mais fracos da cabeça não entendem direito. O cara está lá em casa, sujo, sem banho, bêbado de cerveja. Aparece uma loira ou uma ruiva peituda querendo dar para ele. Tem quem leia e ache que a vida dele era sempre desse jeito, ou até que essa vida existia.

Anajara não é de filosofar sobre o sentindo da vida. Nem perde tempo com assuntos que não se originaram de alguma vivência sua. Devia haver algo novo, que tinha provocado aquela reflexão sobre o sexo oposto. Depois de algum tempo tagarelando sobre as pessoas “não lerem o Velho direito”, ela finalmente me contou. Tinha arranjado um hater, aquele tipo de pessoa disposta a encher a paciência dela em todos os posts. O que um hater teria a ver com Bukowski e Exupéry.?

– Lá pelas tantas ele me chamou de burra, que eu não sabia escrever e me recomendou que lesse o Velho!

Eu continuava sem entender o que uma coisa tinha a ver com outra

– Ele não parava de teclar. Ora me avacalhava, ora dava em cima. É a tática da depreciação.

Peguei uma caneta pra registrar as ideias.

– Tinha jeito de ser um desses caras que se separou já maduro. Aí pegou umas mulé, maltratou alguns corações femininos e com esse currículo mínimo já acha que tem carteirinha de cafajeste. Fica se achando. Aí resolve ler Bukowski, mas entende tudo errado.

Toda a mulher conhece a tática da depreciação. Tipos como esse que ela descrevia não são raros. Finalmente, a teoria fazia algum sentido.

– O cara deve pensar assim: olha esse escritor aí. Ogro, tosco, sujo, andando de cueca pela sala, bêbado como um gambá. Avacalhava as mulheres e elas ainda davam pra ele. O cara fica com a ideia que o Velho pegava bem por causa tática da depreciação.

Desliguei o telefone e fiquei pensando no assunto. Uma das coisas que me surpreendeu no primeiro livro dele que eu li foi a quantidade de mulheres com autoestima baixa pra encarar depreciação, falta de banho e alcoolismo, partindo do pressuposto que parte das histórias não tinha sido inventada. Sinto muito, amigo, talvez eu destrua suas ilusões, mas parte das histórias pode ter sido apenas inventada,  O nome disso é autoficção, um gênero literário.

Uma vez conheci uma musa de pintor gaúcho, uma mulher simples e de pouca instrução  que caiu nas graças de um artista. Não me ocorre de ter visto aquele brilho no olhar de outra mulher. Talvez inspirar um grande artista seja mais sublime que sentir-se amada. Talvez por isso, as mulheres suportassem a depreciação do Velho Hank.  Também por isso, na imensa maioria das vezes depreciação provoca o que deveria provocar: revide.

 

Os amores geográficos

 

 

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É quase lei que os amores eternos são os mais breves. Foi mais ou menos isso que o poeta uruguaio Mario Benedetti disse – a tradução é minha. E esse verso sempre me comove. Meus amores eternos me emocionam, às vezes até me doem. Alguns deles me fazem rir. Sou um animal andarilho,  uma cruza de tropeiro com bandeirante. Sofro de amores geográficos.

Pra mim os amores breves são de três tipos. Aqueles em que a gente toma um pé na bunda cedo demais (os que mais causam estrago na vaidade e o ego), aqueles em que o objeto de amor morre tragicamente (os mais dolorosos) e aqueles que a geografia apartou (os mais caros).  Entendo alguma coisa dos três, mas quero falar desse último.

A geografia é um troço bonito e ingrato, ao mesmo tempo. Bonito porque preserva o encanto intocado nesses amores, sem permitir a corrosão pela rotina e o tempo. Ingrato porque essa beleza faz com que a gente revisite essas histórias de tempos em tempos e seja tomado pela nostalgia. Faz com que esses amores pareçam melhores que os outros. Talvez isso os faça inesquecíveis.

