Oito considerações sobre etiqueta no mundo virtual

etiqueta

 

E aí minha amiga Anajara me ligou tarde da noite. Com quase quarenta anos, ela é de um tempo em que a gente telefonava para o único telefone que existia, o fixo. Está sempre preocupada com amor.  (Sobre clitóris, memes e pókemons e  O Fetiche da Vírgula) Tinha mais uma história pra contar.

– Minha pegada visualizou a mensagem e não respondeu? O que ele está pensando? Isso é falta de educação.

Aprendi com ela, a pegada é mais ou menos a mesma coisa que ficante. Algo sem compromisso. Alguém para quem a gente pode chamar em um momento de carência, solidão ou split estragado no inverno. Anajara não gostou da minha opinião. Acho que as pessoas respondem mensagens quando puderem. A vida vira um inferno com tanto controle. Ficou mais brava.

– E tem mais: Ele nunca se despede, me deixa falando sozinha.

Sou um animal antigo, da época que Kurt Cobain era vivo. Desconfio que isso me torne incapacitada para entender certas coisa, entre elas a (falta de) etiqueta do mundo virtual. O próprio fato de eu pensar em etiqueta, que remete aos livros de boas maneiras revela o quanto eu estou despreparada para ele. Já fiquei muito ofendida com isso. Até entender que essa regra não existe. A gente aparece, desaparece. Reaparece. É assim mesmo. Ouvindo Come as you are, concluo que não estou entendendo nada.

Era tarde, eu estava cansada, mas Anajara queria papo:

– Dia  desses um serumano me adicionou  no Facebook. Um cara que eu nunca tinha visto na vida. Aceitei e ele escreveu bem vinda. Acho isso tão esquisito.

Ando invocada com isso também. Se eu não fui ao encontro daquela pessoa, por que me dar boas vindas? Mais estranho ainda quando a proximidade é desejada pelo outro. Como não sei o que responder, não respondo nada. Dia desses eu passei por uma situação semelhante. Aí o serumano perguntou.

– Não gostou que eu te mandei um convite de amizade?

E era pra eu gostar? Se eu não gostei, era de se perguntar? Eu deveria ter reagido de alguma forma? Ouvindo Lithium, não consigo entender qual era a resposta definida no protocolo. Novamente, respondi com silêncio. Veio a terceira pergunta.

– Por que tu não fala nada?

– Porque respondo perguntas objetivas, como essa última. É a primeira vez que alguém pergunta se gostei de ter sido adicionada.

Ao que o indivíduo respondeu.

– É a primeira vez que ninguém me escreve nada quando eu digo bem vinda.

Quase senti a indignação do outro lado. Desisti de continuar o colóquio. Levando em conta a estranheza do diálogo, tentei fazer algumas considerações.

Consideração um: ele deve estar certo. Sou um animal estranho, com dificuldade para entender as regras do diálogo virtual;

Consideração dois: talvez as boas vindas não façam sentido e o indivíduo se irritou por ter ouvido isso;

Consideração três: vai ver no dia todo mundo combinou é pra dizer “obrigada” para o estranho desejo de boas vindas, eu estava distraída (como de costume) e não entendi o que era pra fazer;

Consideração quatro: vai ver ele estava querendo me xavecar e eu não estava colaborando;

Consideração cinco: estar afastada do trabalho por conta de uma cirurgia  (tudo está indo muito bem, mas está sendo um exercício de paciência) está me deixando com tempo demais pra pensar bobagem – porque não fico trabalhando apenas no meu livro novo ou vou ler algo que preste?

Consideração seis: a dieta low carb está me deixando impaciente.

Consideração sete: não me pergunte se estou na TPM. Lembre da minha dieta low carb. Contrariar um animal faminto na TPM pode ser perigoso.

Consideração oito: a paquera no Facebook consegue provocar diálogos mais estranhos que aqueles dos aplicativos de relacionamento. Lá, ao menos as intenções são claras

Consideração nove (extra): quando a gente esta sem assunto, escrever uma lista de qualquer coisa (considerações, inclusive) é um ótimo recurso pra escrever uma crônica. Se o seu site favorito vive de postar listas, eles não devem saber como escrever uma crônica de outro jeito.

 

Sem alarde

sem-alarde6Sem alarde acabou

outro amor desse tempo

em que as coisas são

e podem também não ser

 

Sem alarde acabou esse amor

que era às vezes era um tanto

outra era quase nada

de todo modo era tão pouco

 

Sem alarde acabamos, amor

tu e eu

narcisistas

inegociáveis

 

Sem alarde acabou

meu amor

afina era nada

ou não era

O Fetiche da Vírgula

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Prezado amigo. Quer se dar bem com o sexo oposto? Ser irresistível? Esqueça a barriga tanquinho que cerveja não lhe permite adquirir. Aprenda a usar a vírgula. O novo Don Juan, o sedutor do século XXI, além de ir para a academia necessariamente precisa manjar dos paranauê da gramática. Nos Estados Unidos, trinta por cento dos casamentos no ano passado iniciaram com contatos na internet. Se a sua paquera pela internet vai mal, amigo, o problema talvez esteja na forma como escreve.

