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O galanteio

 

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Cena1: É domingo e eu entro no edifício onde moro. O elevador chega. Ela abre a porta e sorri: Primeiro as damas. Retribuí o sorriso e entrei. Trocou comigo duas ou três palavras afáveis antes de descer no segundo andar. Morando na Cidade Baixa, estou habituada a cantadas de ambos os sexos, mas não entendi bem o que ela queria com aquela gentileza. Cena2: Amiga minha me contou que um colega de trabalho que chegava das férias elogiou sua pele.

Em nenhum dos dois casos quem fez o elogio tinha qualquer intenção de levar a coisa adiante. Essa é a diferença entre galanteio e e cantada. Às vezes a cantada também não tem uma intenção específica, mas é mais direta e descarada, ao passo que o galanteio se caracteriza pela elegância e gentileza. O que move, então o galanteador?

Talvez o galanteio seja um fim em si mesmo e faça muito bem a quem tem o hábito de fazê-los, já que é algo dado generosamente. Puxando pela memória, percebi que os homens mais galantes que eu conheci têm excelente autoestima. Para o galanteador do mesmo sexo, talvez funcione também como uma forma afirmação da identidade sexual. Algo como: não estou jogando agora porque não quero, mas tenho condições de estar no jogo quanto qualquer um.

Longe de mim fazer apologia aos tempos em que ser mulher era mais difícil, mas tenho que confessar: sou capaz de me derreter com um galanteio bem feito. Tenho medo que relações virtuais, as inúmeras possibilidades e nossa pressa estejam ameaçando a gentileza de extinção.

Aos galanteadores, meu apelo. Insistam. Às galanteadoras, repito o apelo. Insistam, mesmo sob o risco de rechaço. Em tempos de selfies curtidos de qualquer jeito e elogios virtuais a belezas inexistentes, acho que precisamos mesmo é do agrado genuíno, aquele que nos torna únicos. Pra mim, esses instantes trazem beleza à vida, e a beleza anda rara.

Portanto, amigo ou amiga, ao receber a pequenina joia que é um galanteio num dia cinza, agradeça, se a timidez não impedir. Sobretudo sorria. É possível que um sorriso salve da extinção o galanteio derradeiro, aquele que seria último.

Somos todas iguais

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Berenice é a melhor contadora de histórias que eu conheço.  (leia http://deusmelivreserbege.com/2015/12/21/o-marido-perdido/ e http://deusmelivreserbege.com/2015/12/21/o-marido-perdido/

– Doutora, a senhora sabe a promoção da ótica Silva, lá para os lados de onde eu moro?

Não, eu não sabia.

– Se a pessoa junta cupons de compra no valor de quarenta e oito reais pode trocar por uma armação de óculos. Aí só paga as lentes.

Fiquei me perguntando como funcionava a tal promoção exatamente, mas ela continuou.

–Fiz faxina por todo o morro pra ganhar os cupons dos vizinhos. Lá na ótica a vendedora me disse. “Os que dá para trocar pelos cupons estão aqui nessa parede.” Como é que pode, Doutora, era tudo óculos feio. Eu até disse pra mulher: “Bem que vocês podiam ter escolhido uns óculos melhorzinhos, né?” A gente já não é bonita,  já não enxerga direito, aí coloca esses óculos e fica parecendo um filhotinho de cruz-credo.  Voltei pra casa triste. Aí minha filha me ajudou com um dinheiro pra comprar um óculos melhor. Fiquei até bonitinha.  Neguinho lá na vila vai até notou. A senhora sabe que eu me dou bem, Doutora?  Tenho um bom papo. É tomar uma cerveja comigo, eu passo a conversa e pego mesmo. Vacilou, se distraiu, termina lá no meu barraco. Pego uns bichinho até bonito. Porque homem tem que ser bonito, né?

Como eu iria discordar dos objetivos critérios de Berenice a respeito do sexo oposto? Apesar do oceano de diferenças entre a minha vida e a dela, Berenice me faz pensar o quanto somos parecidas. Sim, os artigos em liquidação são mais feios que os que estão fora dela, e a gente quer os que estão na prateleira ao lado. Sim, é (bem) melhor que o homem seja bonito. Sim, quem tem bom papo leva vantagem no jogo da sedução. E finalmente, independente do bolso ou da coordenada geográfica, em se tratando de amor e sexo, autoconfiança é quase tudo.