Era frio. Era a cripta de uma igreja anglicana, era Londres, era jazz, era muçulmano. Elogiou minhas mãos e entregou seu cartão de visitas. Médico como eu, a conversa fluiu. De coração dolorido com final abrupto do meu casamento só percebi o que estava acontecendo quando ele disse que queria me levar para Paris. O tempo parou. Lembrei de Casablanca. Na cena seguinte um bandonion enchia de tango um cantinho da Trafalgar Square e eu flutuei de mãos dados com um desconhecido pelas ruas decoradas para o Natal. Durou trinta e seis horas. Até eu pegar o vôo para Porto Alegre.

Três meses depois, voltei para vê-lo. As coisas não foram as mesmas. Nem eu era a mesma naquela época de mudanças frenéticas. Era mais frio e eu andei pelas ruas de Londres desiludida e só. A sensação de flutuar perdida para sempre. Me permiti um dia de dor-de-cotovelo, apenas (as libras esterlinas me obrigaram a ser tremendamente objetiva). Entrei em um pub, sentei no balcão, pedi um Dry Martini. Pouco tempo depois, um novo convite para ser levada para Paris, muito parecido com o anterior. Num instante, tudo fez sentido.

 Quero te levar para Paris é uma cantada barata pra turistas em férias na Europa. Descobri que existe uma variante, quero te levar pra Veneza, quando a conversa gira em torno de culinária.  A menção a Paris não significa nada, como não significam as coisas ditas na maioria das cantadas. Servem para agradar o ego da gente, apenas. E gente finge que acredita – se estiver gostando. Um jogo. Acho que foi ali que decidi que não levaria a minha da vida amorosa a sério. Foi uma das melhores decisões que eu já tomei.

 

Oito considerações sobre etiqueta no mundo virtual

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E aí minha amiga Anajara me ligou tarde da noite. Com quase quarenta anos, ela é de um tempo em que a gente telefonava para o único telefone que existia, o fixo. Está sempre preocupada com amor.  (Sobre clitóris, memes e pókemons e  O Fetiche da Vírgula) Tinha mais uma história pra contar.

– Minha pegada visualizou a mensagem e não respondeu? O que ele está pensando? Isso é falta de educação.

Aprendi com ela, a pegada é mais ou menos a mesma coisa que ficante. Algo sem compromisso. Alguém para quem a gente pode chamar em um momento de carência, solidão ou split estragado no inverno. Anajara não gostou da minha opinião. Acho que as pessoas respondem mensagens quando puderem. A vida vira um inferno com tanto controle. Ficou mais brava.

– E tem mais: Ele nunca se despede, me deixa falando sozinha.

Sou um animal antigo, da época que Kurt Cobain era vivo. Desconfio que isso me torne incapacitada para entender certas coisa, entre elas a (falta de) etiqueta do mundo virtual. O próprio fato de eu pensar em etiqueta, que remete aos livros de boas maneiras revela o quanto eu estou despreparada para ele. Já fiquei muito ofendida com isso. Até entender que essa regra não existe. A gente aparece, desaparece. Reaparece. É assim mesmo. Ouvindo Come as you are, concluo que não estou entendendo nada.

Era tarde, eu estava cansada, mas Anajara queria papo:

– Dia  desses um serumano me adicionou  no Facebook. Um cara que eu nunca tinha visto na vida. Aceitei e ele escreveu bem vinda. Acho isso tão esquisito.

Ando invocada com isso também. Se eu não fui ao encontro daquela pessoa, por que me dar boas vindas? Mais estranho ainda quando a proximidade é desejada pelo outro. Como não sei o que responder, não respondo nada. Dia desses eu passei por uma situação semelhante. Aí o serumano perguntou.

– Não gostou que eu te mandei um convite de amizade?

E era pra eu gostar? Se eu não gostei, era de se perguntar? Eu deveria ter reagido de alguma forma? Ouvindo Lithium, não consigo entender qual era a resposta definida no protocolo. Novamente, respondi com silêncio. Veio a terceira pergunta.

– Por que tu não fala nada?

– Porque respondo perguntas objetivas, como essa última. É a primeira vez que alguém pergunta se gostei de ter sido adicionada.

Ao que o indivíduo respondeu.

