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O triângulo amoroso

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Era um bar desses de mileniais, onde cada um faz o que quer e ama quem quer. Onde o amor é líquido e gente que amar de maneira sólida só encontra diversão se não se levar a sério. Em se tratando de amor, há muito tempo decidi que a seriedade deveria ficar no passado. A música na pista era excelente, a festa corria solta. Às vezes fico apenas olhando a festa acontecer, sem entrar nela. A forma como a nossa espécie dança a dança da aproximação (ou a dança do acasalamento, se preferirem) me intriga, sempre. No meio da muvuca, o trio chamou minha atenção. Entraram de mãos dadas, em fila indiana.

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O Estado Islâmico tem medo de mulher

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Até onde eu sei, o Estado Islâmico é a única organização que tem textos escritos por religiosos justificando o estupro.  Quem estupra uma infiel (uma mulher não muçulmana) automaticamente a torna muçulmana. (reportagem aqui). Além de causar horror, também é isso é uma estratégia para arregimentar soldados naquelas culturas em que o namoro e o sexo são proibidos. O cara entra para o EI para poder transar e a ideologia construída  o isenta de qualquer culpa. É de uma crueldade sem precedentes. Os integrantes do EI, acreditam que se matarem e estuprarem bastante vão para o paraíso, onde receberão 72 virgens. (sobre as origens da crença)
O Estado Islâmico domina uma parte da Síria, onde moram os curdos. Os curdos são um povo antigo do Oriente Médio. Assim como os iranianos eles são muçulmanos, mas não são árabes. São famosos por serem grandes guerreiros desde a antiguidade. Saladino, o chefe militar que retomou Jerusalém, magistralmente interpretado ator Ghassan Masoud no filme a Cruzada, era curdo.  (sobre Saladino, leia aqui). Com Curdistão sendo tomado pelo EI, as mulheres se juntaram aos homens no combate. E uma coisa surpreendente aconteceu. Os guerrilheiros EI morrem de medo de serem mortos por mulheres. Uma mulher armada é um sacrilégio. Nesse caso perderiam o paraíso e as 72 virgens. (reportagem aqui)

A Coronel Nahida Ahmad Rashid (na foto acima) é conhecida como a Rainha Guerreira, que lidera o segundo batalhão do Curdistão, com 500 soldados de elite, todas mulheres. E é o pavor dos guerreiros do EI. As curdas são lindas e o batalhão é conhecido pela ferocidade. Se uma delas for capturada, é torturada e degolada. E pode derrubar o moral da tropa. A última bala das armas nunca é usada nas batalhas. Serve para que a mulher se suicide, caso seja capturada. (recomendo a leitura!)

Os cristãos são uma minoria na Síria e e as mulheres capturadas não têm um destino diferente das outras. (sobre leilão de mulheres e crianças – se tiver estômago) O sucesso das milícias curdas está estimulando as mulheres cristãs a participarem das batalhas (foto abaixo), aumentando a dor de cabeça do EI. De uma certa forma, o horror da guerra está reduzindo as diferenças entre homens e mulheres, em uma região onde a opressão é a regra. (sobre a milícia cristã, leia aqui. Recomendo!)

O medo de mulheres guerreiras sempre esteve presente na história da humanidade, principalmente nas culturas onde o papel das mulheres era praticamente nulo. Os gregos antigos inventaram as amazonas, uma tribo de mulheres guerreiras impiedosas. Os romanos ficavam muito assustados com os bárbaros germânicos, que lutavam ao lado das suas mulheres. Por outro lado os egípcios antigos , que tinham rainhas poderosas não se preocupavam muito com isso. Vai ver tinham mais o que fazer. O EI só está reprisando um medo primitivo masculino. Se eu fosse da inteligência da coalização ocidental que atua na Síria, manteria soldados vestidos de mulher nos campos de batalha, combatendo o EI com a sua própria ignorância.

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O amigo secreto da Dona Lucrécia

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Milo Manara. Sex, War and Beauty

Cerca de três semanas atrás a campanha #omeuamigosecreto invadiu as redes sociais. A proposta era denunciar casos de assédio e maus tratos perpetrados por homens muito próximos. De início, achei esquisito, exagero das feministas. Lidar com assédio nunca é fácil – eu teria alguma história pra contar, como toda mulher. Ainda assim, achei realmente exagerado, o tipo de coisa que daria mais espaço para a radicalização, na qual eu não acredito. Até que Dona Lucrécia entrou no consultório.

