Fritura com gosto de casa

cuecavirada

– Doutora, mande colocar em mim aquela sonda grossa que entra pelo nariz e vai até o estômago. Da outra vez, resolveu na hora. Fiquei tão bem que até tentei fugir do hospital.

O homem emagrecido que me dizia isso não parava de vomitar, estendido em uma maca na emergência. Era portador do vírus do HIV e de um câncer de intestino avançado para o qual as medidas terapêuticas já haviam se esgotado.  O tumor estava impedindo a passagem do alimento pelo intestino delgado, por isso ele vomitava. Simpatizei com ele de cara. Tinha um nome bíblico daqueles que tornaria sua identificação muito fácil, por isso vou chamá-lo de José.

Na manhã dia seguinte a sonda drenava o conteúdo estomacal esverdeado em grande quantidade em um frasco no chão. Seu José, enjoado e debilitado, tinha aprontado na enfermaria. Reclamou do banho e do atendimento.

– Eu continuo enjoado. A senhora pretende fazer o que agora?

– Vou ajustar as medicações e pedir mais alguns exames. Também vou aumentar o volume do seu soro pra que o senhor não tenha sede. Quero que fique em jejum completo, não beba nem água. No máximo molhe os lábios com uma gaze, se a boca ficar muito seca.

Fazia um calor dos diabos naqueles dias.

No outro dia havia um novo relato de insubordinação com a enfermagem e uma esposa aflita que me aguardava para uma conversa em separado.

– O José melhorou, mas ele não lhe obedeceu. A senhora acredita que ele passou o dia bebendo água? Chegava a tomar meio copo de uma vez!

Eu disse imaginava que ele faria isso. Ela ficou surpresa.

– Dona Maria, Seu José é um homem teimoso que sabe que vai morrer. Passou a vida inteira se opondo as coisas que os outros diziam. Eu não tinha dúvidas que ele desobedeceria as minhas orientações. É da natureza dele.

– Mas a senhora não ficou brava?

Parte das decisões de final de vida é entender um pouco os valores dos pacientes. Um homem que faz questão de dizer para o médico responsável por ele que tentou fugir na internação anterior e cria problemas todos os dias, provavelmente é alguém que gosta de desobedecer regras.

– Conversei sobre os exames há pouco. A nova tomografia mostrou que as metástases aumentaram muito e por isso o fígado está funcionando mal. Apareceram metástases no pâncreas. Ele tem pouco tempo de vida. Eu não o impediria de fazer o que quer.

Ela fez cara de quem já tinha ideia da gravidade da situação.

– Mas a senhora não acha que ele deveria obedecer, já que está muito mal?

Fiz uma pausa. Às vezes é difícil explicar o que é autonomia.

– Eu imagino que um teimoso se sinta vivo toda a vez desobedece ordens. Deixe ele desobedecê-las, ao menos um pouco. O tempo dele muito curto.

Dois dias depois Seu José estava conseguindo comer as papinhas e as sopinhas do hospital, mas me recebeu de cara fechada.

– O atendimento da noite é muito ruim, Doutora.

Perguntei o que tinha havido.

– Uma técnica mexeu na minha sonda e eu vomitei a noite inteira.

– Tem certeza que foi problema na sonda? Um passarinho me contou que o senhor comeu cueca virada e café com leite lá pelas 22 horas.

Seu José fez cara de ofendido.

– Claro que foi a sonda, né Doutora. Eu sei o que me faz mal e o que não me faz.

