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Crônica de bar, calçando havaianas

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Eu era o único par de havaianas ali. Tinha dado sorte. Era o dia 08/11, eu estava em Miami e as pessoas aguardavam ansiosamente os resultados da eleição americana – ainda incertos. Antes disso, eu tinha parado em uma aglomeração de rua, onde havia uma transmissão de TV. Eu queria olhar o povo, mas um democrata estragou minha alegria. “A CNN vai ao ar em três minutos! Vamos sorrir, vibrar, bater palmas”. Uma das poucas coisas que não gosto nos americanos é o falso entusiasmo. Acho que não sou a única. A pequena multidão dispersou. Também não aplaudo políticos brasileiros, nem gringos. No máximo tomaria umas cervejas com a Merckel.

Mas não era disso que eu queria falar. Eu ia pela rua, gostei da música, entrei, feito cachorro que encontra a porta aberta. Ninguém me olhou – o que significava que o bar era seguro para uma mulher sozinha. Sentei no balcão, observei alguns olhares com o canto dos olhos. Pedi um black label. Pedir uma bebida forte é uma boa medida para afastar curiosos. Eu queria olhar, apenas. Sem ser importunada. Fora do Brasil, uma mulher pode fazer isso.

Um DJ mandando bem, dois barmen, dois telões com a apuração da CNN. Com exceção do DJ, dos democratas de camiseta azul e do barman de braços tatuados, os outros não tinham jeito de brancos americanos. Também não tinham jeito de turistas europeus. Eram negros e latinos, os primeiros calçando tênis coloridos e usando correntes, e os últimos calçando sapatos e usando camisas – com dois ou três botões próximos ao colarinho deliberadamente desabotoados.

A música era boa e eles começaram a dançar. Hispânicos gostam de dançar, como os homens das minhas origens na fronteira. Mais uma dose e eu levaria as minhas havaianas – loucas para bailar – pra pista, mas eu não podia me demorar. Meu voo no outro dia era cedinho.

Olhando para os meus pés em estado deplorável depois de uma semana de mar e caminhada, o esmalte vermelho em petição de miséria, novamente pensei que tinha dado sorte em ter entrado num bar de locais. Perdi meu pai na adolescência e ele me aconselhou várias vezes a observar os sapatos das pessoas, para saber de onde vinham. “Morro de medo que tu engrace com bagaceira, filha.” É um dos poucos conselhos de que me lembro, porque sempre achei engraçado. Ele era um homem de outro tempo e nós tínhamos valores muito diferentes. Ainda assim, quando tenho dificuldade para entender um ambiente, me pego olhando para os pés das pessoas.

 

Sobre zoológicos, latinas, o cóccix e questões afeitas às três matérias.

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Era o tipo do bar em que a gente se pergunta se deveria levar a própria mãe. Espiei a minha com o canto dos olhos. Habituada ao carnaval carioca e assídua na Sapucaí, tirou de letra. Tinham me dito que era um bar de salsa, mas quando cheguei bailarinas rebolavam freneticamente em um palco. Em seguida começaria o show masculino. Lembrou o Valen, o bar erótico em Porto Alegre. Mas esse era mais divertido. E mais caro. Aparentemente tudo ali estava à venda. Ou quase tudo.

Mais que observar gente seminua dançando com muita ou pouca convicção o divertido observar era olhar fauna variada de todos os cantos do planeta. Um zoológico. Todos eles bárbaros da horda dos turistas, como eu. Se para mim eles pareciam ele engraçados dançando salsa, eu deveria ser exótica aos olhos deles também. Afinal, a falsa loira bronzeada é um animal exclusivo da fauna brasileira, abundante na Província do Rio Grande de São Pedro. Estranhou minha afirmação peremptória, amigo leitor? Se considerarmos os opcionais de fábrica, o animal em questão só existe no Caos brasilis.

