Arquivo da tag: hospi

Com morfina e rock’n’roll and roll

route66-793x526

Por algum motivo aos sábados eu consigo enxergar o que acontece ao redor. Boa parte das crônicas foram de histórias coletadas aos sábados. Quanta vida passa debaixo do meu nariz que eu não consigo ver? Naquele sábado, um adolescente menor de idade saiu da enfermaria acompanhado da família numa cadeira de rodas. Despediu-se dos técnicos alegremente. Nenhum dos técnicos me parecia confortável.

– O que tem o paciente? – perguntei para Samara, a técnica de enfermagem ao meu lado no balcão da enfermaria

– Câncer de testículo. Internou três vezes nesse ano. Na próxima vez vai ser mandado para sua equipe, Doutora e vai morrer aqui. Espero que seja depois das festas de final de ano.

Quanto mais os anos passam eu penso que quem tem cancha na enfermaria é capaz de prever as coisas que a medicina é incapaz de prever. Samara estava realmente triste.

– Deve ser difícil, né? Vocês se apegam, assistem o paciente piorar aos poucos e depois internar na nossa equipe, passam muito mais tempo com eles que a gente.

– É duro. Mas às vezes a gente consegue se despedir. Sabe, eu consegui me despedir da Dona Irene. Lembra dela, Doutora?

Até o porteiro do hospital conhecia Dona Irene. Um câncer de mama avançado e o úmero (o maior osso do braço) estraçalhado pelas metástases. Não havia bloqueio anestésico, morfina, cirurgia, gesso que desse conta da dor. Era muito difícil manter o membro imobilizado. A única saída seria um amputação, discutida pela equipe. Ninguém gosta de indicar uma amputação porque todas as outras medidas falharam. Dona Irene e a filha xingaram todo mundo e se negaram a fazê-la.

Quando a dor piorou Dona Irene finalmente concordou com a cirurgia, foi internada. Aí era tarde. A doença progrediu rápido demais e a cirurgia não pode foi realizada, ela não suportaria. Internada e recebendo com doses de morfina cada vez mais altas, a vida de Dona Irene era melhor que na etapa anterior. Um dos momentos mais difíceis era a hora do banho, em que ela era mobilizada.

– Um dia antes dela morrer eu cheguei: hoje a senhora vai tomar um banhão com morfina e rock’n’roll

Me ajeitei na cadeira. Parecia uma cena de filme. Tinha acontecido na minha enfermaria, aquela em que eu só consigo ver além das coisas aos sábados. O que eu fazia nesse dia?

– Olhei a prescrição e preparei a dose toda: uma ampola e meia de morfina na  veia. Peguei meu celular, coloquei um dos fones no ouvido dela, o outro no meu e apertei play.

– E ela?

– Fechou os olhos e curtiu, oras.

Fez uma pausa, sorrindo.

– Ela morreu no dia seguinte, eu estava de folga. Aí eu entendi que tinha sido minha oportunidade de me despedir.

A cena era boa demais. Eu precisava conta-la.

– Qual era a música?

– Hã?

– O rock, que vocês ouviram?

– Ah, não sei Doutora. Meu filho gravou, não sei direito nome das músicas. Só sei que é “clássico”

– Pelo amor de Deus, Samara! Eu preciso saber qual era a música! Pensa.

– Vou olhar a playlist e perguntar para o meu filho. Se eu ouvir, vou saber o que é.

O que seria um rock clássico? Depende do gosto e da idade. “Satisfaction?” Nada mau. “It’s my life?” Não deveria ser essa. A vida não é a Sessão da Tarde “Hihgway to Hell? Torci para que Dona Irene não soubesse nada de inglês. “Sympathy for the Devil”? Pior ainda.

De todo modo, viver meu último dia recebendo uma dose de morfina suficiente para me deixar confortável e ouvindo rock me pareceu digno. Algo que eu escolheria. e pra mim.

Finalmente Samara voltou trazendo um papel dizendo que poderia ter algum erro porque ela não fala inglês.

Come as you are.