– É a primeira vez que ninguém me escreve nada quando eu digo bem vinda.

Quase senti a indignação do outro lado. Desisti de continuar o colóquio. Levando em conta a estranheza do diálogo, tentei fazer algumas considerações.

Consideração um: ele deve estar certo. Sou um animal estranho, com dificuldade para entender as regras do diálogo virtual;

Consideração dois: talvez as boas vindas não façam sentido e o indivíduo se irritou por ter ouvido isso;

Consideração três: vai ver no dia todo mundo combinou é pra dizer “obrigada” para o estranho desejo de boas vindas, eu estava distraída (como de costume) e não entendi o que era pra fazer;

Consideração quatro: vai ver ele estava querendo me xavecar e eu não estava colaborando;

Consideração cinco: estar afastada do trabalho por conta de uma cirurgia  (tudo está indo muito bem, mas está sendo um exercício de paciência) está me deixando com tempo demais pra pensar bobagem – porque não fico trabalhando apenas no meu livro novo ou vou ler algo que preste?

Consideração seis: a dieta low carb está me deixando impaciente.

Consideração sete: não me pergunte se estou na TPM. Lembre da minha dieta low carb. Contrariar um animal faminto na TPM pode ser perigoso.

Consideração oito: a paquera no Facebook consegue provocar diálogos mais estranhos que aqueles dos aplicativos de relacionamento. Lá, ao menos as intenções são claras

Consideração nove (extra): quando a gente esta sem assunto, escrever uma lista de qualquer coisa (considerações, inclusive) é um ótimo recurso pra escrever uma crônica. Se o seu site favorito vive de postar listas, eles não devem saber como escrever uma crônica de outro jeito.

 

O Fetiche da Vírgula

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Prezado amigo. Quer se dar bem com o sexo oposto? Ser irresistível? Esqueça a barriga tanquinho que cerveja não lhe permite adquirir. Aprenda a usar a vírgula. O novo Don Juan, o sedutor do século XXI, além de ir para a academia necessariamente precisa manjar dos paranauê da gramática. Nos Estados Unidos, trinta por cento dos casamentos no ano passado iniciaram com contatos na internet. Se a sua paquera pela internet vai mal, amigo, o problema talvez esteja na forma como escreve.

Uma vez que a primeira abordagem é escrita, aqueles habilidosos com as palavras levarão vantagem em relação aos outros. Pouco adianta aquela barriga trabalhada se nas primeiras frases o candidato trocar o S pelo Z. “Oi princeza!”. Erros ortográficos grosseiros podem transformar a mulher mais disposta ao amor numa bruxa enlouquecida na TPM. Um dia a medicina ou a psicologia irão estudara influência da ortografia na libido feminina.

A primeira vez que me apaixonei em tempos internéticos, foi por um adorável canalha, habilidoso com as mãos e as vírgulas.  Não falo em um domínio estrito das orações coordenadas e subordinadas, mas de um domínio intuitivo do ritmo da língua portuguesa. Findado o romance e curando a dor-de-cotovelo, aprendi nos meses seguintes sobre as regras amorosas do século XXI e, confesso, senti mais falta das vírgulas que das mãos.

Segundo Anajara, aquela minha amiga que vive preocupada com o amor Sobre clitóris, memes e pokémons o problema é mais sério que entender-se com o sinuoso sinal ortográfico. Dia desses ela me ligou:

– Estou traumatizada.

Perguntei o que tinha havido.

– Engatei um papo com um cara que me adicionou no Facebook, três frases e eu já tinha me arrependido. Disse que não queria mais falar com ele. Continuou insistindo. Repeti que não queria. Aí ele escreveu. “não gosta de mim, pode mim bloquear”

Ela fez uma pausa dramática.

– Foi pior que se ele tivesse me mandando a foto da piroca que eu não tinha pedido pra ver.