 

Pobre, baixa escolaridade, casada. Uma cirurgia para a retirada de um tumor benigno há quatro anos acabou precipitando a piora do quadro psiquiátrico e ela passou por três internações. Nesse dia ela estava lúcida, daquela lucidez perturbadora em que os doentes mentais falam das coisas com propriedade e fazem pensar. Dona Lucrécia tem um amigo secreto. E ele também atende pela designação de marido. Não estou falando daqueles casos flagrantes em que a solução é a Lei Maria da Penha, estou de falando de situações mais comuns.  E de gente comum, como eu e você.

 

Mais uma consulta em que ela vem dizendo que tem muita dor e o exame físico e os exames de imagem não sugerem nada.   Perguntei se algum estresse ou desgosto poderiam estar causando a dor. Ela me olhou com os olhos muito límpidos e me contou que tinha relações sexuais com o marido sem ter vontade, porque ele “se emburrava”, “ficava com raiva” e ela “tinha medo que ele procurasse outras na rua e trouxesse doença pra casa”.  Dona Lucrécia e o marido habitam o mundo sombrio das relações não consentidas dentro do casamento. Mundo esse habitado por uma infinidade de casais.

 

Essas relações se dão por pressão do marido sem a vontade da mulher. Seja por temer as consequências da raiva, infidelidade, privação financeira, afastamento emocional e solidão parece menos  difícil abrir as pernas que impor limites. E a mulher mergulha num ciclo de insatisfação raiva, e baixa autoestima, do qual não consegue sair. O mundo sombrio das relações sexuais não consentidas não escolhe idade, nível social, escolaridade. É um mundo sem piedade. A mulher espera que o marido a entenda, sem que ela mude de atitude. Também é um mundo que não poupa ninguém. Basta que a mulher consinta ter relações quando não quer. Ainda hoje, homens e mulheres são educados para acreditar que as relações sexuais fazem parte das obrigações matrimoniais femininas.

 

Para aquelas mulheres que têm condições emocionais para tanto, a única maneira de romper o ciclo é aprender a dizer não, impor limites ao outro, quem quer que ele seja. Implica em diálogo, ter a capacidade de falar das suas frustrações e ter de ouvir também. Não raro essas mulheres se surpreendem ao saber que o marido também tem frustrações e queixas. Do outro lado, na imensa maioria das vezes não está um monstro. Há um homem, cheio de ideias equivocadas e confusas  a respeito de sexo e casamento. Alguém que erra, como todos nós.

 

Não acho que a demonização do sexo oposto seja a solução. Já vi  casos em que o casamento pode ser retomado em bases mais sadias. Aliás, se demonização tivesse qualquer efeito no comportamento humano as pessoa seguiriam à risca as determinações religiosas. Também não tenho uma solução mágica e fácil para o problema, mas tenho certeza de  por onde a solução começa. O assunto é tabu. Dizer para essas mulheres que elas não têm o dever de manter relações sexuais é o primeiro passo. E fortalecê-las para a colocação de limites. Os tabus são varridos para baixo do tapete justamente para que não se fale deles. E a gente precisa falar sobre isso.

 

 

Supermercado II

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Sempre me divirto com a criatividade dos aplicativos de relacionamento. Existem aplicativos para achar namorado, ficante, parceiro sexual. Existem até aplicativos para quem gosta de homem barbudo, por exemplo. Dia desses eu descobri um aplicativo no qual a mulher é tratada como cliente e o homem como mercadoria. Os homens estão em ligeira desvantagem. As mulheres podem mandar mensagens sem a concordância dos homens. Eles não.