Uma vez que a primeira abordagem é escrita, aqueles habilidosos com as palavras levarão vantagem em relação aos outros. Pouco adianta aquela barriga trabalhada se nas primeiras frases o candidato trocar o S pelo Z. “Oi princeza!”. Erros ortográficos grosseiros podem transformar a mulher mais disposta ao amor numa bruxa enlouquecida na TPM. Um dia a medicina ou a psicologia irão estudara influência da ortografia na libido feminina.

A primeira vez que me apaixonei em tempos internéticos, foi por um adorável canalha, habilidoso com as mãos e as vírgulas.  Não falo em um domínio estrito das orações coordenadas e subordinadas, mas de um domínio intuitivo do ritmo da língua portuguesa. Findado o romance e curando a dor-de-cotovelo, aprendi nos meses seguintes sobre as regras amorosas do século XXI e, confesso, senti mais falta das vírgulas que das mãos.

Segundo Anajara, aquela minha amiga que vive preocupada com o amor Sobre clitóris, memes e pokémons o problema é mais sério que entender-se com o sinuoso sinal ortográfico. Dia desses ela me ligou:

– Estou traumatizada.

Perguntei o que tinha havido.

– Engatei um papo com um cara que me adicionou no Facebook, três frases e eu já tinha me arrependido. Disse que não queria mais falar com ele. Continuou insistindo. Repeti que não queria. Aí ele escreveu. “não gosta de mim, pode mim bloquear”

Ela fez uma pausa dramática.

– Foi pior que se ele tivesse me mandando a foto da piroca que eu não tinha pedido pra ver.

Politicamente incorreto? Pois é, quer troço mais politicamente incorreto que libido? Sua própria existência desafia o ordenamento do mundo. A gente gosta do que atiça. Já ouvi inúmeras histórias de mulheres que desistiram (com pesar) de conversar com um homem bonito porque a quantidade de erros de português esfriou o papo. Os memes estão por aí.  Pra mim, um texto com vírgulas bem colocadas é quase fetiche – desde que o indivíduo não esqueça dos “Rs” no final dos verbos. Do outro lado o problema também existe: amigo meu desistiu de conversar com uma guria, ansiosa demais pelo primeiro encontro, quando ela sugeriu lá pelas tantas. “Quem sabe se vemos na Redenção?”

Pensando em escrever sobre o assunto, fui conversar novamente com Anajara, talvez ela me ajudasse a organizar as ideias. Aparentemente já tinha superado o trauma, pois me contou que tinha um novo crush. Ela me ajudou pouco, porque já estava metida numa nova reflexão. Embora considerasse minha ideia um bom tema pra crônica, ela recomendou muitíssimo que me ocupasse de temas mais urgentes e incompreensíveis do mundo virtual, como escrever sobre a mania que alguns homens têm de mandar fotos da própria piroca. Sensibilizada com o apelo, anotei a sugestão.

Uma solução para os problemas conjugais

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–   A senhora sabia, Doutora? A porta do meu barraco não tem tranca, fica encostada. Quando eu ia trabalhar, dizia que se encostassem um dedo nas minhas meninas, eu matava.

Berenice arregalou os olhos. No mundo violento em que vive, assassinatos são comuns. Berenice tem insônia  . Sempre tem uma história nova. Uma delas rendeu inclusive o título do meu livro. o-marido-perdido/    Em seguida, mudou o tom da conversa.

– É que lá no morro todo mundo me respeita…

Fez uma pausa, como se tentasse encadear o que estava contando.

A senhora sabe que eu a coisa andou feia lá em casa? Mês passado quase passei fome. Aí eu pedi um dinheiro para o Luis Carlos. Sabe o Luis Carlos, Doutora?

Não eu não sabia, mas não vinha ao caso. Nas reflexões sobre a vida de Berenice eu sou apenas um ouvido. É daquelas pacientes que consultam porque precisam entender a própria vida.

– O Luis Carlos foi meu marido. Morei com ele depois que fiquei viúva. O nego era bom, me ajudou muito pra criar as meninas. Até hoje é apaixonado por mim.

– E o casamento acabou por quê?

– Tinha um defeito triste…

Esfregou o dedo indicador no polegar.

– Jogo? Caça níqueis?

– Isso. A maquininha aquela. Tinha uma no boteco no pé do morro. Eu achava estranho, porque volta e meia ele voltava sem dinheiro, dizendo que tinha sido  assaltado. Daí eu perguntava para os assaltantes do morro – eu sou amiga de todo mundo, né, a senhora sabe – e me diziam. “Nega, pra esses lados não tá dando assalto, se fosse mais para baixo ou mais para cima…” Um dia, resolvi seguir o Luis Carlos. Vi entrando no bar e comprando as fichas. Pensei uns dois dias o que eu ia fazer. Aí passou “Tropa de Elite” na TV. Resolvi o problema com álcool.

