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Reinauguração

 Foto: Yuri Ruppenthal www.estudioy.net
Foto: Yuri Ruppenthal www.estudioy.net

Marli tem quarenta e poucos anos e um câncer agressivo de ovário.Terminou a quimioterapia faz um ano. Extremamente vaidosa, perdeu todo o cabelo e e praticamente todos os pelos do corpo.  Estava perplexa com o que estava acontecendo com ela. E só chorava. Para piorar a situação ela apresentou um tipo de dano nos nervos dos pés que causa dor, por causa da quimioterapia. Às vezes as mãos doem também. Calçar sapatos fica difícil, pode ser temporário ou definitivo e é imprevisível. Iniciei com uma medicação para a reduzir a sensibilidade a dor. Depois, aumentei a dose. Na consulta hoje, antes mesmo de cumprimentar, ela fez questão de me mostrar que estava calçando botas de salto, feliz da vida. No final da consulta me contou que há um ano não tem relações sexuais, mas que agora que o cabelo começou a crescer e que ela pode calçar sapatos de salto estava pensando em dar bola para um interessado que está na área. Me perguntou o que eu achava – eu sempre acho que eu amor faz bem pra saúde. Perguntou como seria essa relação depois de ter tirado o útero e os ovários. Eu respondi que embora ela estivesse sem os ovários, a maior parte da libido feminina está no cérebro. E que então estaria tudo bem. Ela me perguntou se teria dor. Eu disse que talvez tivesse, pois ela estava “sem prática”, porque no fim das  contas seria uma reinauguração. Ela riu, satisfeita e se despediu dizendo que iria ao salão de beleza para tomar as providências para a reinauguração. “Posso depilar tudo, doutora?”  Respondi que ela poderia fazer o que quisesse para o grande evento.  A maior parte a libido feminina está no cérebro. Sorte a nossa.

Observação: a bela foto do post, foi gentilmente cedida pelo meu fotógrafo preferido o Yuri Ruppenthal, que consegue extrair beleza das mulheres  como ninguém.

Universo em Desencanto

IMG_0282Uma das melhores coisas da minha profissão é poder conhecer gente diferente. Outros referenciais culturais, sociais, religiosos. Esse folder ganhei de uma paciente praticante da Cultura Racional que o Tim Maia praticou nos anos 70 e que originou dois vinis maravilhosos. O marido, que não concordava que ela tomasse antidepressivos, passou a aceitar desde que soube que eu tinha alguma ideia do que é essa filosofia.

“Doença pegada”

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— Doutora, “isso” (líquen escleroso) não é “doença ruim” (câncer)?

— Não Dona Maria, o  problema que a senhora tem na pele não é nem “doença ruim”, nem “doença pegada” pelo sexo.

— Deus que me perdoe doutora! Minha irmã sente a mesma coisa que eu e disse que é “doença pegada.” Sou viúva desde 95 e agora sonho que estou brigando com ele. E o pobre até me deixou uma pensãozinha…

Dona Frida entra na moda

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Dona Frida, 93 anos, chegou a consulta rindo, acompanhada da filha. Eu a operei há 3 anos. Ela é lúcida, cozinha e faz bolos. Me contou que fez aniversário na  semana passada. Mora sozinha e as filhas providenciaram uma cuidadora  recentemente. Disse que tinha algo para me contar, naquela mistuar de português  com alemão que alguns idosos falam no interior do Rio Grande do Sul. “Doutora, a moça que me cuida disse que não estar depilada é fora de moda. E me depilou toda para vir à consulta.” E sorriu, com carinha de criança sapeca. Eu expliquei que não havia indicação médica para a depilação. E que a depilação completa inclusive poderia deixar a região desprotegida. Dona Maria leva minhas orientações muito a sério, mas dessa vez ela sequer me ouviu. Ela estava naquele estado em que a cabeça fica leve e auto-confiança atinge o seu máximo. Impossível convencer uma mulher que está se sentindo “na moda” do que quer que seja. Não é todo o dia em que uma mulher se sente assim.

(postado no Facebook em 18/09/2013)

A elasticidade do tempo

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Comecei a ler o prontuário e a história de Dona Ana não diferia das histórias que leio todos os dias. 68 anos, câncer de intestino, cheia de metástases. Sintomas sendo progressivamente controlados e uma família relutante em aceitar a alta hospitalar. A assistente social me contou parte da história: 8 filhos, marido, ela não usava drogas e nem bebia. “Não sei porque a família não quer levá-la, Doutora. A única que vem aqui é uma sobrinha, que está aqui agora.”

Encontrei dona Jane ajudando a dar banho na paciente, já confusa, com uma sonda no nariz para drenar o conteúdo estomacal. Conversei com ela em separado, perguntando qual dos filhos a receberia, em caso de alta. “Nenhum deles doutora, são tudo nervoso e sempre arranjam desculpa pra não ver a tia.” Perguntei o motivo de tanto “nervosismo” ela mudou de assunto. “Só pra senhora ter ideia, uma filha da tia Ana morreu a pouco, aqui no hospital. E quem vai cuidar do funeral sou eu.” A mulher minha frente falava disso com naturalidade, sem aparentemente reprovar a família ausente, ou com superioridade por assumir o cuidado de uma mãe que não era a sua.

“A alta seria pra quando, doutora?” Ela interrompeu minha divagação sobre o assunto. Respondi que provavelmente seria no início da próxima semana. “Nesse caso, eu levo ela pra casa. Quando a gente quer doutora, acha tempo. Eu cuido do meu irmão que faz hemodiálise e do meu marido que está na fila do transplante de fígado.” Conforme ela ia falando eu me sentia pequena, cada vez menor. E meus problemas, insignificantes. A naturalidade com que ela falava, sem aparentar afetação ou vitimização, me deixava mais curiosa. Perguntei sua idade. “49, doutora.” Para uma mulher sem acesso à tecnologia, ela estava muito bem. Disse que ela era uma mulher corajosa. “Nem é isso doutora, é que eu acredito no amor. Quando a gente ama, acha um tempo pra tudo.” Me chamaram para ver uma paciente e eu interrompi a conversa. Passei o dia pensando no amor e no tempo. No amor e na elasticidade do tempo.