Politicamente incorreto? Pois é, quer troço mais politicamente incorreto que libido? Sua própria existência desafia o ordenamento do mundo. A gente gosta do que atiça. Já ouvi inúmeras histórias de mulheres que desistiram (com pesar) de conversar com um homem bonito porque a quantidade de erros de português esfriou o papo. Os memes estão por aí.  Pra mim, um texto com vírgulas bem colocadas é quase fetiche – desde que o indivíduo não esqueça dos “Rs” no final dos verbos. Do outro lado o problema também existe: amigo meu desistiu de conversar com uma guria, ansiosa demais pelo primeiro encontro, quando ela sugeriu lá pelas tantas. “Quem sabe se vemos na Redenção?”

Pensando em escrever sobre o assunto, fui conversar novamente com Anajara, talvez ela me ajudasse a organizar as ideias. Aparentemente já tinha superado o trauma, pois me contou que tinha um novo crush. Ela me ajudou pouco, porque já estava metida numa nova reflexão. Embora considerasse minha ideia um bom tema pra crônica, ela recomendou muitíssimo que me ocupasse de temas mais urgentes e incompreensíveis do mundo virtual, como escrever sobre a mania que alguns homens têm de mandar fotos da própria piroca. Sensibilizada com o apelo, anotei a sugestão.

Uma solução para os problemas conjugais

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–   A senhora sabia, Doutora? A porta do meu barraco não tem tranca, fica encostada. Quando eu ia trabalhar, dizia que se encostassem um dedo nas minhas meninas, eu matava.

Berenice arregalou os olhos. No mundo violento em que vive, assassinatos são comuns. Berenice tem insônia  . Sempre tem uma história nova. Uma delas rendeu inclusive o título do meu livro. o-marido-perdido/    Em seguida, mudou o tom da conversa.

– É que lá no morro todo mundo me respeita…

Fez uma pausa, como se tentasse encadear o que estava contando.

A senhora sabe que eu a coisa andou feia lá em casa? Mês passado quase passei fome. Aí eu pedi um dinheiro para o Luis Carlos. Sabe o Luis Carlos, Doutora?

Não eu não sabia, mas não vinha ao caso. Nas reflexões sobre a vida de Berenice eu sou apenas um ouvido. É daquelas pacientes que consultam porque precisam entender a própria vida.

– O Luis Carlos foi meu marido. Morei com ele depois que fiquei viúva. O nego era bom, me ajudou muito pra criar as meninas. Até hoje é apaixonado por mim.

– E o casamento acabou por quê?

– Tinha um defeito triste…

Esfregou o dedo indicador no polegar.

– Jogo? Caça níqueis?

– Isso. A maquininha aquela. Tinha uma no boteco no pé do morro. Eu achava estranho, porque volta e meia ele voltava sem dinheiro, dizendo que tinha sido  assaltado. Daí eu perguntava para os assaltantes do morro – eu sou amiga de todo mundo, né, a senhora sabe – e me diziam. “Nega, pra esses lados não tá dando assalto, se fosse mais para baixo ou mais para cima…” Um dia, resolvi seguir o Luis Carlos. Vi entrando no bar e comprando as fichas. Pensei uns dois dias o que eu ia fazer. Aí passou “Tropa de Elite” na TV. Resolvi o problema com álcool.

Eu não sabia se podia, me deu vontade de rir. Ponderei que Luis Carlos ainda estava vivo, então não deveria ser tão grave.

Gastei cinco pila numa garrafa de álcool. Mais dois pila num isqueiro do Paraguai.

– Álcool líquido ou gel?

A história era boa demais, eu precisava de todos os detalhes.

– Claro que é líquido, né Doutora? Pensa um pouco! Não assistiu Tropa de Elite?

Assistir, eu tinha assistido. Mas não estava entendendo.

– Cheguei no bar e fui perguntando por ele, dizendo que ia matar. E eu queria, Doutora. Estava louca de raiva. Aí um homem que estava lá, ficou me tirando. “Sai daí que mulher aqui não entra, quero ver tu continuar aqui. Te coloco pra fora.”

Fiquei mais louca ainda. Joguei álcool no chão e atirei o isqueiro em cima da poça maior. Pegou fogo em todas as poças de álcool, Doutora.

