Arquivo da tag: por aí

As coisas que não são guardadas

beggar2 (1)23:45 e eu vinha de boas pela rua voltando pra casa e um morador de rua que aparenta uns vinte e poucos anos me parou, falando com uma voz empostada de locutor de rádio AM.
– Madrinha, eu não sou ladrão. Consegue um trocado?
Com pressa, comecei a mexer na bolsa procurando uns trocados. Não era uma situação exatamente segura. Ele pareceu ler meus pensamentos.
– Madrinha, vou ficar aqui mais longe pra tu ficar à vontade pra procurar.
Bolsa, cheia, eu não conseguia catar todas as moedas que queria. Discretamente, comecei a observá-lo. Não estava desnutrido, tão sujo ou mal vestido quanto os mendigos há tempo na rua. Já vivi o suficiente pra ver outra grande crise com desemprego em massa e sempre morei nos bairros boêmios. Meses depois da crise atingir seu auge, pessoas como ele vão parar na rua. Não entendo nada de economia, mas sei quando os indicadores pioram. A população de rua aumenta, simples assim. Ele estava de costas e virou-se:
– Com todo o respeito, madrinha. A senhora é um mulherão.
O que um homem como ele não faria se fosse vendedor? Eu teria comprado um carro, um apartamento.
Enchi a mão de moedas, ele abriu a mão e eu as entreguei. Eu já estava de costas quando virou.
– Madrinha, tem uma coisa aqui que é sua.
Ele abriu a mão cheia de moedas e eu vi a minúscula embalagem rosa. Era um absorvente interno. Sempre acho mais fácil gargalhar que morrer de vergonha, mas meu desconforto era visível.
– Esquenta não, madrinha. Ninguém viu.
Continuei meu caminho em mais um capítulo da saga “passo vergonha porque minhas coisas nunca estão lugar onde deveriam. “

Sobre ideogramas, moda japa e blogueiras feias

 

images

Eu não posso enxergar um ideograma. Tenho um tatuado na pele. Da vitrine, os risquinhos orientais me atraíram como uma força gravitacional. Entrei na loja, mesmo sabendo que ali um vestido custa o preço do meu rim direito. Muito cetim, desenhos que remetiam ao Japão, mas os ideogramas eram poucos. As estampas eram lindas e mas os cortes eram esquisitos, aquele tipo de falta de estrutura que só fica bem em mulheres magras feito cabides. O gerente purpurinava pela loja enquanto a vendedora tentava me convencer a provar algo. Lá pelas tantas ele resolveu me achar.

– Quero te mostrar algo que é a tua cara.

Tenho medo dessa frase, a peça que me mostram me diz que eu tenho cara de louca ou de burra. Eu estava vestindo preto e botas de caubói. O que haveria na coleção japa parecido com o que eu estava usando?

– Olha só, é lindo!

Ele segurava a peça em um cabide com o braço estendido, alto do chão. O tecido era preto e  vaporoso, com umas poucas flores esbranquiçadas aqui e acolá. A saia era longa e ficava mais larga em baixo. Uma coisa meio baiana-gótica. A estampa ficaria bem na minha avó e olhe lá.

– Olha, não é bem o meu estilo…

– Vai ficar ótimo em ti, experimenta!

– Eu não uso saia longa.

– Mas essa é linda, usa!

– Com um quadril do tamanho do meu? Nem pensar!

Todos os vendedores balançaram o pescoço em sinal de negativa, como se o que estivesse dizendo fosse uma rematada bobagem.

– Linda, esse tipo de roupa corta o quadril todo! As clientes que nem tu adoram!

Nos minutos seguintes, ele me repetiu a mesma frase três vezes e me ocorreu perguntar pra que existia cirurgia plástica, se aquela a saia da baiana gótica cortava praticamente todo o quadril. O homem insistia.

– Mas as gordinhas usam, vou te mostrar um foto da blogueira que esteve aqui nessa semana.

Até fiquei curiosa. O homem trouxe um I Pad, mostrado com orgulho. Eu nunca tinha visto a tal mulher na vida. A cor do cabelo não combinava com o tom da pele. E saia de baiana gótica na baixinha, atarracada e sem cintura chegou a me despertar uma certa pena.

– Então? Vamos provar?

Perdi a paciência.

– Olha, tu vai me desculpar. Eu achei muito feio.

