Romance I

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Fui a enfermaria para atender uma intercorrência. Problema resolvido, não pude deixar de observar a cena. Braços dados, os dois caminhavam pelo corredor. Ele falava baixinho, cochichando no ouvido dela. E ela, cabeça baixa, parecia gostar do que ouvia. E sorria. Ela devia ter uns 10 anos a mais que ele e usava camisola do hospital. Ele acompanhava outra uma paciente. A cena era bonita, comovente, dolorosa. Meus pensamentos foram interrompidos por Sandra, técnica de enfermagem,- Viu o chamego, Doutora?, Faz mais de semana que estão assim.

Ela tinha câncer de pulmão e tinha retirado uma metástase da coluna uns dez dias antes. O passeio acontecia com o pretexto de ajudá-la a caminhar. A família pouco vinha visitá-la, uma filha ausenta, nunca entendemos o motivo. Ele estava acompanhando a mãe no final vida, para quem estávamos oferecendo apenas medidas de conforto. E estava visivelmente devastado.

– Isso é romance, Sandra? (perguntei, supresa, querendo saber mais da história incomum)

– Só a senhora que não percebeu, doutora. A gente já sabe disso faz dias.

– Ela comentou alguma coisa?

– A senhora sabe que ela é uma mulher que fala pouco. Mas anda com um sorriso largo desde que isso começou

Às vezes as pessoas se apaixonam no meio da dor. Para ela, que tinha uma expectativa de vida de poucos meses, era a melhor coisa que poderia ter acontecido. Para ele, nem tanto. Depois da perda da mãe teria que lidar com a perda da namorada. Aliás, quem disse que ela era namorada? Eu estava supondo, criando um rótulo. Mania essa minha, de dar nome para o amor e o sexo. Lembrei do verso do músico Lenine. “A vida é tão rara”. O amor é ainda mais raro. Tive pena dele, por alguns minutos. Depois me ocorreu que não fazia a menor diferença o que iria acontecer no outro dia. Se a mãe dele iria morrer, se a paciente iria morrer. Para os dois, parecia não ter nenhuma importância. E no fim das contas, a gente nunca sabe o que vai ser amanhã – quem vai morrer primeiro, posso até ser eu. O dia pra todos nós é o dia de hoje.

A mãe dele morreu no dia seguinte. Uns três meses depois, um dia lembrei da paciente. Pedi à enfermeira da equipe que telefonasse para a vizinha dela, que era o nosso contato e cuidava da paciente eventualmente. Dona Alda tinha morrido há poucos dias, sozinha. Até onde a vizinha sabia, Dona Alda nunca recebeu visitas depois que teve alta do hospital.

Constância

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Constância entrou na consulta bem humorada, bem vestida, maquiada, sorridente. Mas ela realmente tem dor, apesar de aparentar o contrário.  Às vezes, para uma mulher, acordar, vestir e maquiar fazem parte dos pequenos rituais de enfrentamento dos momentos difíceis da vida, como se fossem mecanismos de defesa, quase de não enlouquecimento. Após o exame físico, conversei sobre o tratamento.

– Constância, essa tua dor é dor é de origem muscular, mas não é nada grave. E é real (muitas vezes ouvir o médico reconhecer que a dor existe é terapêutico). Vamos usar analgésico e relaxante muscular. É importante que tu faças caminhadas, para melhorar a circulação na pelve. O relaxante muscular pode dar muito sono, então é importante que ele seja tomado imediatamente antes de dormir, depois que tu tiveres feito todas as coisas que tu precisas fazer.

Constância riu:

– Então Doutora, se eu tiver relação com o traste do meu marido depois de tomar a medicação eu posso dormir em cima dele? Ou embaixo? Até que não seria má ideia..