Na primeira impressão parece que os homens realmente são apresentados como mercadorias – ou como candidatos a emprego. As clientes têm uma lista de compras na qual podem especificar itens que procuram num determinado produto. Dá escolher cor de cabelo, homem que goste de cozinhar, que entenda de mecânica, que saiba dançar (item opcional de poucos modelos, infelizmente). Mas continua ainda sendo um supermercado desorganizado. http://deusmelivreserbege.com/2015/09/24/supermercado/ De cara, já sabia com o que encabeçaria minha lista. Tem que ser bem humorado. Não consigo gostar de um homem se não consigo rir com ele. De preferência, deve gostar das minhas piadas, mesmo as sem graça.Cadastro feito, comecei a navegação. ”Fulano lhe enviou solicitação de contato.” Eu poderia aceitar ou não para ver o que acontecia. Aceitando, o chat de abriu pra conversa. Desclassifiquei o candidato logo depois. Impaciente demais por um primeiro encontro. Não gosto disso, pode até ser perigoso. Há quem mergulhe de cabeça no papel de homem-objeto, O perfil mais divertido que eu li foi um em que o indivíduo se apresentava como um carro 78, quase sem uso, praticamente única dona.

Criatividade à parte, o cara pode se definir como freelancer (pega mais não se apega), estagiário (pra ver no que dá) e carteira assinada (quer romance).  Na verdade quase todo mundo é freelancer. Me diverti um bocado com um sujeito que se apresentou como freelancer e disponível para adoção. Depois de dizer que não queria papo, ele tentou me convencer que eu não tinha entendido direito a proposta. Lá pelas tantas ele perdeu a paciência e me disse que o que ele realmente queria uma mulher disponível (agenda livre pra ele, sem restrições), geograficamente próxima (o que era o caso) e que nunca em momento algum reclamasse ou cobrasse nada. Sugeri uma boneca inflável.

Aí me dei conta que poderia pedir reserva da mercadoria. Reserva, na bucha. O serumano que aceita reserva não consegue conversar com outra mulher no chat do aplicativo durante 24 horas. Eu teria exclusividade na entrevista. Em se tratando do mundo virtual, 24 horas é quase a eternidade, principalmente num sábado. Eu, se  fosse homem, não aceitaria reserva. Ou talvez aceitasse, é o tipo da coisa que pode aumentar a popularidade.

Ato contínuo, me dei conta que o aplicativo me mostrava as rivais. Hã? Deu vontade de sair correndo. Em seguida lembrei de uma amiga que conversava com um boy americano. Um dia ela descobriu que ele também conversava com a prima dela. O sobrenome das duas não deixava dúvidas, ele sabia disso. As rivais estão ali só pra evitar que duas amigas conversem com o mesmo cara. Às vezes o mundo virtual parece assustadoramente pequeno. A gente encontra pessoas que conhece no mundo real. E às vezes, pessoas que a gente conhece bem. Encontrar um colega de trabalho num aplicativo desses é esquisito, muito esquisito. Ao menos eu acho.
Os homens são tratados como mercadoria, mas as mulheres também. Eles também fazem uma lista de compras no seu perfil, com os opcionais desejados. Dá pra procurar por cor do cabelo, tamanho, tipo de corpo, estilo e uma série de outros opcionais – alguns bem ousados, inclusive – bem mais ousados que os opcionais masculinos, que incluem um inocente cueca boxer como opcional de fábrica.
No fundo mesmo o jogo é sempre o mesmo, só é mais bem humorado. Os aplicativos tem regras exclusivas do mundo virtual e mais aquelas do mundo real. O mais impressionante é que tem gente que não se dá conta. E se irrita, xinga, faz o diabo. A proteção da tela do computador não aumenta as chances de conhecer alguém que não daria bola pra gente na vida real. E essa regra é clara, não importa onde a gente esteja jogando o jogo da aproximação.

Luz Vermelha II

 

E aí eu perguntei pra vendedora da Sex Shop no Bairro da Luz Vermelha para o que servia um creme com a embalagem estranha.

– É para a depilação.

Hã? Eu pensei. Pra que diabos é o creme? Os pelos caem milagrosamente? Faz a pele mudar de cor? Será que fica fluorescente? Vai saber, em se tratando de Amsterdã tudo é possível. Pedi que ela me explicasse.

– É pra doer menos.

Os holandeses tiram onda com os turistas sem dó. É a gente fazer uma pergunta idiota que ouve uma gracinha. Perguntei no aluguel de bicicletas se eu conseguiria ir até o parque pedalando e o “serumano” respondeu que dependeria da minha capacidade de não provocar um acidente. E continuou se divertindo enquanto eu penava pra subir numa bicicleta muito alta pra mim – os holandeses são o povo mais alto do mundo, segundo a Wikipédia.

A depilação completa é uma invenção brasileira. Algumas europeias sequer depilam a axila. Aproveitei a ocasião para tirar onda também.