Os bárbaros sempre pensam que se misturam ao povo local e estão entendendo tudo.  Como era um bar de salsa, a fauna se sentia muito, mas muito sexy. Portanto, uma vez que todos nós nos tornávamos irresistíveis apenas porque tocava Fiebre, era natural que todo o resto do planeta estivesse disposto a uma abordagem. Aliás, amigo do sexo oposto, uma digressão oportuna. Quer a atenção de uma mulher? Não chegue pegando, abraçando, não invada o espaço físico. A menos que claramente indicado.  Obrigada. De nada.

Mas não era bem isso que eu queria falar. No palco, a minha frente uma mulata de cabelo platinado rebolava. Eu, invocada. O uniforme era um macacão tigrado, justíssimo, daqueles tecidos que deixam transparecer até celulite que a gente vai ter na próxima encarnação. Mas o que me deixava cismada não era a falta de celulite ou a bunda empinada que parecia apontar para o espaço.

Elas dançavam, rebolavam, agachavam. O macacão não saía do lugar. Os homens, urravam. Eu, encafifada, pensava se conseguiria fazer a pergunta que me esclareceria a questão em inglês ou espanhol.  Nenhuma delas era brasileira. Tinha algum adesivo segurando a roupa? Colchetes? Como era possível?

Eu tinha passado a tarde no provador de uma loja testando todas as modelagens de jeans curvy  de cintura alta (leia-se calça para mulheres bundudas) até encontrar um modelo que não me fizesse parecer saída de um baile funk se precisasse me abaixar para pegar algo no chão. E a mulher, impávida, rebolava agachada num macacão barato, que não saia do lugar, exibindo precisamente o cócix, sem exibir nada mais. Saí do bar tão invocada quanto entrei. Pensei em inúmeras construções frasais, mas não consegui pensar numa maneira de dizer “cofrinho” em inglês ou espanhol.

 

Aeroporto Berlim

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Coloquei meu casaco e minha bolsa na esteira de raio X. Fora dela um saquinho plástico transparente com todos os líquidos que eu carregava na bolsa (colírio, desodorante, creme).  Tudo organizado para não perder tempo. Estava em cima da hora. Parei em frente ao detector de metais. Apontei para os pés, como quem pergunta se precisa tirar os sapatos – não falo alemão. O segurança fez um sinal para que seguisse em frente.  O alarme do detector disparou e quatro policiais me cercaram. Era um exagero, mas o aeroporto estava em regime de segurança máxima dois dias após o atentado em Paris. Fui logo descalçando as botas e explicando.

– Devem ser as botas. As botas brasileiras sempre acionam detectores de metais.

O alemão não entendeu nada. Uma vez em Guarulhos um policial me disse que as botas brasileiras são de excelente qualidade e têm metal no solado, por isso acionam o alarme do detector de metais.  Descalça, passei pelo detector e alarme acionou novamente.

Duas policiais vieram me revistar.  Dei graças a Deus por estar em um país civilizado – não ia querer passar por uma situação assim num país bagunçado. Uma policial começou a me revistar e a outra tinha um detector de metal na mão.   O alarme do detector não parava de apitar.  E eu não estava entendendo nada.

– Isso é muito estranho – ela disse – é como se tu estivesses cheia de metal no corpo – e eu não carrego nem alicate de unhas pra não perder tempo na segurança.

Até era engraçado, mas eu estava desconfortável. A Europa em regime de segurança máxima e por algum motivo eu resolvo acionar o detector de metais. Prestando atenção ao detector, me dei conta que o alarme era acionado no tronco e ficava silencioso nos braços e nas pernas. Resolvi arriscar uma explicação, a única que me ocorreu.

– Deve ser o meu body.

Um body é algo como um maiô usado por baixo da roupa, feito de lycra ou material semelhante,  para que roupa usada por cima caia melhor. Por algum motivo, o body  de marca brazuca obscura que eu estava usando deveria ter metal – ao menos era parecia ser isso.  A marca obscura, que eu compro numa loja popular, é a minha preferida. Uma das policiais entendeu o que eu estava tentando dizer e explicou em alemão para a outra. E deram a revista por encerrada.