Maquilagem

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Quando seu Oswaldo entrou, estava mais sorridente, mais tranquilo e mais bronzeado que nas consultas anteriores. Imaginei que tivesse recuperado o prazer de dirigir. Seu Oswaldo é caminhoneiro e após uma cirurgia no abdômen ficou com dor crônica, conseguindo dirigir no máximo por uma hora, precisando parar em seguida. Quase desistiu do caminhão. Perguntei como estava:

– Doutora, estou ótimo, a dor diminuiu muito e eu voltei a dirigir.

– Além disso alguma coisa diferente na sua saúde?

– Nada doutora! Estou feliz, voltei a comer direito, parei de perder peso e voltei a ir ao Rio de Janeiro para trabalhar com transporte.

Seu Osvaldo me contou que adora o Rio e que vai até lá fazer um trabalho muito específico: transportar coisas para uma cidade cenográfica de uma emissora de televisão. Imaginei Seu Oswaldo andando pelas ruas da cidade cenográfica, admirado com as pessoas que circulam por lá. Na minha fantasia, tinha algo de glamour na história que ele me contava.

– Trabalhar no Rio já é bom, imagino que deva ser melhor ainda trabalhar em um lugar com muita gente bonita, como uma cidade cenográfica.

Seu Oswaldo me olhou como se eu fosse ingênua.

– Doutora, eles tudo usam muita maquilagem. Só as crianças de salvam. De perto são gente como eu e a senhora. Quando tem filmagem fora do Rio, a gente fica hospedado nos mesmos hotéis que eles. E vê todos de manhã cedo, sem maquilagem nenhuma.

Devo ter feito uma cara decepcionada:

– Tem certeza, Seu Oswaldo? Deve haver que seja bonito de manhã cedo.

Na verdade, eu gostaria de pensar que alguém é bonito de manhã , vai ver nem eu sou, de acordo com a teoria de seu Oswaldo sobre o assunto.

– Doutora, me acredite. Ninguém é bonito às 06 da manhã, quando está acordando. Nem eles.

Eu ri. Seu Oswaldo riu também. Ele tem razão e eu sei disso.  Raramente saio de casa de cara lavada. E só me vê sem maquiagem quem acorda comigo. E apenas se leva café na cama.

Reinauguração

 Foto: Yuri Ruppenthal www.estudioy.net
Foto: Yuri Ruppenthal www.estudioy.net

Marli tem quarenta e poucos anos e um câncer agressivo de ovário.Terminou a quimioterapia faz um ano. Extremamente vaidosa, perdeu todo o cabelo e e praticamente todos os pelos do corpo.  Estava perplexa com o que estava acontecendo com ela. E só chorava. Para piorar a situação ela apresentou um tipo de dano nos nervos dos pés que causa dor, por causa da quimioterapia. Às vezes as mãos doem também. Calçar sapatos fica difícil, pode ser temporário ou definitivo e é imprevisível. Iniciei com uma medicação para a reduzir a sensibilidade a dor. Depois, aumentei a dose. Na consulta hoje, antes mesmo de cumprimentar, ela fez questão de me mostrar que estava calçando botas de salto, feliz da vida. No final da consulta me contou que há um ano não tem relações sexuais, mas que agora que o cabelo começou a crescer e que ela pode calçar sapatos de salto estava pensando em dar bola para um interessado que está na área. Me perguntou o que eu achava – eu sempre acho que eu amor faz bem pra saúde. Perguntou como seria essa relação depois de ter tirado o útero e os ovários. Eu respondi que embora ela estivesse sem os ovários, a maior parte da libido feminina está no cérebro. E que então estaria tudo bem. Ela me perguntou se teria dor. Eu disse que talvez tivesse, pois ela estava “sem prática”, porque no fim das  contas seria uma reinauguração. Ela riu, satisfeita e se despediu dizendo que iria ao salão de beleza para tomar as providências para a reinauguração. “Posso depilar tudo, doutora?”  Respondi que ela poderia fazer o que quisesse para o grande evento.  A maior parte a libido feminina está no cérebro. Sorte a nossa.

Observação: a bela foto do post, foi gentilmente cedida pelo meu fotógrafo preferido o Yuri Ruppenthal, que consegue extrair beleza das mulheres  como ninguém.