Ele me olhou como se eu fosse uma coitada. Continuei.

. Reforçou a opinião que eu tenho a respeito de saias longas em mulheres baixinhas tamanho GG. Parecem ensacadas. No caso, um saco de batatas.

O homem largou do meu pé e eu saí da loja, irritada com tanta insistência. Caras ou baratas, as lojas costumam subestimar a inteligência feminina na tentativa de fazê-las comprar qualquer porcaria. Em seguida pensei na blogueira que despertou minha pena. Talvez a única diferença entre nós as duas seja que ela ganha pra pagar mico. Faço isso de graça, com a minha falta de tino comercial.

 

Recalculando a rota

recalculando a rota“Às vezes a gente tem que fazer igual a moça gentil do GPS e recalcular a rota, se pegar um caminho equivocado.  Afinal, a gente erra de estrada o tempo todo.” Disse uma amiga que está fazendo uma correção de rota dramática. Mais que um comentário bem humorado sobre os aplicativos que mudaram o deslocamento das pessoas nas cidades, ela estava falando sobre a vida.

Salvo os muito pacatos ou aqueles que têm a sorte (ou o azar) de a vida ter saído exatamente como planejaram, a maioria de nós tem duas opções quando pega o caminho errado ou quando a estrada se modifica abruptamente: ou bem recalcula rota, ou fica parado. Assim como a gente se agonia enquanto a moça simpática faz novas contas pra nos levar onde gostaríamos, é a ansiedade na vida, quando ela exige de nós uma revisão de percurso.

Quando olho para os meus sonhos e planos da juventude, vejo que nada saiu como eu planejei. A vida me impôs um recálculo dramático de rota nos últimos anos.  Sem saber a que recorrer, fui olhar para infância na tentativa de enxergar o que realmente era importante pra mim. Um endereço a ser digitado para que a moça gentil do meu GPS mental pudesse calcular um novo percurso.

Correr mundo, ser escritora, ter uma vida cheia de gente – eram as três coisas que eu queria na vida.  Aos doze anos, decidi que queria ser diplomata, mas a doença do meu pai alguns anos depois colocou meu GPS para trabalhar pela primeira vez, sem que eu eu percebesse. No ano seguinte, passei no vestibular para medicina. Demorei muito tempo pra perceber que a minha pouca paciência com rapapés me tornaria inábil para o mundo sutil da diplomacia. E hoje provavelmente eu estaria reclamando da vida em algum escritório do Itamary, frustrada. É um defeito mortal no mundo em que eu queria viver.

Dois anos atrás eu sofri um acidente e quase morri. Metida num jaleco verde e deitada num maca na emergência de um hospital em que ninguém me conhecia, eu me vi obrigada a fazer uma nova correção de rota. Não me tornei uma pessoa melhor (gostaria de dizer isso, mas não é verdade), não cuido mais da minha saúde (minha família gostaria de me ouvir dizer isso, mas também não é verdade). Mas entendi que pode não haver tempo para correções suaves de rumo.

Criei coragem para mostrar a cara escrevendo.  Lancei um livro e o  www.deusmelivreserbege.com tem um ano em meio e mais de dez mil acessos. Ainda não ganhei um centavo com isso, mas a minha vida ficou mais divertida.  Comprei uma ampulheta com areia rosa choque que fica à minha vista, em casa, enquanto tento escrever meu primeiro romance. Pra me lembrar que pode não haver tempo para correções suaves  na trajetória e que eu preciso fazer escolhas

Ontem colei um adesivo amarelo de mapa-mundi na minha parede de casa, cor de beterraba. Pra não me esquecer que economizar é fundamental.  Ainda não vi o Rei Tut (quase um amigo, afinal, foi ele que me fez perceber que o mundo era grande, aos dez anos), não sentei na frente do Príncipe dos Lírios, não vi a serpente emplumada. Mas já tomei cachaça num bar pouco recomendado pra turistas no Pelourinho, dancei na rua numa parada de São Patrício em New Orleans,  vi a Nefertiti.

Encher a minha vida de gente foi o melhor de tudo.  Abrir meus braços para pessoas muito diferentes de mim e escrever trouxeram mais amigos do que eu poderia imaginar. E agora, terminando de escrever essa crônica, me dei conta que talvez a minha vida esteja como deveria estar: bagunçada, colorida, cheia gente. Nada está em seu lugar e tudo pode (e vai) piorar qualquer hora dessas em que eu errar o caminho ou a estrada mudar. Espero ter aprendido que recalcular rota não dói tanto assim.