Sentei em um banco, calcei minhas botas, amarrei meu casado na cintura e quando eu levantei vi uma das policiais ao meu lado. Ela olhou para os lados, baixou o tom de voz e perguntou qual era a marca que eu estava usando e se era brasileira. Cheia de pressa, respondi as duas perguntas. Em seguida ela perguntou se realmente modelava a cintura. Achei mais fácil não dizer para a autoridade germânica que a cintura brazuca era mais uma questão de genética do que de qualquer outra coisa – não se consegue uma cintura malhando na academia. A explicação ia dar muito trabalho.   Respondi apenas que sim.  Nesse instante, começou a última chamada para embarque do meu vôo. Pedi licença e saí (literalmente) correndo.

Quando cheguei no portão,  todos os passageiros tinham embarcado, mas ainda estavam se organizando. Sentei na poltrona, afivelei o cinto de segurança, respirei fundo e comecei a me divertir com a história. Se o detector estava com problema ou se o modelador tem metal mesmo eu não sei. Decidi não perguntar para o fabricante. Vai que eles mexam na estrutura da peça?

Liberdade

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– Mulheres auto-confiantes, inteligentes e sensuais são muito poderosas na nossa cultura. E eu acho que gosto disso.

Me disse um alemão com quem eu batia papo em um pub em Berlim. A frase poderia ser muito bem uma cantada, mas não era. Aliás, se ele dissesse isso para uma alemã tentando cantá-la ela provavelmente acharia que ele é um idiota. Ouvi essa frase mais de uma vez, de uma forma ou outra, nas duas semanas em que viajei pela Europa e perguntei para as pessoas sobre o terrorismo e a questão dos refugiados sírios. Era um dia triste, o dia seguinte ao do atentado que matou 129 pessoas e feriu outras tantas em Paris. Ele continuou.

– Além dos assassinatos com extrema crueldade, quando eu penso no terrorismo e nessas formas radicais religiosas o que mais me deixa mais angustiado é a forma como as mulheres são tratadas – como se fossem objetos, para serem estupradas ou para que um homem tenha várias delas.

Resolvi fazer uma pergunta:

– Tu achas que a Alemanha tem que deixar de receber os imigrantes sírios? Não existe o risco de esses valores se perderem?

Ele sequer me deixou continuar, me interrompeu prontamente:

– Nem pensar! Acho que a política atual da Alemanha está correta. Aceitar a pluralidade, as diferenças e a igualdade de gênero faz parte dos valores europeus. Eu sou europeu e não recebê-los é negar os nossos valores.

Enquanto eu processava o que ele tinha dito, chegou o amigo dele tunisiano e eu fiquei me perguntando o que ele pensava dos atentados, mas perguntar seria grosseiro demais. Achar que todo o árabe tem obrigação de se manifestar porque um grupo de terroristas matou um monte de gente é achar que todo o árabe é terrorista. Lá pelas tantas ele perguntou qual era a minha religião. Acho que queria falar sobre isso:

– Meu pai é agnóstico e eu também sou.  E na minha família os homens não fazem coisas estúpidas. Não praticamos a poligamia há três gerações, tanto os agnósticos quanto os crentes no profeta.

Aí chegou mais gente e sentamos todos em uma mesa.  Num instante eu me sentia sozinha e puxei papo no balcão do bar e no instante seguinte tinha arrumado uma turma de amigos para sair naquela noite, coisa que só acontece quando a gente viaja só. Ninguém achou estranho eu viajar sozinha. Nem achou que eu sou corajosa. Aliás ninguém achou nada porque as alemãs viajam sozinhas e cuidam de si mesmas há muito tempo. E não tem nada de estranho em uma mulher sentar sozinha em um balcão de bar. Nem de permanecer sozinha no balcão. Nem de pegar o metrô pra casa voltar da balada.  E nem de pagar a própria conta.  Liberdade tem um custo, inclusive financeiro.

O atentado me deixou engasgada porque aconteceu num daqueles momentos em que eu me sentia mais livre. Na Europa uma mulher viaja sozinha, senta num pub sozinha, caminha à noite sozinha – para mim, a sensação de liberdade suprema. Poucas coisas me deixam tão feliz quanto o direito de caminhar sozinha à noite.  Uma mulher faz o que quer na Europa e isso é inaceitável para os terroristas, como tantos outros dos nossos valores.