Sobre clitóris, memes e pokémons

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Dia desses postei um meme que vi não-sei-onde. “ Quem sabe encontrar clitóris, não perde tempo procurando pokemon.” Muitas curtidas, vários compartilhamentos, convites de amizade. Mensagens inbox dos constrangidos em curtir o post publicamente. Concluí que crônicas são um atrativo fraco atrativo perto de memes de duplo sentido. Até pensei em largar tudo fazer outra coisa da vida, me alistar na Legião Estrangeira ou me converter à religião da batata doce, mas tive preguiça. Juntar os documentos para o alistamento ou sair pra comprar batatas me pareceram demasiado esforço. Sem contar que eu ainda teria fazer a inscrição ou ir pra cozinha.

Já que ganhei mais curtidas que em posts sobre bichinhos abandonados, George Clooney ou xingamentos para a Dilma, concluí que as pessoas estão mais interessadas em encontrar clitóris que em qualquer outro assunto. Resolvi continuar lutando da minha trincheira de cronista-blogueira desconhecida, dessa vez munida de novas armas. Fui conversar com a minha amiga Anajara, a pessoa mais preocupada com assuntos de amor e sexo que eu conheço.

Segundo ela, parece que as pessoas perderam o mapa de localização desse órgão feminino e não sabem mais onde fica. As regras rígidas do Facebook para abordar temas sexuais me impedem de ser específica e nem eu pretendo ofender os espíritos mais sensíveis. Mas diria que encontrá-lo é mais ou menos como saber a senha de acesso a um lugar misterioso. Dá para entrar sem senha,  mas a estadia e os tesouros oferecidos são infinitamente mais generosos para aqueles que dominam o código.

Estranhou a conversa, amigo conhecedor da anatomia feminina? Saiba que em tempos de internet, relações líquidas e Pokemons, a dedicação para mapear o caminho está cada vez menor, segundo Anajara. Para o amigo que se sente completamente perdido no terreno desconhecido, esclareço. Não adianta procurar no Google ou usar bússola. Não perca seu precioso tempo na Wikipedia. Cada território precisa ser mapeado centímetro a centímetro, sem pressa. Ou preguiça.

 

Aos que têm certeza absoluta que dominam qualquer mapa, uma ressalva. Às vezes sabem tão pouco quanto os assumidamente perdidos e dispostos a receber algum auxílio objetivo.  E pra terminar, o último comentário da minha amiga Anajara: tenha em mente que a região é pequena e a sensibilidade é muito maior que a do equivalente masculino. Clitóris não é campainha. Não é pra sair apertando.

 

 

 

Santo Antonio

 

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Era o meu dia de ir ao médico. Quando fui colocar a data numa guia do convênio, perguntei para a secretária, que coincidentemente era minha paciente. Sempre me pergunto o que deve pensar Teresa que me viu dos dois lados: já havia me visto dos dois lados, de jaleco branco e de avental verde quando vou ser examinada.

– Hoje é dia de Santo Antônio, Teresa?

– Dia 13 é o dia dele, Doutora. Vou lá buscar meu pãozinho e agradecer.

Disse isso mostrando a aliança na mão esquerda. Toda a sala de espera riu.

– O Homem faz as coisas que a gente pede, demora, mas ele faz.

Novamente mostrou a aliança.

– Durante seis anos eu fui à missa dele choramingar e reclamar. No sétimo ano, escrevi uma carta: olha só, Santo Antônio, eu tenho o dedo podre, só escolho canalha, me ajuda a escolher direito.

Toda a sala de espera riu novamente.

– Aí conheci meu marido, um bom homem, até é meio tapado, uma boa qualidade para um marido. Vou lá agradecer.

Outra paciente resolveu entrar na conversa.

– Atormentei Santo Antônio durante três anos. Fui muito chata, até. Acho que ele me mandou um marido para eu parar de incomodar.

Todas as mulheres riram novamente. Nesse meio tempo eu me despedi de Teresa.

– Não sei se a senhora está precisando, Doutora, mas, se estiver, não deixe de ir à missa dele na sexta.

Eu ri e me despedi. Enquanto andava pela rua, fiquei pensando na reação de empatia provocada entre as mulheres na sala de espera, muito diferentes entre si. Idade, nível social, gestantes, mulheres na menopausa, desconhecidas uma da outra. Santo Antônio é capaz de despertar cumplicidade entre mulheres estranhas e derrubar barreiras sociais, culturais, morais. Transcende a questão religiosa. E talvez o grande milagre seja esse.

