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O Estado Islâmico tem medo de mulher

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Até onde eu sei, o Estado Islâmico é a única organização que tem textos escritos por religiosos justificando o estupro.  Quem estupra uma infiel (uma mulher não muçulmana) automaticamente a torna muçulmana. (reportagem aqui). Além de causar horror, também é isso é uma estratégia para arregimentar soldados naquelas culturas em que o namoro e o sexo são proibidos. O cara entra para o EI para poder transar e a ideologia construída  o isenta de qualquer culpa. É de uma crueldade sem precedentes. Os integrantes do EI, acreditam que se matarem e estuprarem bastante vão para o paraíso, onde receberão 72 virgens. (sobre as origens da crença)
O Estado Islâmico domina uma parte da Síria, onde moram os curdos. Os curdos são um povo antigo do Oriente Médio. Assim como os iranianos eles são muçulmanos, mas não são árabes. São famosos por serem grandes guerreiros desde a antiguidade. Saladino, o chefe militar que retomou Jerusalém, magistralmente interpretado ator Ghassan Masoud no filme a Cruzada, era curdo.  (sobre Saladino, leia aqui). Com Curdistão sendo tomado pelo EI, as mulheres se juntaram aos homens no combate. E uma coisa surpreendente aconteceu. Os guerrilheiros EI morrem de medo de serem mortos por mulheres. Uma mulher armada é um sacrilégio. Nesse caso perderiam o paraíso e as 72 virgens. (reportagem aqui)

A Coronel Nahida Ahmad Rashid (na foto acima) é conhecida como a Rainha Guerreira, que lidera o segundo batalhão do Curdistão, com 500 soldados de elite, todas mulheres. E é o pavor dos guerreiros do EI. As curdas são lindas e o batalhão é conhecido pela ferocidade. Se uma delas for capturada, é torturada e degolada. E pode derrubar o moral da tropa. A última bala das armas nunca é usada nas batalhas. Serve para que a mulher se suicide, caso seja capturada. (recomendo a leitura!)

Os cristãos são uma minoria na Síria e e as mulheres capturadas não têm um destino diferente das outras. (sobre leilão de mulheres e crianças – se tiver estômago) O sucesso das milícias curdas está estimulando as mulheres cristãs a participarem das batalhas (foto abaixo), aumentando a dor de cabeça do EI. De uma certa forma, o horror da guerra está reduzindo as diferenças entre homens e mulheres, em uma região onde a opressão é a regra. (sobre a milícia cristã, leia aqui. Recomendo!)

O medo de mulheres guerreiras sempre esteve presente na história da humanidade, principalmente nas culturas onde o papel das mulheres era praticamente nulo. Os gregos antigos inventaram as amazonas, uma tribo de mulheres guerreiras impiedosas. Os romanos ficavam muito assustados com os bárbaros germânicos, que lutavam ao lado das suas mulheres. Por outro lado os egípcios antigos , que tinham rainhas poderosas não se preocupavam muito com isso. Vai ver tinham mais o que fazer. O EI só está reprisando um medo primitivo masculino. Se eu fosse da inteligência da coalização ocidental que atua na Síria, manteria soldados vestidos de mulher nos campos de batalha, combatendo o EI com a sua própria ignorância.

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Eu queria ser Han Solo

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Dia desses, uma amiga sugeriu de brincadeira que fôssemos fantasiadas de Princesa Leah assistir o novo episódio da saga de Guerra nas Estrelas. Respondi que se fosse fantasiada, preferiria ser o Capitão Han Solo. “Ser o Capitão Han Solo? Eu queria pegar ele” – disse minha amiga. Homens bem humorados e descolados me encantam, mas nesse caso ele é o herói que eu queria ser.

Sempre soube que não tinha vocação para princesa. Na pré-escola ficava intrigada como as minhas colegas de aula podiam usar sandálias e ter os pés impecavelmente limpos no final da tarde. Os meus, completamente sujos e mais uma sandália destruída. Brincar de índio apache com os meninos tinha um preço.

Os filmes de aventura davam um nó na minha cabeça. A vida dos mocinhos e vilões era de longe mais interessante que as das princesas, que em geral tinham três funções: entrar em apuros, sofrer tragicamente e casar com o herói. Algumas mocinhas de fato só existiam para tentar justificar que a imensa camaradagem entre dois heróis não passava de camaradagem. Papel ainda mais decorativo. Pobre herói e pobre princesa.