A desproporção de força entre homens e mulheres é real e o entendimento de que o tempo das cavernas deve ser superado é realidade apenas nos países mais evoluídos. Mesmo no Brasil, o avanço da liberdade das mulheres parece ser apenas uma concessão feita à contragosto. O país foi simplesmente incapaz de discutir a violência contra as mulheres provocada pela escolha do tema na redação do ENEM. Discordo radicalmente da existência do ENEM e não gosto da Simone de Beuvoir, mas partir desse ano não vou poder mais dizer que é um exame que não serve pra nada. Serviu pra provocar e a reação predominante foi a de ironia. A sociedade não conseguiu debater o assunto. Gosto de pensar que a reação foi um reflexo da impopularidade do atual governo e não uma proximidade tão grande com o tempo das cavernas.

Estou longe de ser feminista, mas liberdade é o meu bem mais precioso. Paris não é o melhor lugar pra se viver e nem é um lugar assim tão seguro, mas é um símbolo de valores de autodeterminação,  justiça e liberdade.  Quando terroristas atacam Paris, além da dor que eles causam nas famílias eles atacam frontalmente esses valores, que são preciosos para um mundaréu de gente.  Quando Paris é atacada por terroristas que utilizam o estupro como prática religiosa eu sinto como se os poucos lugares do mundo onde uma mulher pode ser realmente ser livre esteja correndo o risco de deixar de existir. Tem dias que são tristes demais.

 

 

O calendário romano

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Quando vi, não acreditei. Parei da banca de jornal pra perguntar se era o que eu estava pensando.

– É o calendário romano signorina.

Desde 2003 o fotógrafo Piero Pazzi escolhe padres bonitos pelas ruas de Roma para posar para o calendário. Segundo o seu autor, o calendário não tem o objetivo de despertar instintos pecaminosos nas pessoas e sim divulgar o Vaticano. Amém!

Na profunda e imparcial pesquisa que eu fiz em meia hora de navegação, descobri o calendário virou febre entre a comunidade gay. Descobri também que não era um calendário oficial do Vaticano e pelas ruas de Roma o calendário é chamado de “Calendário dos Padres Sexies”. Descobri também que existe um projeto para um calendário semelhante dos padres católicos ortodoxos. Aguardo ansiosamente. Só não descobri se o dinheiro é revertido para a Santa Sé. Não tenho nada contra, apoio total ao projeto.

Enquanto eu pensava se comprava ou não jornaleiro perguntou de onde eu era. Ao virar a contracapa, comecei a rir, vendo a foto acima. Doze padres bonitos, cada um ilustrando um dos meses do ano.

– Gostou de algum deles signorina? Me diga qual que eu telefono e chamo pra vir aqui. Agora.

Ele pegou o celular e repetiu a pergunta. Resolvi entrar na brincadeira.

– Não posso signore! É pecado! Tenho medo de ir para o inferno.

Aí ele respondeu em italiano, olhando firme.

– Inferno mesmo é uma mulher bonita.

Impossível ter a última palavra com um italiano. Quando a gente acha que vai conseguir, eles apelam pra cantada. Eu ri, paguei  meu calendário e continuei meu caminho.

Realmente tinha me chamado atenção padres que usam jeans ao invés de calças formais. Achei descoladíssimo. Mas não tinha visito nenhum padre assim tão bonito – há um bocado de Apolos em trajes civis pelas ruas.  E vai ver tenho me distraído demais olhando os Faunos e Sátiros pós modernos.

Luz Vermelha II

 

E aí eu perguntei pra vendedora da Sex Shop no Bairro da Luz Vermelha para o que servia um creme com a embalagem estranha.

– É para a depilação.

Hã? Eu pensei. Pra que diabos é o creme? Os pelos caem milagrosamente? Faz a pele mudar de cor? Será que fica fluorescente? Vai saber, em se tratando de Amsterdã tudo é possível. Pedi que ela me explicasse.

– É pra doer menos.