Berenice ria, divertida. Eu ri também. A essas alturas a formalidade do jaleco tinha ido para o espaço sideral.

– E o Luiz Carlos?

– Saiu correndo, apavorado. E os outros homens começaram a apagar o fogo.  Eu fui embora, bem calma.

E o que aconteceu depois, Berenice?

– O dono do bar veio me cobrar o prejuízo. Eu disse que não tinha queimado nada, que quem queimou tudo foi o álcool. E que ele tinha sorte de eu não avisar a polícia da maquininha de jogo. O Luiz Carlos me largou, pra todo mundo ele dizia. “Eu amo a Berê, mas a nega é louca”. Por isso a porta do meu barraco não tem tranca, Doutora. Todo mundo me respeita.

Era uma solução criativa para dirimir determinados conflitos conjugais. Mas, aqui entre nós prezada amiga, mesmo que tenha considerado a hipótese por instante (assim como eu), não tente fazer isso em casa. Berenice mora num barraco sem tranca numa das vilas mais violentas da cidade. Consegue ser respeitada ali. Para uma mulher que sobrevive a tiroteios, estourar um isqueiro numa poça de álcool deve ser até lúdico.

O galanteio

 

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Cena1: É domingo e eu entro no edifício onde moro. O elevador chega. Ela abre a porta e sorri: Primeiro as damas. Retribuí o sorriso e entrei. Trocou comigo duas ou três palavras afáveis antes de descer no segundo andar. Morando na Cidade Baixa, estou habituada a cantadas de ambos os sexos, mas não entendi bem o que ela queria com aquela gentileza. Cena2: Amiga minha me contou que um colega de trabalho que chegava das férias elogiou sua pele.

Em nenhum dos dois casos quem fez o elogio tinha qualquer intenção de levar a coisa adiante. Essa é a diferença entre galanteio e e cantada. Às vezes a cantada também não tem uma intenção específica, mas é mais direta e descarada, ao passo que o galanteio se caracteriza pela elegância e gentileza. O que move, então o galanteador?

Talvez o galanteio seja um fim em si mesmo e faça muito bem a quem tem o hábito de fazê-los, já que é algo dado generosamente. Puxando pela memória, percebi que os homens mais galantes que eu conheci têm excelente autoestima. Para o galanteador do mesmo sexo, talvez funcione também como uma forma afirmação da identidade sexual. Algo como: não estou jogando agora porque não quero, mas tenho condições de estar no jogo quanto qualquer um.

Longe de mim fazer apologia aos tempos em que ser mulher era mais difícil, mas tenho que confessar: sou capaz de me derreter com um galanteio bem feito. Tenho medo que relações virtuais, as inúmeras possibilidades e nossa pressa estejam ameaçando a gentileza de extinção.

Aos galanteadores, meu apelo. Insistam. Às galanteadoras, repito o apelo. Insistam, mesmo sob o risco de rechaço. Em tempos de selfies curtidos de qualquer jeito e elogios virtuais a belezas inexistentes, acho que precisamos mesmo é do agrado genuíno, aquele que nos torna únicos. Pra mim, esses instantes trazem beleza à vida, e a beleza anda rara.

Portanto, amigo ou amiga, ao receber a pequenina joia que é um galanteio num dia cinza, agradeça, se a timidez não impedir. Sobretudo sorria. É possível que um sorriso salve da extinção o galanteio derradeiro, aquele que seria último.

Somos todas iguais

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Berenice é a melhor contadora de histórias que eu conheço.  (leia http://deusmelivreserbege.com/2015/12/21/o-marido-perdido/ e http://deusmelivreserbege.com/2015/12/21/o-marido-perdido/

– Doutora, a senhora sabe a promoção da ótica Silva, lá para os lados de onde eu moro?

Não, eu não sabia.

– Se a pessoa junta cupons de compra no valor de quarenta e oito reais pode trocar por uma armação de óculos. Aí só paga as lentes.

Fiquei me perguntando como funcionava a tal promoção exatamente, mas ela continuou.

