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Consultoria de Imagem?


Tenho um defeito grave. Se me pedem a opinião à queima-roupa e sem me dar tempo pra pensar, eu respondo. Honestamente. Arranjei inimizades, magoei desnecessariamente. Aprendi a calar, vezequando me testam. Dia desses eu escrevi um texto https://lucampos202.wordpress.com/2015/09/24/supermercado/ fotos de aplicativo de relacionamento. Só não tinha previsto todas as consequências da postagem. Eu vinha conversando online com um cara há mais ou menos um mês. De um aplicativo. A conversa vinha arrastada justamente porque eu não tinha muita convicção do que queria fazer.

Ele: Li o texto que você escreveu sobre aplicativos de relacionamento no seu blog. Mandou muito bem.
O que eu pensei: Adorei o elogio, mas nessa etapa não quer dizer nada.
O que eu disse: Obrigada.

Ele: Eu só queria te fazer uma pergunta, posso?
O que eu pensei: O que viria agora? Qual é o aplicativo? Quantos aplicativos tu conheces? Quantos caras tu chegaste a conhecer pessoalmente? Não gosto de responder perguntas pessoais demais de cara.

O que eu disse: Pode

Ele: Eu queria que você fizesse uma avaliação das minhas fotos. Sempre quis uma opinião feminina.

O que eu pensei: O que ele está pensando? É sem-noção? Folgado? Narcisista?

O que eu disse: Hã?!

Ele: Assim, quando você olha as fotos, você pensa uma série de coisas, pelo texto que escreveu. O que pensou quando olhou as minhas? Honestamente.
O que eu pensei: Honestamente? Que ele deveria passar a máquina naquele cabelo urgentemente. Sem pena. E depois, era muito folgado o indivíduo. Não é meu amigo nem meu parente. Vou facilitar a vida dele na selva amorosa? Pra quê? Consultoria de imagem é um trabalho. Desconversei e me despedi. Dia seguinte ele voltou à carga.

Ele: Eu realmente queria que você opinasse sobre as minhas fotos, suas análises parecem boas.

O que eu disse: Eu acho muito estranho opinar sobre a imagem de alguém que não conheço.

O que eu pensei: Por que diabos tem gente que não consegue dizer nada que preste? As boas conversas são raras. Uma delas me marcou muito. E foi das mais banais. Depois de descobrir onde eu morava e o que eu fazia da vida, ele escreveu. “Vi quem tem vários fotos de gatos, tu deves gostar muito deles. Eu adoro cachorros, vivo cuidando dos meus. Quem sabe tu me dá o número do teu telefone para a gente conversar melhor? Temos ao menos uma afinidade” Conseguiu meu telefone, tomar um café, sair pra jantar, entrar na minha casa, na minha vida e no meu afeto. Virou romance, com tintas de drama e comédia. Um dia escrevo sobre isso. Se as afinidades existem e a química realmente funciona, manter o papo simples é a melhor estratégia.

Uma nova pergunta interrompeu minha divagação.
Ele: Eu gostaria que você olhasse as minhas fotos e comentasse cada uma, todas elas.
Aí a ficha caiu. O candidato não folgado ou sem-noção, costumo ter boa vontade com pessoas que não estão percebendo que estão fazendo tudo errado. Se não cometo erros nessa etapa, erro nas etapas seguintes. Um bocado. Em se tratando de aproximação, a gente erra e acerta o tempo todo. Mas o problema aqui não era esse. Ele era narcisista. Completamente narcisista. E o que ele queria era que eu repetisse todos os elogios que a mãe dele faz quando olha as suas fotos. Nem respondi. Next, please!

