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dos aniversários

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obs: texto escrito em 05/08/2015, o dia em que iniciei o blog

Agosto me faz pensar sobre resiliência. É frio, desafia meu comodismo. Vezenquando testa meus limites. Há 4 anos meu casamento terminou abruptamente, no início de agosto. Levei cartão vermelho sem levar um amarelo antes. Achei que ia morrer. Na verdade, eu não sabia o que era quase morrer até então.

Há exatamente um ano atrás, minha família me levou para a emergência de um hospital após um acidente. Correndo risco de vida, sem diagnóstico, confusa e esperando o médico que assumiria meu caso – aquilo sim era quase morrer. Apavorada, deitada numa maca eu pensava por que diabos eu tinha que mudar de lado? Camisola de paciente ao invés de jaleco? Socorro!

A frivolidade é um mecanismo de defesa poderoso e eu dizia para os médicos que precisava de três coisas: uma coca-zero, um secador de cabelo e meu estojo de maquiagem, para a diversão dos funcionários da emergência. Eu dizia isso porque era mais fácil do que perguntar se eu minhas condições neurológicas me permitiriam trabalhar.  Será que eu poderia voltar a ser médica? Tentei em vão acompanhar as  discussões dos médicos sobre os casos da emergência. as palavras me era familiares, mas não se encaixavam. Do meu caso, entendi apenas que era grave; tudo era lento demais dentro do meu cérebro. Foram 48 horas até que eu conseguisse pensar claro por algumas horas. De longe, as piores da minha vida – tanto que ainda hoje preciso falar nelas.

Como era inacreditável que eu tivesse sobrevivido, fui submetida a uma bateria de exames digna de Dr. Gregory House. Virei paciente de seriado médico. As hipóteses diagnósticas mais estranhas e improváveis foram testadas, apenas para comprovar que eu não tinha nada, apenas tinha sofrido um acidente – daqueles que pouca gente consegue contar a história.

Ainda hoje, continuo perplexa. Só me resta ser grata, ganhei uma segunda chance, um segundo aniversário. Antes eu era de Touro. Agora acho que sou de Leão.

A Nega Ju e o Inverno

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Todo o hospital tem alguns personagens que desafiam a dor, a desgraça, os uniformes brancos e são desbragadamente coloridos. A Nega Ju é uma das minhas preferidas. Faz questão de ser chamada assim desde os tempos que eu era médica residente. “Bom dia, eu sou a Nega Ju, a técnica de enfermagem que vai cuidar da senhora hoje.” A Ju conhece todo mundo, presta atenção em todo mundo e para todos tem um gesto de afeto. Uns anos atrás a Nega Ju topou comigo no corredor, abatida e sem maquiagem. Eu estava recém separada e de coração partido.  Naquele ano eu estava de plantão no dia 13 de junho e a Ju, sempre preocupada com o amor, me trouxe um pãozinho de Santo Antonio . Mas não era bem isso que eu ia falar. Estávamos a Ju, a ascensorista e eu no elevador, há duas semanas atrás.

– E esse frio, Doutora?

– O bom do inverno é que ele acaba, Nega Ju.

A ascensorista entrou na conversa

– Inverno só é bom pra rico, Doutora. Tem dinheiro, vai tudo pra Gramado, tomar vinho. Aí é bom. Pra quem pode ir para Gramado, o inverno é ótimo.

– Ou para quem foge para o Rio – respondi pensativa

A Nega Ju riu

– Ah! Salvador é muito melhor! Imagina nós lá: aquele calor, o sol, a música e bem abraçada em um negão bonito e sarado.

Deu aquela gargalhada de que apenas as pessoas muito felizes são capazes, aquecendo a manhã fria, como que convidando a gente a rir com ela .

– Bem melhor, né Doutora?

O elevador parou no segundo andar e a Nega Ju desceu, me poupando de dar uma resposta (honesta) na frente da ascensorista, que eu mal conhecia. Continuamos a subida.

– A Nega Ju pensando maldade e nós as duas só pensando em fugir do frio, né Doutora?

– Pois é… – respondi sendo propositadamente vaga.

(na minha cabeça, só rodava a musiquinha antiga: I don´t want to stay here/ I wanna to go back to Bahia)

 

Striptease

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Escrevo crônicas porque elas me brotam da cachola. Ao escrever contos e artigos científicos sinto como se estivesse fazendo ourivesaria ou correndo uma maratona…  Dia desses embestei em publicar minhas crônicas. Algumas dúvidas me assaltaram. Quando a gente sabe que aprendeu a escrevê-las? Como sabe que chegou a hora publicá-las?

Acho que publicar um livro lembra um striptease , e de certa forma, vou revelar minha nudez. Tenho que entreter a audiência, que pode me abandonar se o show for ruim. Mostrar o que é bom é fácil, mas meus defeitos, erros gramaticais, obviedades seriam como estrias e celulites – tudo exibido, sem cortes ou censura.  O striptease já acontece no blog, mas é fugaz e lembra o snapchat: a platéia é conhecida e o texto é rapidamente engolido pela pela blogsfera.  De pensar no assunto, cheguei a conclusão que escritores e strippers tem algumas coisas em comum, ao menos no Brasil: são pouco valorizados, possuem uma platéia restrita e sofrem a concorrência desleal da web. Mais um pouco e eu proponho um sindicato comum. No mínimo, renderia boas histórias e festas concorridas.

Os originais estão na diagramação e eu me sinto como uma dançarina amadora que não domina a coreografia da pole dance, mas quer o show.  Misturo euforia e insegurança – tudo ao mesmo tempo. Fico com medo. Penso no espumante do dia do lançamento – espumante empresta glamour para o que quer que seja. Revejo a lista de pendências: o mastro me aguarda, o palco está sendo preparado. Outro ataque de medo. Tento me distrair pensando na roupa que vou usar. Lantejoulas e canutilhos estarão proscritos do traje em questão, e a minha família respira aliviada… Afinal, pretendo tirar a roupa no papel, mas em prol da moral e dos costumes convém que eu chegue – e permaneça vestida.

 

A travessia

Foi um ano tumultuado demais, até mesmo para a minha inquietude. Um rio caudaloso onde não deu pé a maior parte do tempo, boiar foi necessário para a sobrevivência e abrir mão do pódio foi fundamental pra chegar inteira na outra margem. Minha família e meus amigos continuaram sendo minha reserva de sanidade, bom humor e afeto. Travessia quase findada, não haverá tempo para mandingas e sortilégios. 2016 vai ter que entrar do jeito que dá e do jeito que ele é. As boas intenções vão ser as mesmas de sempre: diminuir o chocolate, largar de vez a Coca Zero, beber mais água, cuidar melhor da saúde. Manter a vida o mais simples possível e acreditar que posso fazer meus sonhos a realidade. E cultivar os afetos, sempre que der no jeito. Pra todo mundo, um 2016 melhor que 2015. E que a vida possa ser vivida em sua plenitude. Feliz Ano Novo aí gente!