Os holandeses tiram onda com os turistas sem dó. É a gente fazer uma pergunta idiota que ouve uma gracinha. Perguntei no aluguel de bicicletas se eu conseguiria ir até o parque pedalando e o “serumano” respondeu que dependeria da minha capacidade de não provocar um acidente. E continuou se divertindo enquanto eu penava pra subir numa bicicleta muito alta pra mim – os holandeses são o povo mais alto do mundo, segundo a Wikipédia.

A depilação completa é uma invenção brasileira. Algumas europeias sequer depilam a axila. Aproveitei a ocasião para tirar onda também.

– Dói tão pouco, não precisa de creme. Sou brasileira, lá ninguém dá bola pra isso…

A mulher fez uma careta.

– Desde que vocês exportaram a brazilian wax, a gente tem que fazer isso. Vocês são loucas. Tenho até medo das outras coisas que vocês devem ser capazes de fazer.

A criatura que me dizia isso tinha atrás de si um armário envidraçado cheio de vibradores. Pirocas de várias cores, tamanhos,  e funções. Tinha até piroca de ouro e de vidro. Continuei o papo.

– Doer até dói. E algumas brasileiras até fazem depilação definitiva com laser.

A mulher ficou surpresa. Devia sofrer muito com a depilação. Fez outra careta quando eu disse que depilação a laser dói, mas praticamente resolve o problema e apenas requer retoques anuais. Parecia esperançosa.  Finalmente perguntou se realmente funcionava.

– Funciona muito bem, mas apenas  em pelos pretos e espessos.

A alvíssima criatura fez uma cara de profunda decepção.

-Isso é injusto. E vocês brasileiras são muito esquisitas mesmo.

A gente estranha o que afronta o senso comum – o senso comum é o da terra da gente. No Brasil, os rituais de depilação iniciam na puberdade. Vai ver ela foi criada numa cultura em que as mulheres não se depilavam. E aí as esteticistas brasileiras que emigraram passaram a fazer a brazilian wax fora e a moda ganhou mundo. Imagino que aqui no bairro da Luz Vermelha deve ter havido adesão em massa, para sofrimento da minha amiga.

Luz Vermelha

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Eu sabia que estava perto do bairro de prostituição, que é legalizada na Holanda. Elas pagam impostos, como todo mundo. O que é proibido é a exploração das mulheres. Fui pedir informações precisas no balcão meu hotel.

– Boa noite. Onde começa o Bairro da Luz Vermelha?

O homem me olhou como se tivesse pena. Fosse em Uruguaiana, na minha terra, ele pensaria. “Esse animal burro não ainda entendeu que está em Amsterdã”. Deve ter pensado algo equivalente em holandês.

– Querida, atrás do hotel já é a Luz Vermelha. Tecnicamente, estamos nela.

Com mais uma gafe no meu currículo e um tanto receosa, fui pra lá, evitando contato visual com os homens que circulavam. Logo me dei conta que eles nem olhavam para as turistas. Mais seguro impossível. Andei por todo o bairro, sem nenhum problema.

As mulheres nas vitrines estavam seminuas, bonitas, algumas lindas. Mas as roupas que algumas que delas usavam não eram muito menores certas que roupas de balada no Brasil. A gente exagera, sem precisar. Uma delas era de dar inveja até em mulheres com a auto estima nas alturas. Poderia estar em Hollywood. Me perguntei o que ela estaria fazendo ali. Deve gostar do que faz. Sou médica no SUS e tem gente que não entende que escolhi fazer isso. E depois, os homens olhavam pra ela hipnotizados. Deve ter lá a sua graça. E deve dar uma sensação de poder também.

Entrei na Sex Shop ao lado. Existem muitas lá. Várias coisas eu não tinha a menor ideia pra que serviam. Isso que essas lojas não eram novidade pra mim. As vendedoras respondiam rindo, ou entediadas. Dei boas risadas com elas. Vi uma família, uma mãe e duas filhas comprando toys – o novo eufemismo para os vibradores. Programa familiar, tudo muito natural.