Universo em Desencanto

IMG_0282Uma das melhores coisas da minha profissão é poder conhecer gente diferente. Outros referenciais culturais, sociais, religiosos. Esse folder ganhei de uma paciente praticante da Cultura Racional que o Tim Maia praticou nos anos 70 e que originou dois vinis maravilhosos. O marido, que não concordava que ela tomasse antidepressivos, passou a aceitar desde que soube que eu tinha alguma ideia do que é essa filosofia.

 Harlem Autileti

Theresa Hotel

Encontrei três brasileiras que tinha conhecido uns dias antes, num congresso na Quinta Avenida, em Nova York. Me perguntaram o que eu tinha feito naquele dia. “Fui ao Harlem, caminhar pela rua”. Estava feliz da vida. “O que é Harlem, um autileti?” Fiquei perplexa com a pergunta. Embora o Harlem não seja hoje um bairro inseguro, teve um gosto aventura ir até lá sozinha. Fui ver pontos históricos e sentir o clima do bairro. Na rua, alguns senhores tiraram o chapéu quando passei. Ouvi um bem humorado pedido de casamento. Ainda arrematei um vestido colorido black style numa loja barata. Uma delas perguntou. “Harlem é um gueto, né?” Assenti com a cabeça. Ao menos alguém ali tinha alguma do que o bairro significa. Perguntei como era a vida noturna no Brooklyn, onde estavam hospedadas. Não sabiam. Para mim era inacreditável que três mulheres solteiras, perto dos 30 anos, não tivessem entrado em um pub. Elas também deviam achar estranho o meu entusiasmo com o Harlem. Cada um vê aquilo que quer e a gente nunca enxerga tudo o que está ao redor. A loja japonesa em que estávamos é famosa pelas camisetas descoladas e os jeans baratas.  Elas não gostaram das calças. Concordei, distraída. “Venho aqui por causa das camisetas e dos casacos, eles não fazem jeans para mulheres de bunda grande.” E ri. Uma delas riu. As outras não gostaram nem um pouco do meu comentário. “A primeira vez que experimentei um jeans desses, fiquei decepcionada. Saí da loja me sentindo deselegante, péssima. Aí decidi que o problema não sou eu, elas é que não tem bunda. E aí passei a achar que isso é uma grande vantagem.” As três riram. A menina ansiosa por autiletis ficou novamente impaciente,  querendo informações sobre jeans. “Na loja X, eu vi uma modelagem curvy,  deve ser boa.  É pertinho do Empire State, não deixem de ir lá também.”  Me convidaram para ir junto. Eu disse que ia caminhar pela rua, o que mais gosto de fazer. Mais ou menos como nos versos do Gonzagão, se a gente quer ver a vida, precisa andar nela.

“…vai oiando coisa a grané/ coisas que pra mode vê/ o cristão tem que andar a pé” (Estrada do Canindé, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

Marilyn?

Marge Simpson Marilyn Monroe William Travilla Art Cartoon Illustration Satire Sketch Fashion Luxury Style Iconic Dresses all the time The simspsons  Humor Chic by aleXsandro Palombo (2)

Eu vinha pela rua com as mãos cheias de sacolas do supermercado, sapatilha e vestido de bolinha, pertinho de casa, quando uma rajada de vento me deixou naquela situação em que a gente não sabe o que faz primeiro para contornar o constrangimento. Depois dos intermináveis segundos que eu levei para me recompor, o guardador de carros que assistia a cena disse, alto para que eu ouvisse. “Marilyn Monroe”. Cai na risada. Era mais fácil que morrer de vergonha. Sempre é mais fácil cair na risada. Eu nem de longe me pareço com ela e e ele também sabe disso. Também não vem ao caso o quem ele é ou quem eu sou. O homem estava sendo (muito!) gentil com uma mulher numa situação extremamente constrangedora. Felizmente a gente ainda encontra pequenos gestos de cavalheirismo.

Dia-a-dia de hospital, crônicas e poemas