– Dói tão pouco, não precisa de creme. Sou brasileira, lá ninguém dá bola pra isso…

A mulher fez uma careta.

– Desde que vocês exportaram a brazilian wax, a gente tem que fazer isso. Vocês são loucas. Tenho até medo das outras coisas que vocês devem ser capazes de fazer.

A criatura que me dizia isso tinha atrás de si um armário envidraçado cheio de vibradores. Pirocas de várias cores, tamanhos,  e funções. Tinha até piroca de ouro e de vidro. Continuei o papo.

– Doer até dói. E algumas brasileiras até fazem depilação definitiva com laser.

A mulher ficou surpresa. Devia sofrer muito com a depilação. Fez outra careta quando eu disse que depilação a laser dói, mas praticamente resolve o problema e apenas requer retoques anuais. Parecia esperançosa.  Finalmente perguntou se realmente funcionava.

– Funciona muito bem, mas apenas  em pelos pretos e espessos.

A alvíssima criatura fez uma cara de profunda decepção.

-Isso é injusto. E vocês brasileiras são muito esquisitas mesmo.

A gente estranha o que afronta o senso comum – o senso comum é o da terra da gente. No Brasil, os rituais de depilação iniciam na puberdade. Vai ver ela foi criada numa cultura em que as mulheres não se depilavam. E aí as esteticistas brasileiras que emigraram passaram a fazer a brazilian wax fora e a moda ganhou mundo. Imagino que aqui no bairro da Luz Vermelha deve ter havido adesão em massa, para sofrimento da minha amiga.

Luz Vermelha

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Eu sabia que estava perto do bairro de prostituição, que é legalizada na Holanda. Elas pagam impostos, como todo mundo. O que é proibido é a exploração das mulheres. Fui pedir informações precisas no balcão meu hotel.

– Boa noite. Onde começa o Bairro da Luz Vermelha?

O homem me olhou como se tivesse pena. Fosse em Uruguaiana, na minha terra, ele pensaria. “Esse animal burro não ainda entendeu que está em Amsterdã”. Deve ter pensado algo equivalente em holandês.

– Querida, atrás do hotel já é a Luz Vermelha. Tecnicamente, estamos nela.

Com mais uma gafe no meu currículo e um tanto receosa, fui pra lá, evitando contato visual com os homens que circulavam. Logo me dei conta que eles nem olhavam para as turistas. Mais seguro impossível. Andei por todo o bairro, sem nenhum problema.

As mulheres nas vitrines estavam seminuas, bonitas, algumas lindas. Mas as roupas que algumas que delas usavam não eram muito menores certas que roupas de balada no Brasil. A gente exagera, sem precisar. Uma delas era de dar inveja até em mulheres com a auto estima nas alturas. Poderia estar em Hollywood. Me perguntei o que ela estaria fazendo ali. Deve gostar do que faz. Sou médica no SUS e tem gente que não entende que escolhi fazer isso. E depois, os homens olhavam pra ela hipnotizados. Deve ter lá a sua graça. E deve dar uma sensação de poder também.

Entrei na Sex Shop ao lado. Existem muitas lá. Várias coisas eu não tinha a menor ideia pra que serviam. Isso que essas lojas não eram novidade pra mim. As vendedoras respondiam rindo, ou entediadas. Dei boas risadas com elas. Vi uma família, uma mãe e duas filhas comprando toys – o novo eufemismo para os vibradores. Programa familiar, tudo muito natural.

Descobri que a naturalidade holandesa para tratar do assunto não é desprovida de malícia. Os vendedores homens tiram onda com as turistas. E se um grupo de mulheres começa a rir, mexendo nos toys e chicotes eles entram na brincadeira. Até mesmo rola cantada, mas a gente tira de letra como se safar delas. Voltei para o hotel achando que as mulheres se divertem mais por lá do que os homens – as mulheres se divertem muito comprando. Hoje quando acordei pela manhã, percebi que o neon que eu via da janela do meu quarto é uma dançarina de pole.

To be or not to be (nude)

 

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Na selva amorosa do século XXI mandar ou não mandar nudes é um dilema que se impõe As pessoas trocam fotos nuas, via de regra sem o rosto, mesmo quando ainda não se conhecem pessoalmente, ou talvez até porque não tenham nenhuma intenção de se conhecer. Sou uma mulher prática. Nunca vi muito sentido em posar nua de graça. Sempre foi um trabalho muito bem pago. Pelo menos até aqui.