Café com leite com cueca virada tem gosto de reunião em família. Sabor de casa e aconchego. Ele tinha clareza do diagnóstico e do seu pouco tempo de vida. Escolheu continuar vomitando e burlando a dieta. Eu não poderia impedi-lo.  As papinhas do hospital só tornariam a digestão mais fácil, mas não iriam fazê-lo viver mais. Seu José seria um transgressor até o final

 

Carnaval I

carnavalImini

bolsas impertinentes
cravadas sob meus olhos
muito mal disfarçadas
pelo delineador
e a azia que não me largava

pasteis de camarão
uma cachaça barata
povo dançando na rua
suado e esbagaçado
era o que havia

ninguém parece bonito
na terça feira gorda

Os amores geográficos

 

 

pelelepew

É quase lei que os amores eternos são os mais breves. Foi mais ou menos isso que o poeta uruguaio Mario Benedetti disse – a tradução é minha. E esse verso sempre me comove. Meus amores eternos me emocionam, às vezes até me doem. Alguns deles me fazem rir. Sou um animal andarilho,  uma cruza de tropeiro com bandeirante. Sofro de amores geográficos.

Pra mim os amores breves são de três tipos. Aqueles em que a gente toma um pé na bunda cedo demais (os que mais causam estrago na vaidade e o ego), aqueles em que o objeto de amor morre tragicamente (os mais dolorosos) e aqueles que a geografia apartou (os mais caros).  Entendo alguma coisa dos três, mas quero falar desse último.

A geografia é um troço bonito e ingrato, ao mesmo tempo. Bonito porque preserva o encanto intocado nesses amores, sem permitir a corrosão pela rotina e o tempo. Ingrato porque essa beleza faz com que a gente revisite essas histórias de tempos em tempos e seja tomado pela nostalgia. Faz com que esses amores pareçam melhores que os outros. Talvez isso os faça inesquecíveis.

Era frio. Era a cripta de uma igreja anglicana, era Londres, era jazz, era muçulmano. Elogiou minhas mãos e entregou seu cartão de visitas. Médico como eu, a conversa fluiu. De coração dolorido com final abrupto do meu casamento só percebi o que estava acontecendo quando ele disse que queria me levar para Paris. O tempo parou. Lembrei de Casablanca. Na cena seguinte um bandonion enchia de tango um cantinho da Trafalgar Square e eu flutuei de mãos dados com um desconhecido pelas ruas decoradas para o Natal. Durou trinta e seis horas. Até eu pegar o vôo para Porto Alegre.

Três meses depois, voltei para vê-lo. As coisas não foram as mesmas. Nem eu era a mesma naquela época de mudanças frenéticas. Era mais frio e eu andei pelas ruas de Londres desiludida e só. A sensação de flutuar perdida para sempre. Me permiti um dia de dor-de-cotovelo, apenas (as libras esterlinas me obrigaram a ser tremendamente objetiva). Entrei em um pub, sentei no balcão, pedi um Dry Martini. Pouco tempo depois, um novo convite para ser levada para Paris, muito parecido com o anterior. Num instante, tudo fez sentido.

 Quero te levar para Paris é uma cantada barata pra turistas em férias na Europa. Descobri que existe uma variante, quero te levar pra Veneza, quando a conversa gira em torno de culinária.  A menção a Paris não significa nada, como não significam as coisas ditas na maioria das cantadas. Servem para agradar o ego da gente, apenas. E gente finge que acredita – se estiver gostando. Um jogo. Acho que foi ali que decidi que não levaria a minha da vida amorosa a sério. Foi uma das melhores decisões que eu já tomei.

 

sexo frágil

 

Sexo frágil (15) (1)

num mundo de narcisistas

mal me conhecendo

ele ajudou com meu carro

(tenho horror à oficina mecânica)

decerto queria sexo

como todos os outros

nem precisou mandar flores

tampouco falou linda

(a palavra esvaziada

que nada significa)

ele sequer mencionou

meu falso cabelo loiro

arduamente cultivado

à base de produtos químicos

era desnecessário

Recalculando a rota

recalculando a rota“Às vezes a gente tem que fazer igual a moça gentil do GPS e recalcular a rota, se pegar um caminho equivocado.  Afinal, a gente erra de estrada o tempo todo.” Disse uma amiga que está fazendo uma correção de rota dramática. Mais que um comentário bem humorado sobre os aplicativos que mudaram o deslocamento das pessoas nas cidades, ela estava falando sobre a vida.