Eu não sabia se podia, me deu vontade de rir. Ponderei que Luis Carlos ainda estava vivo, então não deveria ser tão grave.

Gastei cinco pila numa garrafa de álcool. Mais dois pila num isqueiro do Paraguai.

– Álcool líquido ou gel?

A história era boa demais, eu precisava de todos os detalhes.

– Claro que é líquido, né Doutora? Pensa um pouco! Não assistiu Tropa de Elite?

Assistir, eu tinha assistido. Mas não estava entendendo.

– Cheguei no bar e fui perguntando por ele, dizendo que ia matar. E eu queria, Doutora. Estava louca de raiva. Aí um homem que estava lá, ficou me tirando. “Sai daí que mulher aqui não entra, quero ver tu continuar aqui. Te coloco pra fora.”

Fiquei mais louca ainda. Joguei álcool no chão e atirei o isqueiro em cima da poça maior. Pegou fogo em todas as poças de álcool, Doutora.

Berenice ria, divertida. Eu ri também. A essas alturas a formalidade do jaleco tinha ido para o espaço sideral.

– E o Luiz Carlos?

– Saiu correndo, apavorado. E os outros homens começaram a apagar o fogo.  Eu fui embora, bem calma.

E o que aconteceu depois, Berenice?

– O dono do bar veio me cobrar o prejuízo. Eu disse que não tinha queimado nada, que quem queimou tudo foi o álcool. E que ele tinha sorte de eu não avisar a polícia da maquininha de jogo. O Luiz Carlos me largou, pra todo mundo ele dizia. “Eu amo a Berê, mas a nega é louca”. Por isso a porta do meu barraco não tem tranca, Doutora. Todo mundo me respeita.

Era uma solução criativa para dirimir determinados conflitos conjugais. Mas, aqui entre nós prezada amiga, mesmo que tenha considerado a hipótese por instante (assim como eu), não tente fazer isso em casa. Berenice mora num barraco sem tranca numa das vilas mais violentas da cidade. Consegue ser respeitada ali. Para uma mulher que sobrevive a tiroteios, estourar um isqueiro numa poça de álcool deve ser até lúdico.

Crônica de bar, calçando havaianas

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Eu era o único par de havaianas ali. Tinha dado sorte. Era o dia 08/11, eu estava em Miami e as pessoas aguardavam ansiosamente os resultados da eleição americana – ainda incertos. Antes disso, eu tinha parado em uma aglomeração de rua, onde havia uma transmissão de TV. Eu queria olhar o povo, mas um democrata estragou minha alegria. “A CNN vai ao ar em três minutos! Vamos sorrir, vibrar, bater palmas”. Uma das poucas coisas que não gosto nos americanos é o falso entusiasmo. Acho que não sou a única. A pequena multidão dispersou. Também não aplaudo políticos brasileiros, nem gringos. No máximo tomaria umas cervejas com a Merckel.

Mas não era disso que eu queria falar. Eu ia pela rua, gostei da música, entrei, feito cachorro que encontra a porta aberta. Ninguém me olhou – o que significava que o bar era seguro para uma mulher sozinha. Sentei no balcão, observei alguns olhares com o canto dos olhos. Pedi um black label. Pedir uma bebida forte é uma boa medida para afastar curiosos. Eu queria olhar, apenas. Sem ser importunada. Fora do Brasil, uma mulher pode fazer isso.

Um DJ mandando bem, dois barmen, dois telões com a apuração da CNN. Com exceção do DJ, dos democratas de camiseta azul e do barman de braços tatuados, os outros não tinham jeito de brancos americanos. Também não tinham jeito de turistas europeus. Eram negros e latinos, os primeiros calçando tênis coloridos e usando correntes, e os últimos calçando sapatos e usando camisas – com dois ou três botões próximos ao colarinho deliberadamente desabotoados.

A música era boa e eles começaram a dançar. Hispânicos gostam de dançar, como os homens das minhas origens na fronteira. Mais uma dose e eu levaria as minhas havaianas – loucas para bailar – pra pista, mas eu não podia me demorar. Meu voo no outro dia era cedinho.

Olhando para os meus pés em estado deplorável depois de uma semana de mar e caminhada, o esmalte vermelho em petição de miséria, novamente pensei que tinha dado sorte em ter entrado num bar de locais. Perdi meu pai na adolescência e ele me aconselhou várias vezes a observar os sapatos das pessoas, para saber de onde vinham. “Morro de medo que tu engrace com bagaceira, filha.” É um dos poucos conselhos de que me lembro, porque sempre achei engraçado. Ele era um homem de outro tempo e nós tínhamos valores muito diferentes. Ainda assim, quando tenho dificuldade para entender um ambiente, me pego olhando para os pés das pessoas.

 

Dia-a-dia de hospital, crônicas e poemas