               Na semana, a Playboy americana anunciou que não publicará mais fotos de mulheres nuas. Segundo seus editores, o nu na revista perdeu o sentido devido a enorme quantidade de conteúdo erótico que as pessoas trocam em seus smartphones. Erotismo passou a ser gratuito e fartamente disponível. E as pessoas comuns substituíram as modelos esculturais.

    Progressivamente, serviços gratuitos oferecidos pela internet foram substituindo serviços que tinham um custo no mundo real. A tiragem dos jornais só tem feito diminuir. Mas isso é apenas uma das razões. Tenho pra mim que a troca de conteúdo erótico entre pessoas que se conhecem talvez estimule mais a sensação de proibido, pecaminoso e de risco, mexe com a libido. Isso se a criatura tem um mínimo de domínio da linguagem erótica. Amiga minha me contou que ficou profundamente decepcionada ao receber uma foto de um boy (muito bonito) que ela curtia no mundo virtual. Ele estava pelado e de havaianas. Não foi exatamente uma imagem sexy. Ao menos não para ela. Poderia ter sido até pior se ele estivesse de boné. Pra mim seria.

     Aparentemente, a decisão da Playboy marca o fim de uma era. Aquela em que o nu feminino era ansiosamente aguardado, mês a mês e uma mulher exuberante e famosa ocupava o imaginário masculino. A escritora Anais Nin dizia que o erotismo é uma forma de auto-conhecimento como qualquer outra. A necessidade de expressão existe, do contrário as pessoas não correriam o risco de exposição, que pode ter sequelas psicológicas devastadoras. A tecnologia permitiu que as coelhinhas esculturais fossem milhares de mulheres anônimas. Todos os tipos de corpos e idades. Infinitamente mais democrático. Alguém faz a foto e em algum lugar do mundo alguém a vê. É um fenômeno atual. Tão atual quanto a necessidade que outros têm escrever um texto, sobre qualquer assunto e espalhá-lo na blogsfera, com o objetivo que alguém o leia. E goste.

As outras coisas do amor

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Joana entrou no consultório sorridente como de costume, cabelos vermelhos cacheados pelos ombros, desgrenhados.  costume.  Uma mulher com maternidade à flor da pele. Fala pausada, baixa, tranquila, acolhedora.  Há quatro anos teve um câncer de colo uterino. O tumor era grande, não havia possibilidade de cirurgia e ela foi encaminhada para a radioterapia. Durante o tratamento, o seu único  temor era não poder criar os cinco filhos.  Chorava em todas as consultas.

Hoje ela tem a alegria das pessoas que são gratas por estarem vivas, apesar dos problemas que a radioterapia deixou.  No final da última consulta, veio uma pergunta:

–  Doutora, que quero muito perguntar uma coisa, tenho vergonha, mas a senhora é minha médica e é única pessoa desse mundo para quem eu posso perguntar.

Incentivei  Joana a continuar falando.

– Como a senhora sabe, eu não consigo mais fazer amor com o meu marido como antes. Nós estemo junto há vinte e dois anos e nós se amemo muito. E nós precisemo se amar, a gente se quer muito bem. Então a gente faz as outras coisas do amor.

Joana baixou a cabeça, mais um pouco constrangida e continuou:

– Eu queria saber se eu posso fazer essas coisas, se não vai me fazer mal pra saúde por causa da doença que eu tive.

Fiz duas ou três perguntas para entender exatamente de outras coisas do amor ela estava falando. Depois continuei:

– Joana, tudo pode em termos de amor sexo – se os dois estejam gostando, tudo pode.

Joana sorriu, satisfeita. Dei algumas orientações técnicas sobre o assunto.  Joana sabia de todas elas. Na verdade, só queria assegurar-se que estava tudo bem. Alguém deve ter dito que ela não deveria fazer as outras coisas do amor. Solicitei os exames de rotina e agendei consulta seguinte.