Obs: Em homenagem à minha amiga que amanhã chega no destino desejado depois de um recálculo de rota que levou cinco anos.

 

 

Noli me tangere (não me toque)

1515, National Gallery, London.
1515, National Gallery, London.

A Páscoa sempre me lembra da figura bíblica que mais me impressiona e as poucas referências a ela são suficientes para estimular minha imaginação. A cena acima, representa o momento em que Jesus ressuscitado aparece para Maria Madalena . Na minha imaginação ela foi uma mulher corajosa sem medo de fazer escolhas, participando ativamente de um mundo extremamente masculino. Apaixonada?  Sem dúvida. Ninguém muda radicalmente de vida se não se apaixonar pela vida nova que decidiu levar.  A foto abaixo é minha, da imagem dela na Igreja de Santa Maria Madalena, pertinho do Panteon, em Roma. Um ótimo domingo em família pra quem não é de Páscoa e uma Feliz Páscoa para quem é.

IMG_3096 (Editado)

 

 

Minha pobre e linda Vera Cruz

 

512px-OrderOfCristCross.svg

De tempos em tempos Vera Cruz é estuprada.  Eles a cobiçam. Linda, alegre e rica e eles não deixam Vera escolher o que quer.  Ultimamente andaram querendo até limitar seu acesso a internet. Dizem por aí que Vera é a mais linda de todas. Acho Vera Cruz linda de morrer e tenho certeza que ela é exuberante como poucas.  Dizem também que os argentinos não gostam dela, mas é tudo bobagem. Todos se assombram com a sua beleza. E com o seu desamparo.

Vera Cruz é frágil.  Sempre tem um algum gigolô querendo se aboletar na  sua vida.  Vera Cruz acha que precisa substituí-los de tempos em tempos, mas não aprendeu a escolher, tem o dedo podre e erra muito.  Esses tempos descobriu que podia se relacionar com mulheres. Continue lendo Minha pobre e linda Vera Cruz

O que é coxinha?

image

Nina Jolie e Ni-Hao me perguntaram o quem é “coxinha” e quem é “coxinha”. Suspirei. “Na verdade seresumanos decidem quem é coxinha”. É  um tipo de preconceito com um certo tipo de gente. Nós as três, por exemplo.” As gatas não entenderam. Elas não têm coxa. Olharam para as minhas – decididamente não caibo no diminutivo. Perguntaram por quê. “Eu sou coxinha porque sou médica e tudo que consegui foi com trabalho duro, estudo e concursos concorridíssimos. Vocês são coxinhas porque são minhas filhas.”

As gatas me olharam com a perplexidade que olham para as minhas idéias de primata. Apesar da minha pretensa sofisticação cerebral, elas sabem que eu não passo de um macaco sem rabo. De mim, só invejam o polegar opositor. Continue lendo O que é coxinha?

O açougueiro gripado

   Adam Levine é o homem do momento. Ponto. Objeto de desejo da torcida do Flamengo. Oazar da Maroon 5 foi ter feito um show na Província do Rio Grande de São Pedro sete dias depois dos Rolling Stones. Cada um imagina um pop star do jeito que imagina. Eu tinha na cabeça o perturbador clip Animals em que ele interpreta um açougueiro. Chovia a cântaros, como no show dos Stones.

A banda abriu justamente com a música que me levou ao show. E eu queria ver o homem que caça a mulher como uma presa pela noite, aquele do vídeo. Com o açougueiro sexy na cabeça, fiquei esperando que Adam Levine se molhasse junto com os fãs. Plateia indo ao delírio, uma música, a seguinte, a terceira e nada do homem chegar na pontinha do palco. De longe, onde eu estava não vi isso acontecer. Sem capa de chuva (detesto), eu esperava que ele se movesse como Mick Jagger, terminando o show com os cabelos tão ensopados quanto os – fãs.