Salvo os muito pacatos ou aqueles que têm a sorte (ou o azar) de a vida ter saído exatamente como planejaram, a maioria de nós tem duas opções quando pega o caminho errado ou quando a estrada se modifica abruptamente: ou bem recalcula rota, ou fica parado. Assim como a gente se agonia enquanto a moça simpática faz novas contas pra nos levar onde gostaríamos, é a ansiedade na vida, quando ela exige de nós uma revisão de percurso.

Quando olho para os meus sonhos e planos da juventude, vejo que nada saiu como eu planejei. A vida me impôs um recálculo dramático de rota nos últimos anos.  Sem saber a que recorrer, fui olhar para infância na tentativa de enxergar o que realmente era importante pra mim. Um endereço a ser digitado para que a moça gentil do meu GPS mental pudesse calcular um novo percurso.

Correr mundo, ser escritora, ter uma vida cheia de gente – eram as três coisas que eu queria na vida.  Aos doze anos, decidi que queria ser diplomata, mas a doença do meu pai alguns anos depois colocou meu GPS para trabalhar pela primeira vez, sem que eu eu percebesse. No ano seguinte, passei no vestibular para medicina. Demorei muito tempo pra perceber que a minha pouca paciência com rapapés me tornaria inábil para o mundo sutil da diplomacia. E hoje provavelmente eu estaria reclamando da vida em algum escritório do Itamary, frustrada. É um defeito mortal no mundo em que eu queria viver.

Dois anos atrás eu sofri um acidente e quase morri. Metida num jaleco verde e deitada num maca na emergência de um hospital em que ninguém me conhecia, eu me vi obrigada a fazer uma nova correção de rota. Não me tornei uma pessoa melhor (gostaria de dizer isso, mas não é verdade), não cuido mais da minha saúde (minha família gostaria de me ouvir dizer isso, mas também não é verdade). Mas entendi que pode não haver tempo para correções suaves de rumo.

Criei coragem para mostrar a cara escrevendo.  Lancei um livro e o  www.deusmelivreserbege.com tem um ano em meio e mais de dez mil acessos. Ainda não ganhei um centavo com isso, mas a minha vida ficou mais divertida.  Comprei uma ampulheta com areia rosa choque que fica à minha vista, em casa, enquanto tento escrever meu primeiro romance. Pra me lembrar que pode não haver tempo para correções suaves  na trajetória e que eu preciso fazer escolhas

Ontem colei um adesivo amarelo de mapa-mundi na minha parede de casa, cor de beterraba. Pra não me esquecer que economizar é fundamental.  Ainda não vi o Rei Tut (quase um amigo, afinal, foi ele que me fez perceber que o mundo era grande, aos dez anos), não sentei na frente do Príncipe dos Lírios, não vi a serpente emplumada. Mas já tomei cachaça num bar pouco recomendado pra turistas no Pelourinho, dancei na rua numa parada de São Patrício em New Orleans,  vi a Nefertiti.

Encher a minha vida de gente foi o melhor de tudo.  Abrir meus braços para pessoas muito diferentes de mim e escrever trouxeram mais amigos do que eu poderia imaginar. E agora, terminando de escrever essa crônica, me dei conta que talvez a minha vida esteja como deveria estar: bagunçada, colorida, cheia gente. Nada está em seu lugar e tudo pode (e vai) piorar qualquer hora dessas em que eu errar o caminho ou a estrada mudar. Espero ter aprendido que recalcular rota não dói tanto assim.

Obs: Em homenagem à minha amiga que amanhã chega no destino desejado depois de um recálculo de rota que levou cinco anos.

 

 

A Musa e eu

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quando eu topei com a Musa

ela estava no bar

bebia cerveja

e paquerava um homem jovem

era ela, eu tinha certeza

tinha aparecido pra mim

 

sem vestes gregas, sem harpa

desgrenhada, vestia preto

idade indefinida

disse  estar matando tempo

até que eu chegasse

tão vulgar, a Musa

mas tinha me escolhido

 

eu quis impressionar a Musa

recitando um clássico

“- Desde quando lês Ovídio?