 

República Federativa da Chapinha

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Janaína Paschoal é uma professora da Faculdade de Direito que juntamente com os juristas Hélio Bicudo e Miguel Reale Junior protocolou o pedido de impeachment da Presidente Dilma Roussef na Câmara dos Deputados. Virou musa do impeachment. Isso até o evento de segunda-feira, no Largo São Francisco, em São Paulo.

O evento tinha a clara a intenção de marcar história na luta pelo impeachment. Juristas importantes, advogados anônimos e alunos se acotovelaram para para prestigiar o evento superlotado. Janaína discursou. E virou motivo de crítica, deboche, chacota. Os favoráveis e contrários a permanência da presidente Dilma desqualificaram todo o processo de impeachment por causa da postura dela.

Eu tinha visto a entrevista de Janaína no Programa Roda Viva. Ela  me pareceu uma mulher forte, determinada – além de saber do que estava falando. No jeito de olhar e no gestos me pareceu não ser uma mulher comum. Mulheres e homens comuns (como eu e você) estão interagindo a favor ou contra o impeachment do conforto das nossas poltronas, em casa, em nossos computadores.

Durante o discurso, Janaína parecia furiosa e embriagada pelas próprias palavras. Dois tons acima do usual numa ocasião como aquela, fez um discurso apaixonado e veemente.  Fiquei emocionada. Se um homem grita e tem razão, ele está bravo. Se grita muito, está furioso. Janaína tem razão e foi chamada de histérica. Parou pra pensar a quantidade de pressão que está sofrendo? Respondendo processos judiciais e sabe-se lá se não está sendo ameaçada?

E aí o país mergulhado em uma crise econômica, política e moral sem precedentes, parou para discutir o fato de ela estar desgrenhada. Uma googleada por aí e a gente vê internautas famosos e anônimos criticando não apenas o tom, mas a sua descompostura capilar.  Vai ver o tamanho da ira de Janaína não condiz com o leilão de almas em que a política nacional se transformou. Mulheres exageram, vocês sabem. TPM, essas coisas.

Aparentemente, na República Federativa da Chapinha,  apenas mulheres com cabelo impecável, que falem baixo e sejam discretas podem ter algum destaque. As outras são cidadãs de segunda classe. Desgrenhadas e enfurecidas até podem arriscar, desde que tomem calmantes e passem no salão de beleza. Qualquer coisa que não ofenda a nossa estética jeca.

Vi homens e mulheres criticando o cabelo dela e apontando falhas no vestuário para tentar desconstruí-la. Lembrei do finado deputado Enéas Carneiro, que era médico. Não lembro de ver tentativas de desconstruir suas  ideias em função da sua aparência ou da forma como se expressava… Ah! Acabei de lembrar que as regras de aparência e decoro da República da Chapinha se aplicam exclusivamente às mulheres…

Aqui do meu computador, ligeiramente desgrenhada como de costume, achei que precisava escrever sobre ela. Pessoas como Janaína Paschoal me fazem ter esperança que o Brasil possa ter dias melhores e a coragem dela me comove. Mas vai ver comover-se e defender Janaína é coisa de mulherzinha…

É pra homem ou pra mulher?

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E aí eu parei em frente a banquinha no shopping center, hipnotizada por uma camiseta de Mulher Maravilha. Lembrei que já tinha duas dentro no armário, mas imediatamente afastei esse pensamento.

– – Boa tarde, tem camiseta baby look de Mulher Maravilha tamanho G?

Um dia na vida, não sei bem quando,  fiquei em paz com o meu tamanho G. Foi um das melhores coisas que fiz. Quando vou fazer uma compra,  sem constrangimento, chego logo pedindo  tamanho G, pra não perder tempo. Se a loja não faz roupas em tamanhos para mulheres que se alimentam,  o problema é da loja, e não meu. E deixo de comprar lá.

— Mulher Maravilha sai muito, infelizmente não tenho teu tamanho. A única que sobrou é essa.

Durante muito no tempo no Brasil as opções em roupas para uma mulher tamanho G  e os tamanhos GG , GGG) eram muito ruins. Ou os tecidos eram feios, ou as roupas eram sóbrias, ou as estampas eram de chorar.  Uma vez eu vi um vestido com estampa de abacaxi, que eu tenho certeza que era bullying . Felizmente as lojas melhoraram muito nesse sentido. Tudo isso me passou pela cabeça enquanto olhava para a  camiseta que eu via em cima do balcão envidraçado.  Há coisas que despertam em uma mulher na TPM a vontade de se fazer de louca.