Parei pra tomar um café. Às vezes eu preciso parar para digerir as coisas que ouço, ouvir o ritmo, apreciar a beleza. Posso perder a vida que está nelas. Seria bem mais simples se o corpo não fosse fragmentado e o amor fosse visto como Joana vê:  afeto e sexo juntos, misturados, complementares. Lamentei ter tanta coisa para fazer. Era tema pra pensar uma tarde inteira. Joana é poeta e não sabe.

Fernanda aprende a dizer não

Broken heart
Broken heart

Abaixo o prontuário de Fernanda, com alguma licença poética,

Consulta1: Fernanda chegou à consulta cabisbaixa, triste. Trazia nas mãos uma nota de alta. Internação por dor abdominal, vários exames, sem diagnóstico. Diarista, trabalha muito, tem dor há mais de 3 anos, desde o nascimento do segundo filho. A dor piorou há três meses. Estava com um marido novo. Anotei as informações, examinei, mas parecia que havia mais no silêncio do que nas palavras dela. Perguntei se não havia algo que tivesse desencadeado a dor. Ela disse que não. Perguntei se não tinha acontecido nada de novo e se ela estava feliz com esse casamento.

– Eu me apaixonei perdidamente por uma mulher doutora, antes eu só tinha tido homens na minha vida. Fomos morar juntas, minha família quase me enlouqueceu. E ela era canalha, vivia tendo outras. Terminei tudo. Aí arranjei um namorado e ele se meteu na minha casa. Eu não queria casar, nem voltar a lavar cuecas.

– E a mulher por quem tu te apaixonaste?

– Vive me pedindo pra voltar, mas eu não quero fazer isso. Ela não presta.

Dei as orientações, prescrevi as medicações e pedi exames. Mais do que qualquer coisa, ali me parecia ter a dor de um coração partido. Remarquei uma consulta para 30 dias.

Consulta2: Fernanda volta um pouco melhor, parecia menos ansiosa, talvez resultado das medicações. Continuava casada, mas não estava mais lavando cuecas. Reduziu um pouco ritmo do trabalho e estava dormindo melhor, coisas fundamentais para pacientes que têm dor crônica. Parecia mais confiante. Falou um pouco da sua vida. A ex-companheira continuava insistindo pela retomada do relacionamento. Ao encerrar a consulta, parecia que ali ainda tinha um coração partido. Mas também eu tinha uma outra impressão:

– Das várias coisas que tu me contaste, Fernanda, me parece que tu tens muita dificuldade em dizer não. Aprender a dizer sim para as coisas que a gente quer é importante, mas dizer não para as coisas que a gente não quer é mais ainda.
Mantive as mesmas medicações e remarquei a consulta seguinte para dali três meses.

Consulta3: Fernanda retorna aparentando tranquilidade, usando maquiagem, cabelo cuidado. As medicações pareciam estar surtindo efeito, enfim. Disse que estava com pouca dor, dormindo bem, tinha conseguido retomar o ritmo de trabalho anterior. Financeiramente as coisas estavam melhores. Tinha dispensado o marido. E estava tentando dizer não para os familiares.

– E a tua ex-companheira?

Pela primeira vez , vi um sorriso largo:

– Voltei pra ela, doutora. E ela está comportada. E eu estou feliz. E minha família não gosta, paciência.

Remarquei a consulta seguinte para dali seis meses. Tem vezes que a gente não sabe se o que dói é o corpo ou a alma.

Constância

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Constância entrou na consulta bem humorada, bem vestida, maquiada, sorridente. Mas ela realmente tem dor, apesar de aparentar o contrário.  Às vezes, para uma mulher, acordar, vestir e maquiar fazem parte dos pequenos rituais de enfrentamento dos momentos difíceis da vida, como se fossem mecanismos de defesa, quase de não enlouquecimento. Após o exame físico, conversei sobre o tratamento.

– Constância, essa tua dor é dor é de origem muscular, mas não é nada grave. E é real (muitas vezes ouvir o médico reconhecer que a dor existe é terapêutico). Vamos usar analgésico e relaxante muscular. É importante que tu faças caminhadas, para melhorar a circulação na pelve. O relaxante muscular pode dar muito sono, então é importante que ele seja tomado imediatamente antes de dormir, depois que tu tiveres feito todas as coisas que tu precisas fazer.

Constância riu:

– Então Doutora, se eu tiver relação com o traste do meu marido depois de tomar a medicação eu posso dormir em cima dele? Ou embaixo? Até que não seria má ideia..