Se ao menos falasses de Manoel

ou do Buck”

era a minha Musa

sabia das minhas limitações

 

eu queria saber da Hilda e da Cecília

a musa não me deixava falar

rodopiava, cantava, dançava

eu quase não entendia

(será assim com os maus poetas?)

mas era a Musa

e só eu a reconheci.

 

” – Pra que tanto poema de amor?”

Anda escrever sobre a vida,

que é tão maior!”

– Ó Musa – gaguejei eu

“- Ah, foda-se!”

Interrompeu ela

dando um tapa no ar

“- Agora vamos beber.

Evoé!”

 

A pitangueira

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– Doutora, eu não quero que o meu marido saiba que não tem mais tratamento.

– E se ele quiser se despedir de alguém, organizar alguma coisa?

– Não quer, que eu sei. Ele não dá bola pra essas coisas, é desligado.

– E se ele me perguntar?

– Não quero que a senhora diga nada, ele vai acreditar naquilo que eu disser.

– A senhora me disse que ele emagreceu trinta quilos. Será mesmo que ele não tem noção da gravidade da doença?

Dona Maura não respondeu e me olhava com cara de poucos amigos. Eu tinha assumido o caso naquele dia. Ela não queria que o marido soubesse da gravidade da situação porque não conseguia aceitá-la. Mas eu ainda tinha coisas mais duras a dizer.

– Inclusive, Dona Maura, as notícias não são boas. Ele piorou de ontem pra cá, os exames estão muito ruins.  Acho bom chamar os filhos e os parentes, para as despedidas.  Existe uma grande possibilidade de óbito nas próximas 24 horas.

Ela reagiu como se o marido fosse um homem sadio e ela estivesse recebendo a má notícia naquele momento. Chorou bastante, disse estar surpresa.  Dona Maura estava negando a gravidade da doença e isso é muito comum.

Três horas mais tarde fui chamada. Ele tinha piorado. Situação temporariamente contornada, Dona Maura falou:

– Doutora, na hora que ele estava pior, me abraçou e disse. “Acho que agora eu vou morrer.”

– A senhora percebeu que ele sabe da gravidade da situação?

Ela fingiu que não me ouviu. O nome desse fenômeno e a Conspiração do Silêncio. A família acha doloroso demais conversar sobre a provável morte do ente querido com ele e decide que não vai falar nada, com a justificativa de preservá-lo. Por outro lado, os pacientes percebem que a família não consegue tolerar o sofrimento da inevitabilidade da morte e se calam, sendo relegados à solidão. Um pacto de silêncio se estabelece. Por que insistimos na quebra desse pacto? Estudos de final de vida demonstraram que as despedidas e tomada de providências são importantes para reduzir o nível de stress do paciente e dos cuidadores. Inclusive, o processo de luto para os que ficam pode ser mais curto.

No dia seguinte o marido estava pior e Dona Maura me encheu de perguntas, tentando arrancar de mim alguma esperança na reversão do quadro, ou que me contradissesse. Reiterei apenas que o quadro era muito grave e o mais importante era oferecer conforto. Ela queria um culpado, uma justificativa, qualquer coisa que não fosse a inevitabilidade da morte – uma coisa que apavora a todos nós.  Ouvi e acolhi, respeitosamente. É o que há para fazer nessas horas. A conversa foi interrompida com a chegada dos quatro irmãos do Seu Juremar, ansiosos por vê-lo. Ele morreu cerca de duas horas depois, acompanhado da irmã e da filha.

A filha me contou que Dona Josalva, a irmã, era pessoa que ele mais gostava, a mais próxima, a mais amiga. Os últimos momentos foram com ela. Dona Josalva era muito parecida com ele e chorava mansinho. Sentei-me para ouvi-la.

– Sabe, Doutora, ele gostava muito de plantar árvores e me deu umas sementes ano passado. Hoje eu peguei da mão dele e disse. “Mano, a pitangueira cresceu. Está grande nesse tanto, a coisa mais linda. “

Dia-a-dia de hospital, crônicas e poemas