— Essa camiseta é tamanho infantil?

A camiseta caberia apenas em uma mulher muito, muito magra. Talvez entrando em inanição.  Ponderei comigo mesma que eu  deveria estar comprando blazers e não camisetas  com estampa de adolescente. Rebati meu argumento repressor com outro, de que a própria Mulher Maravilha, exuberante e peituda, não entraria naquela camiseta.  O homem não me respondeu. Abaixou-se e abriu uma camiseta com estampa de mulher maravilha e corte masculino.

— Olha essa aqui moça, comprei  pra minha namorada. Os tamanhos unissex vão do 12 ao 20.

O que ele chamava de unissex era um eufemismo para que as mulheres comprassem as camisetas masculinas sem se sentirem constrangidas. Sou fascinada pelo Morcegão e nunca tinha me ocorrido que deve haver muito homem com vontade de ter camiseta de dela. Uma googleada e eu descobri que há um mundo camisetas com estampa da Mulher Maravilha para homens, tanto imitando o uniforme (como a que eu tinha visto na loja), quanto com a estampa  da figura dela.  Os tempos não mudaram o suficiente para mulheres de todos os tamanhos tenham camisetas bonitas e descoladas, mas mudaram o suficiente para que os homens usem camisetas de Mulher Maravilha.

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Noli me tangere (não me toque)

1515, National Gallery, London.
1515, National Gallery, London.

A Páscoa sempre me lembra da figura bíblica que mais me impressiona e as poucas referências a ela são suficientes para estimular minha imaginação. A cena acima, representa o momento em que Jesus ressuscitado aparece para Maria Madalena . Na minha imaginação ela foi uma mulher corajosa sem medo de fazer escolhas, participando ativamente de um mundo extremamente masculino. Apaixonada?  Sem dúvida. Ninguém muda radicalmente de vida se não se apaixonar pela vida nova que decidiu levar.  A foto abaixo é minha, da imagem dela na Igreja de Santa Maria Madalena, pertinho do Panteon, em Roma. Um ótimo domingo em família pra quem não é de Páscoa e uma Feliz Páscoa para quem é.

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Das semelhanças entre os shortinhos e os preservativos

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A polêmica sobre o uso de shorts no Colégio Anchieta me fez pensar . Vi mulheres adultas defendendo veementemente o direito que as meninas têm de serem donas do próprio corpo e reconhecendo no protesto uma luta contra a opressão. Em se tratando de shortinho, vamos combinar que e fácil e simpático. Mas e quando não é? Acho que a gente vai muito mal nesse assunto aqui no estado. Não conseguimos valer esses direitos na esfera privada: somos o estado com o maior número de contaminados pelo HIV proporcionalmente. 41 pessoas a cada 100 mil habitantes. Em Porto Alegre mais de 99 novos casos para cada 100 mil habitantes.  http://www.aids.gov.br/sites/default/files/anexos/publicacao/2014/56677/boletim_2014_final_pdf_15565.pdf.

O maior percentual de contaminados está entre 20 e 49 anos e acima de 55 anos percentual de contaminadas aumentou mais ainda. Novamente, quem tem dificuldade em lidar com o assunto somos nós, as mulheres adultas. Os homens  também deveriam estar preocupados O Rio Grande do Sul é o estado em que mais aumentaram os casos de contaminação em heterossexuais.

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Ernestina não melhora, nem desiste

 

Com o tempo, a maioria dos pacientes com dor crônica melhora, ou desiste. Ernestina não. Lá pelos 30 anos teve uma apendicite supurada com duas reintervenções. Ernestina quase morreu. É minha paciente há 4 anos e tem o diagnóstico de dor crônica pósoperatória. Trabalhadora rural, uma mulher triste. Ernestina está em tratamento pra depressão e apresenta pouca melhora, apesar das várias medicações testadas e de todos os profissionais envolvidos

Desde a primeira consulta ela se apresentava como tendo um único problema – a dor. Não queria afastar-se trabalho, algo comum para pacientes que usam a dor para ter ganho secundário. Medicação um: ela teve muito sono. Medicação dois: ela teve dor de cabeça. Medicação três: pesadelos. A medicação que ela estava usando pode realmente provocar sonhos vívidos – que podem ser assustadores se o sonho tem conteúdo negativo. Ernestina então percebeu que tinha pesadelos quase todas as noites. Mas não sabe me dizer quaiso que são.

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