A princesa Leah era um avanço. O cabelo era estranho, não tinha a beleza clássica das princesas, não era frágil, manuseava armas e distribuía alguns sopapos. O macacão branco, justo e sexy era um must. Uma heroína durona, sem ser chata. Com frequência, heroínas de filme de aventura são mulheres sisudas, perfeccionistas e assexuadas.E chatas. Padmé Amidala? Uma rainha e tanto, mas trágica demais para o meu gosto. Embora eu tenha que reconhecer que pegar o Darth Vader não deixa de ser um mérito.

Meu pai achava que o mais bacana era ser Jedi. Foi ele quem me apresentou esse mundo, ainda muito pequena. Eu não teria paciência para ter um sabre de luz. Formalidades e protocolos demais. A longa seqüência de treinamento de Luke Skywalker me dava nos nervos. Nem na minha imaginação eu conseguiria suportar o Mestre Yoda. Ser Jedi era menos chato que ser princesa, mas parecia ser tão difícil quanto.

Heróis de caráter duvidoso ou cheios de defeitos têm legiões de fãs – fazem a gente sonhar que poderia estar vivendo aquilo tudo. Crescendo numa cultura machista em uma cidade do interior, eu achava que a vida dos homens era mais divertida que a das mulheres. Eu não queria ser menino, nem queria ser coadjuvante na aventura alheia. Eu queria ser capitã da minha nave e ter uma pistola de raio laser. Sem o cabelo horroroso da princesa Leah, mas com o indefectível macacão branco.

O tempo passou e eu continuo fascinada pela figura do Capitão Han Solo. Aguardo o filme com a mesma ansiedade infantil de uma época em que eu vivia aventuras espaciais por conta própria na minha imaginação. Quando meus amigos Jedis precisavam de mim eu me alinhava à Aliança Rebelde, direto pra muvuca da guerra espacial. Darth Vader era complicado demais pra minha cabeça – os Jedis que se ocupassem dele, ou fossem todos tratar seus problemas na terapia família.

Deixei o melhor para o final: Chewbacca. Han Solo é um herói privilegiado. Além de  ter uma nave espacial, ser charmoso e descolado, é o único herói que tem seu cachorro como copiloto. Não há nada melhor que isso. Eu trocaria um sabre de luz por um Chewbacca, sem pestanejar. “Chewie! Where are you?”

Liberdade

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– Mulheres auto-confiantes, inteligentes e sensuais são muito poderosas na nossa cultura. E eu acho que gosto disso.

Me disse um alemão com quem eu batia papo em um pub em Berlim. A frase poderia ser muito bem uma cantada, mas não era. Aliás, se ele dissesse isso para uma alemã tentando cantá-la ela provavelmente acharia que ele é um idiota. Ouvi essa frase mais de uma vez, de uma forma ou outra, nas duas semanas em que viajei pela Europa e perguntei para as pessoas sobre o terrorismo e a questão dos refugiados sírios. Era um dia triste, o dia seguinte ao do atentado que matou 129 pessoas e feriu outras tantas em Paris. Ele continuou.

– Além dos assassinatos com extrema crueldade, quando eu penso no terrorismo e nessas formas radicais religiosas o que mais me deixa mais angustiado é a forma como as mulheres são tratadas – como se fossem objetos, para serem estupradas ou para que um homem tenha várias delas.

Resolvi fazer uma pergunta:

– Tu achas que a Alemanha tem que deixar de receber os imigrantes sírios? Não existe o risco de esses valores se perderem?

Ele sequer me deixou continuar, me interrompeu prontamente:

– Nem pensar! Acho que a política atual da Alemanha está correta. Aceitar a pluralidade, as diferenças e a igualdade de gênero faz parte dos valores europeus. Eu sou europeu e não recebê-los é negar os nossos valores.

Enquanto eu processava o que ele tinha dito, chegou o amigo dele tunisiano e eu fiquei me perguntando o que ele pensava dos atentados, mas perguntar seria grosseiro demais. Achar que todo o árabe tem obrigação de se manifestar porque um grupo de terroristas matou um monte de gente é achar que todo o árabe é terrorista. Lá pelas tantas ele perguntou qual era a minha religião. Acho que queria falar sobre isso:

– Meu pai é agnóstico e eu também sou.  E na minha família os homens não fazem coisas estúpidas. Não praticamos a poligamia há três gerações, tanto os agnósticos quanto os crentes no profeta.