Supermercado

 

       Protelei, hesitei, mas sou um bicho curioso. Fui conferir. A primeira sensação foi de estranheza. Produtos sendo apresentados a uma cliente em potencial. Parecia um supermercado. Achei divertido, a quantidade de opções era impressionante. Em seguida, achei confuso. Possibilidades demais. Difícil entender a organização. Aliás, organização nenhuma. Um supermercado desorganizado, chocolate importado apresentado ao lado de sabão. Parecia um supermercado, mas era um aplicativo de relacionamento. E eu tinha virado produto também. Achei graça. Em se tratando de amor, não me levo a sério. Tempos depois, quando abri um aplicativo cheio de estrangeiros, tive a mesma sensação. Parecia o e-bay. E eu tinha virado um produto internacional. Um produto internacional da Província do Rio Grande de São Pedro. Fazer o quê? O jogo é esse.

Nome, idade, foto. E só. Achei bom, poucas informações, diferente dos sites de relacionamento. Tem gente que mente a idade deslavadamente. E a qualidade das fotos era muito, muito ruim. Quem montasse uma consultoria de imagem para homens ganharia dinheiro. Há fotos engraçadas. A minha preferida é a de um indivíduo que postou uma foto sua, bem sorridente, na frente do computador. Bem ao fundo da foto, em outra peça da casa dá pra ver a patroa com um bebê ao colo. O “serumano” simplesmente não se deu conta.

Fotos no espelho do banheiro, em profusão. Por algum motivo, os candidatos devem acham isso bonito ou sexy. Ou prático. Eu não gosto. Foto em que a pessoa ao lado foi recortada, onde a gente consegue ver unhas vermelhas ou cabelo nos ombros. Havia uma mulher ali. Será que ainda há? Melhor nem querer saber. Foto sem camisa tomando cerveja? Os amigos até podem achar isso bonito, mas socorro! Foto com filho? Eu até acho fofo, mas tenho a sensação que o cara está procurando uma madrasta pra criança, antes de qualquer coisa. Passo. Foto escondendo o rosto ou de paisagem? Fácil. Homem comprometido. Fujo. Foto com a aba do boné virada para trás? Com a aba reta? Pra quê isso, meu filho? Deveria ser até ser ilegal, ao menos em aplicativo de relacionamento, tipificado como crime em todos os países signatários da convenção de Genebra. Next, please!
Logo descobri que prefiro fotos que parecem reais, sem tanta pose ou filtro. Eu também sou sem filtro, ao vivo. Gostando da foto, faço o quê? Clico que gostei e se foi recíproco, se abre a conversa. Espero. O chat renderia um texto inteiro, mas fica para outra hora. E os códigos são parecidos com os da vida real. Qualquer dia escrevo sobre isso. Os cavalheiros convidam as damas para dançar, acho que eles preferem assim.

Há quem não consiga entabular uma conversa qualquer – e a conversa é via de regra a mesma. O maior problema é que a falsa liberdade que a internet dá faz as pessoas dizerem o que dá na telha. Há quem mereça ser impiedosamente avacalhado, por ser idiota. Há quem precise ser bloqueado por ser inconveniente. Há quem mereça ser denunciado por assédio. Alguns aplicativos dão essa opção, caso a coisa saia de controle. Há quem vá direto ao ponto, sem qualquer rodeio. Direto ao ponto? Next, please!
Há o risco de exposição, muito risco. Mas em tempos que a vida virtual intermedia as relações, cheguei à conclusão que não havia outro jeito. A sensação de estranheza continua e prefiro o mundo em que a gente conhece as pessoas olho no olho. Mas no mundo virtual encontrei gente interessante, que valeu a pena conhecer. Fiz até alguns amigos. Simpatia não necessariamente significa que as coisas funcionem ao vivo e a cores, outra lição que aprendi nesse mundo. Às vezes tem tudo pra funcionar e não funciona.

Um dos inconvenientes é que perde-se muito tempo entrevistando candidatos online – os riscos são maiores, paciência é fundamental. Acho que sempre se deve contar com a possibilidade concreta de se estar conversando com alguém muito mal intencionado. E acho que esperar um pouco até a entrevista real é bom, há mais tempo para observar o comportamento da criatura. E pra terminar, o primeiro encontro tem que ser em um lugar público, bem público. E por último, se a intuição disser que é uma roubada, é mesmo.