–Fiz faxina por todo o morro pra ganhar os cupons dos vizinhos. Lá na ótica a vendedora me disse. “Os que dá para trocar pelos cupons estão aqui nessa parede.” Como é que pode, Doutora, era tudo óculos feio. Eu até disse pra mulher: “Bem que vocês podiam ter escolhido uns óculos melhorzinhos, né?” A gente já não é bonita,  já não enxerga direito, aí coloca esses óculos e fica parecendo um filhotinho de cruz-credo.  Voltei pra casa triste. Aí minha filha me ajudou com um dinheiro pra comprar um óculos melhor. Fiquei até bonitinha.  Neguinho lá na vila vai até notou. A senhora sabe que eu me dou bem, Doutora?  Tenho um bom papo. É tomar uma cerveja comigo, eu passo a conversa e pego mesmo. Vacilou, se distraiu, termina lá no meu barraco. Pego uns bichinho até bonito. Porque homem tem que ser bonito, né?

Como eu iria discordar dos objetivos critérios de Berenice a respeito do sexo oposto? Apesar do oceano de diferenças entre a minha vida e a dela, Berenice me faz pensar o quanto somos parecidas. Sim, os artigos em liquidação são mais feios que os que estão fora dela, e a gente quer os que estão na prateleira ao lado. Sim, é (bem) melhor que o homem seja bonito. Sim, quem tem bom papo leva vantagem no jogo da sedução. E finalmente, independente do bolso ou da coordenada geográfica, em se tratando de amor e sexo, autoconfiança é quase tudo.

Sobre clitóris, memes e pokémons

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Dia desses postei um meme que vi não-sei-onde. “ Quem sabe encontrar clitóris, não perde tempo procurando pokemon.” Muitas curtidas, vários compartilhamentos, convites de amizade. Mensagens inbox dos constrangidos em curtir o post publicamente. Concluí que crônicas são um atrativo fraco atrativo perto de memes de duplo sentido. Até pensei em largar tudo fazer outra coisa da vida, me alistar na Legião Estrangeira ou me converter à religião da batata doce, mas tive preguiça. Juntar os documentos para o alistamento ou sair pra comprar batatas me pareceram demasiado esforço. Sem contar que eu ainda teria fazer a inscrição ou ir pra cozinha.

Já que ganhei mais curtidas que em posts sobre bichinhos abandonados, George Clooney ou xingamentos para a Dilma, concluí que as pessoas estão mais interessadas em encontrar clitóris que em qualquer outro assunto. Resolvi continuar lutando da minha trincheira de cronista-blogueira desconhecida, dessa vez munida de novas armas. Fui conversar com a minha amiga Anajara, a pessoa mais preocupada com assuntos de amor e sexo que eu conheço.

Segundo ela, parece que as pessoas perderam o mapa de localização desse órgão feminino e não sabem mais onde fica. As regras rígidas do Facebook para abordar temas sexuais me impedem de ser específica e nem eu pretendo ofender os espíritos mais sensíveis. Mas diria que encontrá-lo é mais ou menos como saber a senha de acesso a um lugar misterioso. Dá para entrar sem senha,  mas a estadia e os tesouros oferecidos são infinitamente mais generosos para aqueles que dominam o código.

Estranhou a conversa, amigo conhecedor da anatomia feminina? Saiba que em tempos de internet, relações líquidas e Pokemons, a dedicação para mapear o caminho está cada vez menor, segundo Anajara. Para o amigo que se sente completamente perdido no terreno desconhecido, esclareço. Não adianta procurar no Google ou usar bússola. Não perca seu precioso tempo na Wikipedia. Cada território precisa ser mapeado centímetro a centímetro, sem pressa. Ou preguiça.

 

Aos que têm certeza absoluta que dominam qualquer mapa, uma ressalva. Às vezes sabem tão pouco quanto os assumidamente perdidos e dispostos a receber algum auxílio objetivo.  E pra terminar, o último comentário da minha amiga Anajara: tenha em mente que a região é pequena e a sensibilidade é muito maior que a do equivalente masculino. Clitóris não é campainha. Não é pra sair apertando.