Aí chegou mais gente e sentamos todos em uma mesa.  Num instante eu me sentia sozinha e puxei papo no balcão do bar e no instante seguinte tinha arrumado uma turma de amigos para sair naquela noite, coisa que só acontece quando a gente viaja só. Ninguém achou estranho eu viajar sozinha. Nem achou que eu sou corajosa. Aliás ninguém achou nada porque as alemãs viajam sozinhas e cuidam de si mesmas há muito tempo. E não tem nada de estranho em uma mulher sentar sozinha em um balcão de bar. Nem de permanecer sozinha no balcão. Nem de pegar o metrô pra casa voltar da balada.  E nem de pagar a própria conta.  Liberdade tem um custo, inclusive financeiro.

O atentado me deixou engasgada porque aconteceu num daqueles momentos em que eu me sentia mais livre. Na Europa uma mulher viaja sozinha, senta num pub sozinha, caminha à noite sozinha – para mim, a sensação de liberdade suprema. Poucas coisas me deixam tão feliz quanto o direito de caminhar sozinha à noite.  Uma mulher faz o que quer na Europa e isso é inaceitável para os terroristas, como tantos outros dos nossos valores.

A desproporção de força entre homens e mulheres é real e o entendimento de que o tempo das cavernas deve ser superado é realidade apenas nos países mais evoluídos. Mesmo no Brasil, o avanço da liberdade das mulheres parece ser apenas uma concessão feita à contragosto. O país foi simplesmente incapaz de discutir a violência contra as mulheres provocada pela escolha do tema na redação do ENEM. Discordo radicalmente da existência do ENEM e não gosto da Simone de Beuvoir, mas partir desse ano não vou poder mais dizer que é um exame que não serve pra nada. Serviu pra provocar e a reação predominante foi a de ironia. A sociedade não conseguiu debater o assunto. Gosto de pensar que a reação foi um reflexo da impopularidade do atual governo e não uma proximidade tão grande com o tempo das cavernas.

Estou longe de ser feminista, mas liberdade é o meu bem mais precioso. Paris não é o melhor lugar pra se viver e nem é um lugar assim tão seguro, mas é um símbolo de valores de autodeterminação,  justiça e liberdade.  Quando terroristas atacam Paris, além da dor que eles causam nas famílias eles atacam frontalmente esses valores, que são preciosos para um mundaréu de gente.  Quando Paris é atacada por terroristas que utilizam o estupro como prática religiosa eu sinto como se os poucos lugares do mundo onde uma mulher pode ser realmente ser livre esteja correndo o risco de deixar de existir. Tem dias que são tristes demais.

 

 

Dona Frida entra na moda

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Dona Frida, 93 anos, chegou a consulta rindo, acompanhada da filha. Eu a operei há 3 anos. Ela é lúcida, cozinha e faz bolos. Me contou que fez aniversário na  semana passada. Mora sozinha e as filhas providenciaram uma cuidadora  recentemente. Disse que tinha algo para me contar, naquela mistuar de português  com alemão que alguns idosos falam no interior do Rio Grande do Sul. “Doutora, a moça que me cuida disse que não estar depilada é fora de moda. E me depilou toda para vir à consulta.” E sorriu, com carinha de criança sapeca. Eu expliquei que não havia indicação médica para a depilação. E que a depilação completa inclusive poderia deixar a região desprotegida. Dona Maria leva minhas orientações muito a sério, mas dessa vez ela sequer me ouviu. Ela estava naquele estado em que a cabeça fica leve e auto-confiança atinge o seu máximo. Impossível convencer uma mulher que está se sentindo “na moda” do que quer que seja. Não é todo o dia em que uma mulher se sente assim.

(postado no Facebook em 18/09/2013)

Selagem térmica

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Selagem térmica. Um dos milagres do cabelo liso e sem frizz do século XXI. O melhor de tudo, segundo os fabricantes, é que não tem formol. Uma verdadeira dádiva para a auto-estima da “serumano”. Quando o produto está evaporando sob a chapinha ou escova eu estranhamente sou assaltada por recordações juvenis. Tenho a sensação que estou caminhado pelo subsolo da faculdade, com o meu avental branco e o estojinho de dissecção ma mão para mais uma aula prática de anatomia. Até sinto falta do nosso camarada Hulk, o cadáver acometido por um fungo verde na pele. Aí não sei se as lágrimas que me vêm aos olhos são por causa do produto da selagem – que não é formol, diga-se de passagem – ou se são saudade de um tempo em que eu era feliz e não sabia.

 (postado no Facebook em 12/08/2013)