Descobri que a naturalidade holandesa para tratar do assunto não é desprovida de malícia. Os vendedores homens tiram onda com as turistas. E se um grupo de mulheres começa a rir, mexendo nos toys e chicotes eles entram na brincadeira. Até mesmo rola cantada, mas a gente tira de letra como se safar delas. Voltei para o hotel achando que as mulheres se divertem mais por lá do que os homens – as mulheres se divertem muito comprando. Hoje quando acordei pela manhã, percebi que o neon que eu via da janela do meu quarto é uma dançarina de pole.

Da inveja do pênis

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Inveja do Pênis? Sim, com certeza. Aflora toda vez que arrumo uma mala e invejo desesperadamente a capacidade que eles têm de viajar por vários dias carregando pouquíssima bagagem.  Apenas três cores: Cinza, preto e azul-marinho. Cosméticos? Eles dispensam. A maioria deles nem sabe o que é uma frasqueira. Os machos sapiens viajam carregando pouca bagagem por aí, livres, leves e soltos. Por ironia do destino, ainda têm mais força para carregar mais peso. A minha primeira viagem longa sozinha foi um processo intenso de autoconhecimento. Aprendi muita coisa. Inclusive só que tenho dois braços e um pescoço. Pra carregar peso, isso não é muita coisa.

Aprendi a viajar menos bagagem, mas ainda carrego muito mais peso do que o necessário. Dessa vez a mala não pode pesar mais do que 20 kg. Li em algum lugar que as francesas carregam pouca bagagem e são sempre elegantes. Mas as francesas são as francesas, magras, chiques, estilosas. Além disso, tem o sotaque. Impossível não impressionar falando daquele jeito. Não sei imitá-las. Como não sou francesa, acabei fazendo o óbvio. Coloquei várias peças pretas numa mala e alguns lenços coloridos. Sobrou espaço até para carregar dois livros. E no final das contas, quanto menos bagagem a gente carrega pela vida, mais longe vai.

 Harlem Autileti

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Encontrei três brasileiras que tinha conhecido uns dias antes, num congresso na Quinta Avenida, em Nova York. Me perguntaram o que eu tinha feito naquele dia. “Fui ao Harlem, caminhar pela rua”. Estava feliz da vida. “O que é Harlem, um autileti?” Fiquei perplexa com a pergunta. Embora o Harlem não seja hoje um bairro inseguro, teve um gosto aventura ir até lá sozinha. Fui ver pontos históricos e sentir o clima do bairro. Na rua, alguns senhores tiraram o chapéu quando passei. Ouvi um bem humorado pedido de casamento. Ainda arrematei um vestido colorido black style numa loja barata. Uma delas perguntou. “Harlem é um gueto, né?” Assenti com a cabeça. Ao menos alguém ali tinha alguma do que o bairro significa. Perguntei como era a vida noturna no Brooklyn, onde estavam hospedadas. Não sabiam. Para mim era inacreditável que três mulheres solteiras, perto dos 30 anos, não tivessem entrado em um pub. Elas também deviam achar estranho o meu entusiasmo com o Harlem. Cada um vê aquilo que quer e a gente nunca enxerga tudo o que está ao redor. A loja japonesa em que estávamos é famosa pelas camisetas descoladas e os jeans baratas.  Elas não gostaram das calças. Concordei, distraída. “Venho aqui por causa das camisetas e dos casacos, eles não fazem jeans para mulheres de bunda grande.” E ri. Uma delas riu. As outras não gostaram nem um pouco do meu comentário. “A primeira vez que experimentei um jeans desses, fiquei decepcionada. Saí da loja me sentindo deselegante, péssima. Aí decidi que o problema não sou eu, elas é que não tem bunda. E aí passei a achar que isso é uma grande vantagem.” As três riram. A menina ansiosa por autiletis ficou novamente impaciente,  querendo informações sobre jeans. “Na loja X, eu vi uma modelagem curvy,  deve ser boa.  É pertinho do Empire State, não deixem de ir lá também.”  Me convidaram para ir junto. Eu disse que ia caminhar pela rua, o que mais gosto de fazer. Mais ou menos como nos versos do Gonzagão, se a gente quer ver a vida, precisa andar nela.

“…vai oiando coisa a grané/ coisas que pra mode vê/ o cristão tem que andar a pé” (Estrada do Canindé, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)