Com a plateia na mão, Adam Levine continuava dançando na área coberta. Decepcionada, resolvi indagar ao redor para ver o que o povo achava. “Estranho que ele não se molha, né?” Perguntei pra uma menina. Ela me olhou muito séria, com a mão na a própria garganta. “Vai ver é pra não se gripar, né? A voz dele vale ouro. Se ficar gripado não tem o próximo show”. Fã perdoa qualquer coisa. Imaginei o açougueiro do vídeo sinistro com medo de ficar gripado. Molhada até os ossos, ri da minha fantasia adolescente, que derretia com a velocidade que escorria a minha maquiagem.

            Com uma ponta de ironia, imaginei que o show fosse ser encerrado com Moves like Jagger. A essas alturas, Adam Levine exibia parte das tatuagens. O palco ficou escuro e ele surgiu sem camisa tocando guitarra e cantando Sugar. A FIERGS veio abaixo. O homem é lindo mesmo. Um açougueiro com medo de ficar gripado, talvez asmático – resolvi acomodar minha frustração de alguma forma, enfim. Se vestido Adam Levine não tomou chuva, sem camisa menos ainda.

Aí o show acabou. Me animei. Mais um pouco de Adam Levine sem camisa. Quem sabe ele finalmente tomasse chuva com a gente. Mas o show acabou e ponto. Esperei que a plateia pedisse bis ou vaiasse. A plateia saiu mais ou menos como a Gloria Pires. Aparentemente não teve condições de opinar. Fã perdoa qualquer coisa. Já eu saí com opiniões demais. Não consigo tietar, ou mesmo me apaixonar por um homem que não toma chuva comigo.

Cena do vídeo Animals


Capitão América, Batgirl e outros problemas da infância

61H+RPlQdCL._SX342_Tem conversas que a gente não consegue evitar de ouvir. Eu estava de costas, não pude ver as expressões das duas mulheres jovens que conversavam sobre os seus partos e filhos pequenos:
– O parto meu não foi humanizado. Teve episiotomia (a incisão para que a saída do bebê seja facilitada), enema (a lavagem intestinal para que o intestino esteja vazio na hora em que a mulher realmente precisar fazer força, quando o bebê nasce). Muito difícil. Foi parto normal e eu recebi analgesia.  E senti pouca dor.
– A minha filha nasceu de cesareana…
– E desde que o fulaninho tem dois meses eu me organizo financeiramente para o aniversário de cinco aninhos.
– Então a festa vai ser grande! Ele já escolheu o tema?
– Ele quer Capitão América! Quer porque quer. E eu acho tão colonizado, tão influenciado pela mídia americana. Eu argumentei, expliquei, até que resolvi dizer que não pode. Mas ele não escolhe outro tema! Estou tão preocupada…
Num instante me senti reconfortada por ter nascido antes desses tempos politicamente corretos, apesar de não haver festas de aniversário temáticas da Batgirl. Se tivesse, seria a minha escolha aos cinco anos. Sempre amei o macacão roxo, da série antiga da TV. Era uma das minhas brincadeiras de criança. Ser livre como a Batgirl, ser amiga do Batman e do Robin e ter uma motocicleta roxa. Mas a festa não existia e eu nunca tinha visto uma moto como a da dela. O que não existia, não era problema. Existia no meu imaginário. Já o menino que não vai poder brincar de Capitão América no dia do aniversário sabe que a festa existe, talvez até já tenha visto uma. Tempos estranhos. Ou vai ver não entendi o drama porque escolhi não ser mãe.

Marilyn?

Marge Simpson Marilyn Monroe William Travilla Art Cartoon Illustration Satire Sketch Fashion Luxury Style Iconic Dresses all the time The simspsons  Humor Chic by aleXsandro Palombo (2)

Eu vinha pela rua com as mãos cheias de sacolas do supermercado, sapatilha e vestido de bolinha, pertinho de casa, quando uma rajada de vento me deixou naquela situação em que a gente não sabe o que faz primeiro para contornar o constrangimento. Depois dos intermináveis segundos que eu levei para me recompor, o guardador de carros que assistia a cena disse, alto para que eu ouvisse. “Marilyn Monroe”. Cai na risada. Era mais fácil que morrer de vergonha. Sempre é mais fácil cair na risada. Eu nem de longe me pareço com ela e e ele também sabe disso. Também não vem ao caso o quem ele é ou quem eu sou. O homem estava sendo (muito!) gentil com uma mulher numa situação extremamente constrangedora. Felizmente a gente ainda encontra pequenos gestos de cavalheirismo.